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quinta-feira, 19 de maio de 2011

Anorexia: recuperação total pode ser ilusória

Volta ao peso saudável nem sempre significa a cura total. Questão é polêmica inclusive entre especialistas no assunto

A médica Suzanne Dooley-Hash acredita que nunca conseguirá se recuperar totalmente da anorexia que a acometeu quando tinha apenas 15 anos de idade. Durante muitos anos, ela não costumava tomar laxantes constantemente na tentativa de perder peso, coisa que começou a fazer na metade dos anos 80, quando sua saúde estava “relativamente boa”.


Os pensamentos sobre seu peso não ocupavam cada segundo de cada minuto de cada dia seu. Mas em 2005, ela teve uma recidiva, e foi quando perdeu um terço de seu peso corpóreo em apenas seis meses. Durante 19 meses, afastou-se de seu emprego como médica de pronto-socorro da Michigan Medical School, em Ann Arbor para se dedicar à recuperação.

Assim como muitos pacientes com distúrbios alimentares, ela não tem certeza sobre o que de fato significa recuperação. “Por acaso significa 'funcional’?”, perguntou Dooley-Hash, 45 anos.

“Eu sou médica de uma instituição muito bem conceituada e nunca publiquei um artigo em algum jornal de respeito – e eu sou funcional. Não creio que funcionalidade seja necessariamente uma boa forma de medir isso”.

Dooley-Hash não está sozinha em sua dúvida. A maioria dos especialistas em medicina concorda com o fato de que um terço das pessoas que sofrem de distúrbios alimentares permanecerão cronicamente doentes, um terço delas irão morrer por essa causa e outro terço terá a chance de se recuperar – com uma restrição significativa. A concordância de opiniões é considerada incrivelmente baixa quando se trata de o que “recuperação” significa para pessoas com anorexia.

Na verdade, nas últimas décadas, foram feitos apenas alguns estudos de índices de recuperação em longo prazo e diferentes parâmetros foram usados em cada um.

“Sem consistência, fica difícil fazer uma comparação entre um estudo e outro”, afirma Michael Strober, professor de distúrbios alimentares e psiquiatra da Universidade da Califórnia, Los Angeles.

“Basta saber como a recuperação é definida em cada estudo para que se tenha uma interpretação balanceada”.

É difícil definir recuperação de uma doença que impacta dimensões físicas e mentais de um ser humano. Se, por exemplo, uma paciente atinge um “peso normal”, definido pelos pesquisadores como 85% ou 95% do peso ideal de uma pessoa, e começa a menstruar novamente, ela é considerada recuperada na maioria dos casos.

E se ela ainda tiver o costume de se pesar diariamente, fazer dieta, monitorar suas calorias de forma excessiva e tiver obsessão por comida e pelo tamanho de seus tornozelos? Ou, como geralmente acontece, se ela vai da anorexia à bulimia ou compulsão alimentar?

“Aproximadamente 50% das pessoas anoréxicas podem alcançar e manter um peso normal, mas a maioria delas expressa muita preocupação com a taxa calórica dos alimentos”, explica Katharine Halmi, professora de psiquiatria da Weill Cornell Medical College em New York City.

Ainda assim, ela acrescenta, “Muitas pessoas que nunca tiveram anorexia mantêm uma dieta rigorosa. Portanto, a grande questão é: de que forma se define recuperação? Ao manter o peso normal, a recorrência da menstruação é fácil de documentar. Já o estado mental é um problema diferente”.

Tendo isso em mente, as vítimas de anorexia preferem enxergar a recuperação da mesma forma como fazem os alcoólatras – a doença pode ser remitente, mas o potencial de recaída sempre paira em segundo plano.

“Algumas pessoas se sentem confortáveis em dizer 'em recuperação’, pois não têm aquela responsabilidade de estar recuperadas, que significa 'Nunca mais terei recaída”', explica Aimée Liu, 57 anos, autora do livro “Restoring Our Bodies, Reclaiming Our Lives”. Outras, continua ela, comparam seu distúrbio alimentar ao controle de uma doença crônica, como o diabetes, que requer cuidados constantes.

“Costumo dizer aos meus pacientes: 'Este é o seu calcanhar de Aquiles”', diz Daniel Le Grange, professor adjunto de psiquiatria da Universidade de Chicago e diretor do programa de distúrbios alimentares na Universidade da Chicago Medical Center.

“Se você tiver outra crise, terá predisposição a valer-se da fome como forma de administrar esse problema. Seria imprudente de nossa parte, como médicos, não alertar nossos pacientes para a incidência de uma recidiva”.

Muitos médicos acreditam que a recuperação da anorexia é raramente total e que, cada vez mais, acontece por etapas. Embora os pacientes possam apresentar melhoras, os aspectos da doença continuarão persistindo neles.

“Os livros sugerem que você pode ter uma recuperação física da perda de peso, mas os sintomas cognitivos podem não apresentar melhoras”, diz Kamryn T. Eddy, psicóloga do Massachusetts General Hospital.

“Os pacientes de fato melhoram, mas um dos fatores que questionamos é até que ponto o paciente precisa chegar para estar 'recuperado’ e até que ponto ele realmente chega”.

Na ausência de um consenso, pacientes e pessoas próximas tiram suas próprias conclusões a respeito de recuperação. Harriet Brown, autora do recém-lançado “Brave Girl Eating” (ainda sem tradução para o português), biografia de sua filha anoréxica de 14 anos, define recuperação como “relações extremamente comuns com os alimentos”. E o que exatamente vem a ser “comuns” nesse caso?

“Pensar sobre comida não consome ampla quantidade do seu tempo e energia”, ela explicou na entrevista. “Você gosta de comer, não deixa de comer nem come em excesso com frequência, ou seja, você não se encaixa em nenhum dos critérios de diagnóstico da anorexia. Seu peso está em uma faixa saudável. E, mais importante, você é capaz de viver de uma forma que não seja completamente moldada em torno de comida”.

Para Liu, recuperação é uma “restauração completa da saúde nutricional, física, emocional e psicológica”. Contudo, em conversa por telefone, ela, que foi ativamente anoréxica dos 13 aos 20 anos, reconhece que sem um bom tratamento, muitas pessoas passam anos naquilo que ela chama de “meia vida” de anorexia.

“Elas se recuperam no âmbito nutricional e suspendem os comportamentos ligados a fome, excessos e purgação”, explica Liu, que sofreu uma recidiva há 11 anos.

“Mas a autocrítica, o autoabuso, o perfeccionismo, o julgamento e a mentalidade restrita continuam”.

Ainda assim, tanto médico como pacientes enfatizam a importância de acreditar que a recuperação total seja uma opção. Kathleen MacDonald, assistente de orientação política da Eating Disorders Coalition em Washington, teve anorexia e bulimia durante 16 anos, mas se considera totalmente recuperada desde 2004.

“As pessoas sempre dizem que, uma vez que você contraiu um distúrbio alimentar, estará sempre com ele”, ela diz. “Eu costumo dizer a elas: 'Em algum momento da minha vida, eu não tive um distúrbio alimentar. Então, se isso é possível, tudo também é possível”'.

Para Dooley-Hash, o futuro parece um pouco mais sombrio. “Eu sinto como se nunca pudesse me descuidar”, alerta.

"Da próxima vem em que me sentir sobrecarregada ou estressada, meu primeiro instinto será voltar à restrição. Seria muito ingênuo eu pensar que isso não fará mais parte da minha vida’'.

* Por Abby Ellin

Anorexia hereditária

Estudo sugere que transtornos alimentares podem passar de mãe para filha

As causas dos transtornos alimentares ainda são desconhecidas mas uma nova pesquisa sugere que o problema pode ser hereditário.


Pesquisadoras da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da Universidade de São Paulo (USP) identificaram a herança psíquica dessas doenças atravessando gerações. Os resultados do estudo foram apresentados no último mês de março pela psicóloga Christiane Baldin Adami Lauand em sua dissertação de mestrado.

A autora analisou os hábitos alimentares das mães de adolescentes com anorexia nervosa que frequentaram o grupo de apoio psicológico aos familiares do Grupo de Assistência em Transtornos Alimentares (GRATA) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.

A análise foi qualitativa e o critério de seleção e foram acompanhadas, por um ano, as mães de cinco adolescentes em tratamento. Chamou a atenção, diz a autora, o fato de a maioria das mães trazer história de restrição alimentar em algum momento da vida, principalmente na infância, seja por questões financeiras ou restrição auto-imposta.

“Eram ruins de boca”, lembra Christiane, dizendo que assim se classificavam. “Não gostavam de comer, não queriam comer. Em comum, todas vivenciaram situações de restrição alimentar e, agora, suas filhas estavam sofrendo de anorexia nervosa”, conta a pesquisadora.

Repetição

A pesquisa mostrou que, depois do episódio de restrição, essas mães tentaram modificar um pouco a história. Ao se tornarem mães, muitas delas ofereciam aos filhos abundância de comida ou alimentos muito calóricos. Queriam dar aquilo que não tiveram. Num determinado momento, entretanto, as filhas passaram a restringir, por si mesmas, todo o alimento que tinham em excesso.

Christiane garante que esse mecanismo não é regra para todas as filhas de mães que viveram situações de restrição alimentar. “De alguma forma, aquela filha têm um psiquismo que absorve isso. E fica tentando resolver o problema que foi adquirido”, explica. No próprio cuidado materno, a mãe transmite conteúdos para essa filha, influenciados por aspectos inconscientes. “A gente não sabe como essa mãe lidou com o seu trauma; ele deve ter ficado lá e, como um ‘fantasma’, pode ressurgir a qualquer momento”, diz.

Quando as filhas adoecem, estas mães reavivam suas experiências alimentares. “Muitas adoecem juntamente com as filhas, não sentem mais prazer em se alimentar, perdem peso, perdem confiança na alimentação e no ato de alimentar os outros, passam a não mais fazer refeições juntamente com a família, nem mesmo em datas comemorativas”. A psicóloga afirma que essa situação não é algo que surgiu agora, já aconteceu antes, especialmente na infância delas.

Vivências

A professora orientadora da pesquisa, Rosane Pilot Ribeiro, chama a atenção para o caráter afetivo da alimentação e também para o simbolismo que o alimento confere às relações sociais e emocionais, tendo na família importante instrumento de transmissão de rituais e regras dietéticas. “O alimento não serve apenas para suprir necessidades fisiológicas, mas vem carregado de vivências afetivas, significados”, lembra Rosane, alertando para o fato de que, se esses transtornos são transmitidos pelas gerações, não adianta apontar ou achar um culpado. “Não é culpa da mãe”, defende a professora ao indicar um tratamento conjunto da família.

http://delas.ig.com.br/saudedamulher/anorexia+hereditaria/n1237597707380.html

Anorexia na maturidade

Doença já não atinge só meninas e avança entre mulheres com mais de 35 anos

 Quando meninas, elas assistiram a cantora superstar da época morrer de uma doença ainda desconhecida para o público. Karen Carpenter, espécie de “Sandy” do final dos anos 70, recordista de vendas de discos em parceria com o irmão na dupla The Carpenters, nunca mais cantou hits como Close to You por causa da anorexia nervosa. Aos 33 anos, em 1983, o coração da estrela internacional parou de bater e o corpo definhado pela magreza excessiva foi apontado como causa da morte repentina.

As fãs de Karen Carpenter cresceram, acompanharam outras “musas teens” adoecerem do mesmo problema e hoje, mais velhas, são expectadoras – e alvo – de um outro lado dos transtornos alimentares, inédito até para quem sempre tratou da doença: a anorexia deixou de ser uma doença de adolescentes. Agora, também faz vítimas mais maduras.

Meninas, adultas e senhoras

A tendência de envelhecimento da anorexia nervosa – reconhecida por sintomas de distorção da imagem (muito magras que se enxergam gordas) e danos físicos e psicológicos severos – é confirmada por Liliane Kijner Kern, psiquiatra do Programa de Orientação e Atenção ao Pacientes com Transtorno Alimentar (Proata), serviço da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Ela conta que, nos últimos três anos, as consultas deixaram de ser voltadas só para meninas com idades entre 13 e 21. Hoje, informa a médica, das novas pacientes que buscam a unidade, duas em cada 10 têm mais de 40 anos. As maiores de 30 – faixa etária também considerada tardia para a manifestação do transtorno alimentar – já são quase metade dos casos, representam 40% do total.

"É muito recente. Ainda falta literatura médica até para sabermos como tratar estas pacientes" diz a especialista.

No Ambulatório de Anorexia, Bulimia e outros Transtornos Alimentares (Ambulim), do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), o mesmo fenômeno foi diagnosticado: 13,5% das 289 pacientes internadas durante o ano passado por causa do distúrbio tinham passado dos 35 de idade – mas pesavam pouco mais de 20 quilos.

Superstar do final dos anos 70, Karen Carpenters morreu aos 33 anos por causa da anorexia
A explicação dos especialistas para uma parte das pacientes mais velhas adotar o esquema “dieta zero” já em uma faixa etária mais avançada é simples: elas não são adolescentes, mas continuam expostas e pressionadas por um padrão de beleza muito magro. As propagandas de xampu, hidrante e sutiã são as mesmas, independentemente da idade.

Na Espanha, segundo estudo apresentado em outubro do ano passado durante o Congresso Nacional de Organização de Idosos, foi evidenciado que até as senhoras podem ser vulneráveis à doença. Nos serviços de saúde espanhóis foi apurado que os casos de anorexia em pacientes com mais de 60 anos haviam triplicado, passando de 1,5% do total para 5% dos atendimentos.

Fatores múltiplos

Heloísa Eneida Menezes Paes Pinto , 67 anos, ajuda a entender o avanço de casos de anorexia em mulheres da mesma idade. Ela nunca havia se preocupado com as curvas até os 55 de idade. Prestes a virar uma sexagenária, confrontada com o espelho, não gostou da imagem que viu. Lembrou que o manequim não era mais 38, viu que as colegas de trabalho eram mais jovens e mais magras e ainda tinha de conviver com os mistérios da menopausa e a dificuldade de manter o peso por causa dos remédios para controlar o colesterol. “Poderia ter pirado ali”, acredita.

A Heloísa que reúne os anseios de muitas mulheres de sua faixa etária é a Helô Pinheiro, a garota de Ipanema, eterna musa e ainda assim vulnerável aos desafios trazidos com o passar dos anos. Ela não caiu nas estatísticas de transtornos alimentares. Aprendeu a admirar a própria beleza, mas conta que muitas colegas de faixa etária semelhante não tiveram a mesma sorte.

Liliane, a psiquiatra da Unifesp, explica que, de fato, não é só a insatisfação com o corpo que desperta a anorexia entre as pacientes mais velhas. “O gatilho pode ser uma separação do marido, a ausência dos filhos, a sensação de estagnação no trabalho”, completa.

Vaidade fatal

Como são maiores de idade e têm renda própria, as doentes com mais de 40 conseguem ainda usar outras formas de agredir o corpo que vão além restrição alimentar. Acabam repetidas vezes nos consultórios de cirurgiões plásticos na tentativa obsessiva de mudar a forma física, pontua o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Sebastião Guerra.

“As pacientes psiquicamente transtornadas geralmente se apresentam de forma confusa, desejando na maioria das vezes o que é considerado impossível”, alerta Guerra. Para ele, é necessário o reconhecimento deste tipo de caso por parte dos profissionais da área. Não só o bisturi, mas dietas malucas também podem deformar o corpo. Além da magreza, o resultado pode ser osteoporose, fraturas e até a morte, todas consequências associadas à anorexia nervosa.

Limite da sobrevivência

Os casos mais graves de anorexia nervosa tratados na Unifesp e no Ambulim – reúnem muitos exemplos de mulheres que chegaram até o limite da sobrevivência.

Independentemente da idade, todas que precisam passar meses nos leitos hospitalares ficam com uma penugem em volta do corpo em resposta à ausência absoluta de gordura e aos batimentos cardíacos ameaçados pela falta de peso. Fábio Salzano, psiquiatra responsável pelo atendimento do Ambulim, diz que as internações dessas pacientes são longas, por cerca de um ano – para efeitos de comparação, os dependentes químicos ficam internados, no máximo, três meses. Dos transtornos psíquicos, explica ele, a anorexia é o mais letal. “A mortalidade chega a 10% dos casos”, afirma.

“Não há o menor glamour. O preço pago é muito alto”, define a especialista da Unifesp, Liliane Kern, que diz encontrar só uma diferença entre as mais novas e as mais velhas com anorexia.

“Se para a adolescente o tratamento tem foco na família, as mais velhas só podem contar com elas mesmas. Todo o esforço de recuperação depende delas”, explica.

http://delas.ig.com.br/saudedamulher/anorexia+na+maturidade/n1237657379576.html

Tratando a anorexia com o parceiro

Programa de tratamento que envolve sessões de terapia com o parceiro tem tido bons resultados contra a doença

A americana Margie Hodgin, hoje com 47 anos, tinha recém ultrapassado a casa dos 40 anos quando desenvolveu anorexia nervosa. Sem entender bem o problema, o isolamento provocado pela doença, foi inevitável. “Em meio a um transtorno deste tipo, você não sabe explicar seus sentimentos para quem está ao seu redor”, ela diz.


Felizmente, Margie recorreu aos cuidados de um terapeuta, que sugeriu um tratamento novo e bastante eficiente: um programa de aconselhamento intensivo com a participação do parceiro.

Ela conta que o programa, que tem o nome de Uniting Couples (in the treatment of) Anorexia Nervosa (UCAN), algo como Unindo Casais no Tratamento da Anorexia Nervosa, foi mais eficaz – tanto para sua recuperação quanto para a manutenção do casamento - do que outros dos quais ela havia participado sozinha. A terapia de casal, segundo ela, permitia que os dois “lavassem a roupa suja”, debatessem sobre o que estava acontecendo.

“Muitos canais foram abertos. Antes, eu sentia muita vergonha e desconforto. Nosso relacionamento, que durante a doença era quase como de pai e filha, alcançou um nível de igual para igual – voltamos a ser novamente um casal”, ela recorda.

A recuperação bem sucedida de Margie não foi um caso isolado de sucesso do progrma. Na verdade, em um período de seis meses, a pesquisadora Cynthia M. Bulik e sua equipe presenciaram uma taxa de desistência de apenas 5% entre os 13 casais matriculados. Índices ainda mais positivos quando comparados às terapias convencionais. Segundo a pesquisadora, a taxa de desistência nos programas de tratamento tradicionais de anorexia costuma variar entre 25 e 40%.

Após os três primeiros meses de terapia, Cyntia e sua equipe também observaram um aumento maior do Índice de Massa Corporal (IMC) dos participantes do que o tipicamente observado em pacientes de programas tradicionais. A apresentação das descobertas sobre o programa UCAN ocorreu em abril de 2011, durante a Conferência dos Transtornos Alimentares, em Miami.

Sem recortes

Geralmente considerada um transtorno adolescente, Bulik ressalta que a anorexia – caracterizada por emagrecimento excessivo e medo exagerado de engordar – é cada vez mais comum entre mulheres na meia idade, muitas delas em um relacionamento sério.

Com a terapia individual tradicional, em torno de 25% das pacientes se recuperam por completo, enquanto que outras 25% passam por recaídas crônicas e a metade restante consegue apenas uma recuperação parcial, complementa a especialista. Aproximadamente 5% morrem.

Ao mesmo tempo, os parceiros destas mulehres que lutam contra os transtornos alimentares “sempre querem ajudar, mas não sabem como”, diz Bulik, diretora do Programa de Transtornos Alimentares da Universidade da Carolina do Norte e professora do departamento de psiquiatria da instituição.

“Independentemente do que dizem, eles sempre se sentem mal interpretados. Por isso eu acredito que finalmente estamos equilibrando o poder no relacionamento”, ela explica.

Perfil

Os casais participantes do programa estavam juntos há nove anos em média, sendo que 77% deles eram casados. O programa UCAN incluiu 22 sessões de terapia de casal, consultas psicoterápicas semanais e psiquiátricas mensais, além de oito sessões com um nutricionista. Mesmo atingindo ambos os sexos, a anorexia é muito mais comum entre as mulheres. O programa UCAN foi formado somente por mulheres, com idade média de 32 anos.

Foram abordados os seguintes temas no programa: estresse no casamento, comunicação ineficaz e problemas sexuais entre os casais, além de formas de evitar recaídas. Bulik diz que, como o comportamento do anoréxico – que inclui momentos de inanição, alimentação excessiva e vômito forçado – é perigoso, ele cria uma muralha secreta entre os parceiros. Ao mesmo tempo, o parceiro saudável costuma assumir um papel artificial, constantemente monitorando o comportamento do parceiro anoréxico.

E o resultado é semelhante à política do “não faça perguntas, não diga nada”. Bulik explica: “A anorexia geralmente coloca uma cerca elétrica ao redor do doente. Por isso nosso programa é eficaz, pois não existem segredos. Os dois parceiros falam sobre o que estão passando, tudo fica às claras”.

Bulik diz que a vida sexual do casal geralmente é afetada quando um dos parceiros está em uma luta resoluta por sua imagem corporal. É justamente por isso que o programa UCAN instiga os casais a discutir a afeição física e a vida sexual, desenvolvendo formas de melhorar tais aspectos do relacionamento.

“A imagem corporal certamente faz parte disso, mas o controle é uma parte igualmente relevante. Por isso é extremamente importante que exista uma terceira pessoa envolvida”, disse Doug Klamp, outro médico especialista em transtornos alimentares. Ele complementa: “Existe um conflito natural. O anoréxico se acha gordo e presume-se que seu parceiro deva elogiá-lo. Por isso uma abordagem mais estruturada pode ser de grande valia”.

Medicina avança contra a Esclerose Múltipla

Mais comum em mulheres jovens, diagnóstico precoce e novas possibilidades de tratamento dão qualidade de vida aos pacientes

O nome pouco diz sobre as causas da esclerose múltipla. No conhecimento popular, o primeiro termo remete à falta ou perda de memória. Na definição do dicionário e na medicina, entretanto, significa o endurecimento do tecido de um órgão. No caso da esclerose múltipla esse processo acontece no sistema nervoso, especificamente nas ligações entre os neurônios, dentro do cérebro.

As ligações entre os neurônios são encapadas, protegidas por uma bainha de mielina, proteína que o organismo produz e detona a cada segundo. Beny Schmidt, chefe do laboratório de patologia neuromuscular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que a função da mielina é fazer com que o estímulo elétrico das ramificações dos neurônios, a informação entre eles, seja mais rápida. “O que ocorre é uma espécie de miopia do sistema de defesa. A mielina é destruída a uma velocidade muito maior do que aquela que o organismo usa para produzí-la”, define o especialista.

Diagnóstico por exclusão


A imprevisibilidade da doença tem sido vencida pelas possibilidades de diagnóstico. Confirmar o quadro de EM, segundo os especialistas, é uma matemática de exclusão. A ressonância magnética mapeia as regiões do cérebro que podem estar lesionadas por uma doença auto-imune, mas não comprovam a existência da EM. “Lesões no cérebro podem ser provocadas por uma infecção, carência de vitaminas ou outras doenças auto-imunes como o Lúpus", alerta Maurício Hoshino, neurocirurgião do Hospital Santa Catarina, em São Paulo.

A confirmação da esclerose, aponta o médico, só se dá através de uma série de diagnósticos e exames: ressonância magnética, testes clínicos, um exame chamado líquor – que recolhe líquido da medula espinhal –, acompanhamento de seis meses do quadro, além da negativa para as outras possibilidades.

“É preciso respeitar o tempo para fazer o diagnóstico. O paciente precisa apresentar sintomas clínicos, com intervalos de seis meses, e lesões no sistema nervoso central em locais diferentes. Os sintomas de muitas doenças nutricionais, vasculares e infecciosas se parecem com os da Esclerose Múltipla.”

Reconhecer os sintomas não é fácil. A doença acontece no cérebro, mas reage em diversas partes do corpo. Alteração visual, desequilíbrio e perda de sensibilidade são alguns dos efeitos. “Muitos pacientes procuram oftalmologistas, ortopedistas, nunca um neurologista em primeiro lugar.”

Há registros da EM desde o século 20. Segundo dados da Academia Brasileira de Neurologia, no mundo, existem dois milhões de portadores da doença. No Brasil, estima-se 25 mil pacientes. A Esclerose Múltipla afeta mais as mulheres, numa proporção de três para um. Segundo Hoshino, é possível que a incidência no público feminino tenha alguma relação com a questão hormonal, mas ainda não há dados que confirmem essa hipótese.

O diagnóstico na faixa entre 20 e 40 anos é mais comum por uma característica das doenças auto-imunes. "A doença se revela em uma fase da vida que o sistema imunológico é forte, mais combatente, reagindo às informações que o organismo dá com maior intensidade. Na esclerose, a informação dada ao sistema imunológico é errada, mas a reação é mais rápida e intensa, por isso os surtos podem ser mais severos na juventude.”

A confirmação precoce do problema, porém, não deve ser encarada negativamente. Na visão dos médicos, ela é fundamental e eleva as chances de tratamento da doença. “Do ponto de vista psicossocial é um baque, mas quanto mais precoce o diagnóstico, maiores as possibilidades de proteção e cuidados. A medicação protege as lesões, evita que elas se solidifiquem e afasta as chances de sequelas.”

Tratamento em evolução

Embora as causas da esclerose múltipla ainda sejam pouco claras para a medicina, o tratamento, a cada ano, avança e oferece mais tranqüilidade para quem convive com a doença, independente da idade. O neurocirurgião do Hospital Santa Catarina explica que os medicamentos para abrandar os surtos provocados pela enfermidade, hoje, são mais eficazes e menos agressivos.

“Antigamente, o tratamento era feito a base de cortisona e sempre na hora da crise. Hoje temos como acompanhar o crescimento das lesões no cérebro e controlar a intensidade dos surtos.”

O tratamento da EM é feito a base de imunomoduladores. Hoshino ensina que o medicamento bloqueia o sistema imunológico, impede a produção de anticorpos e permite que o organismo produza a mielina (remielinização) parcial ou completamente. No Brasil, por enquanto, esse medicamento existe apenas em versão injetável e os efeitos colaterais não são poucos. “Alguns pacientes reagem de uma forma mais crítica, com febre, dor no corpo, cansaço. A reação é semelhante a uma gripe forte.”

Em fase de aprovação pela ANVISA, já há uma nova possibilidade, com efeitos colaterais menores e em forma de comprimido. Os especialistas acreditam que até o final do ano o medicamento esteja, de fato, disponível no mercado. "A promessa é que o medicamento seja liberado no segundo semestre de 2010. Usamos apenas a injeção, pois nenhum comprimido, até então, era capaz de sobreviver ao ácido estomacal."

O especialista do Santa Catarina acrescenta que o a proposta dos imonomoduladores não é evitar o surto, pois essa reação não é possível antever. O remédio faz com que a crise seja menos agressiva. “O medicamento não diminui a incidência de surto, mas acomete de forma muito mais leve. As chances de recuperação são muito maiores, e rápidas.”

A cortisona ainda é uma aliada no tratamento, mas seu uso é prescrito durante a crise e por um curto período de tempo, revela o médico. “Recomendamos uma dosagem alta por três a cinco dias, para aliviar o quadro. Não tratamos a doença cronicamente com corticóides.”

Na visão de Beny Schmidt, o transplante de medula óssea não é uma solução para os pacientes de EM. O especialista comenta que pouquíssimos testes foram feitos e os resultados não foram positivos. "Temos que tratar com respaldo da literatura médica e não há comprovação científica de que o transplante seja eficaz para essa doença. As crises não diminuem e nem mudam a intensidade."

A doença não tem cura, mas, segundo os médicos, perde força com o avanço da idade. "Em um idoso os surtos não são mais intensos, a resposta do sistema imunológico é mais fraca, assim como ocorre com a enxaqueca. Ela não tem cura, mas perde força com a idade."

Alegria é remédio

Doenças que atacam diretamente o sistema imunológico exigem dos pacientes uma postura diferenciada. A depressão é uma grande inimiga da Esclerose Múltipla. Embora não existam ainda dados que comprovem o poder da felicidade no tratamento, manter uma qualidade de vida, atividade física, evitar o estresse e encarar a o problema com tranqüilidade, favorecem a estabilidade da doença.

“A forma como o paciente encara a doença influencia no sistema imunológico. Conviver com menos ansiedade e mais esclarecimento auxilia no tratamento", afirma Hoshino.

Beny Schhmidt, especialista da Unifesp, sugere um acompanhamento psicológico paralelo ao tratamento médico. Na visão dele, doenças auto-imunes estão diretamente ligadas à qualidade de vida e ao equilíbrio emocional. "Não sabemos as causas do problema, mas a relação com a felicidade, alegria de viver, na minha visão, é direta. A terapia é uma maneira de recuperar esse amor, ânimo para aproveitar a vida, enfrentar, superar desafios."

Os médicos ainda alertam para a quantidade de informações sensacionalistas e equivocadas sobre a doença na internet. “Há casos graves e leves para todas as doenças. O Google não é a melhor referência tampouco fonte de informação. É através de um médico, de um especialista que se tem o diagnóstico", assevera Hoshino