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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Pesquisadores relacionam fenômeno climático com o vírus influenza

Pessoas usam máscara na Ucrânia durante a pandemia de gripe suína: mutação do vírus influenza surgida em 2009 deixou 17,4 mil mortos em todo o mundo (Viktor Gurniak/Reuters - 31/10/09 )Pesquisadores norte-americanos encontram relação entre o fenômeno climático e as pandemias do vírus influenza, como os milhares de casos de H1N1 em 2009. A explicação está na alteração da migração de pássaros causada pelo resfriamento do Pacífico

A pandemia da gripe A (H1N1), ocorrida em 2009, ainda está presente na memória das pessoas. O surto da influenza — que recebeu o apelido de “gripe suína” depois de testes de laboratório mostrarem que genes do vírus eram semelhantes aos do patógeno encontrado em porcos — causou 17,4 mil mortes ao redor do mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Agora, cientistas afirmam que esse evento tem algo em comum com outras grandes epidemias de gripe ocorridas em 1968, 1957 e 1918, além do grande número de mortos e semelhança entre os micro-organismos fatais: foi antecedido pelo evento climático La Niña.

A relação entre muitos casos de gripe severa e o resfriamento exagerado das águas do Oceano Pacífico na região tropical foi apontada na edição mais recente da revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas) por dois cientistas norte-americanos. Em entrevista ao Correio, Jeffrey Shaman, professor de saúde ambiental da Escola de Saúde Pública da Universidade de Columbia, e Marc Lipsitch, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, explicam que o La Niña se manifestou alguns meses antes das quatro mais recentes pandemias de influenza, entre as quais está incluída a disseminação da gripe espanhola, em 1918.

Os pesquisadores iniciaram o estudo baseados na hipótese de que a ocorrência do La Niña altera os padrões de migração dos pássaros, principais vetores do vírus influenza. Eles, então, avaliaram os registros das temperaturas do Pacífico na região da linha do Equador no outono e no inverno anteriores às pandemias e perceberam que os eventos estão associados. “Além do padrão de voo, descobrimos que o fenômeno modifica a condição física dos pássaros e aumenta o tempo de permanência em algumas áreas, o que propicia uma maior mistura entre as espécies”, diz Shaman. “Tais mudanças fazem com que diversas variantes genéticas (cepas) do agente infeccioso, que normalmente estariam isoladas geograficamente, fiquem reunidas”, explica. Uma vez juntas, é possível que as variantes causem uma infecção simultânea no organismo hospedeiro, ou seja, na ave que as carrega. Isso resulta no rearranjo genético do patógeno, causando o surgimento de um novo tipo de vírus.

Foi um vírus “inédito” que causou a pandemia de 1918, a mais devastadora de todos os tempos. Segundo historiadores, o surto de influenza matou entre 20 milhões e 100 milhões de pessoas no planeta. Estudos sugerem que a cepa desse vírus apareceu em 1916 e foi sofrendo mutações graduais, até chegar à forma letal que contaminou primeiro a Europa e os Estados Unidos, em fevereiro de 1918, quando ainda ocorria a Primeira Guerra Mundial. Por sinal, a gripe causou mais mortes que a guerra, na qual cerca de 15 milhões perderam a vida.

 
Previsão
De acordo com o outro autor do estudo, Marc Lipsitch, a pesquisa pode ajudar os chefes de saúde pública a prever as épocas de maior risco de surtos de influenza e planejar ações para evitar o problema. “De agora em diante, vamos estudar mais intensamente a resposta das aves migratórias às condições do fenômeno El Niño Oscilação Sul (Enos), que abrange o El Niño e o La Niña”, determina. Entre os novos pontos a serem observados estão as taxas de transmissão viral e a diversidade de vírus presentes nas águas exploradas pelos pássaros. O El Niño e a La Niña alternam-se a cada período de três a sete anos, aproximadamente, e ocorrem na região que vai do litoral do Peru à Austrália.

O chefe do Centro de Análise e Previsão do Tempo (Capre) do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Luiz Cavalcanti, afirma que o estudo é interessante e de alto nível. Embora inicialmente possa parecer estranho ligar alterações climáticas a doenças, o meteorologista assegura que o conceito é plausível. “Existem muitas outras doenças relacionadas com o comportamento do tempo e do clima, como a dengue, o reumatismo, as doenças respiratórias e as dores musculares”, cita.

Quanto ao La Niña influenciar no padrão de migração das aves, uma explicação é apresentada por Cavalcanti: “O fenômeno pode provocar flutuações no clima regional e globalmente, mudando os padrões de vento”. O especialista do Inmet diz que as interferências do fenômeno no clima são mais notadas nos meses de verão (dezembro, janeiro e fevereiro) e de inverno (junho, julho e agosto). É justamente no inverno que a influenza é mais frequente em países como Estados Unidos e os do norte da Europa, mais distantes dos trópicos. “Já nos países tropicais, a incidência de gripe é praticamente constante o ano inteiro, mas maiores aglomerações em ambientes fechados durante o inverno aumentam a transmissão”, detalha o infectologista especialista em medicina tropical Manuel Retamozo Palácios, da Sociedade Brasileira de Infectologia.


Porcos
Além de alterar o contato entre as espécies de aves, o La Niña também modificaria o modo como elas se aproximam de animais domésticos, como o porco, alerta a pesquisa. Isso explicaria a nova forma genética da influenza A, que, de acordo com Shaman e seu colega, resultou de uma mistura entre os genes do vírus presente em pássaros e em suínos. “A explicação de transmissão da influenza aviária para o porco, devida a essa anomalia da rotina das aves migratórias, é plausível. O Centro para o Controle e a Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, analisou o genoma do H1N1 de 2009 e encontrou genes presentes em vírus de influenza suína da Europa e da Ásia, além de influenza aviária e influenza humana”, detalha Palácios.

A alteração genética do vírus da gripe, que ocorre com frequência, é o que torna tão difícil fazer com que as pessoas escapem da doença infecciosa. “No caso do H1N1, existem dois tipos de mutações: as ‘drift’ (menores), que acontecem a cada um ou dois anos, e as ‘shift’ (maiores), em que é mutado quase 30% do genoma viral — ou seja, criam-se novos vírus”, esclarece o infectologista. Esse é o motivo pelo qual a vacina da influenza deve ser tomada anualmente. “Cada lote no Brasil e nos países do Hemisfério Sul vem com sorotipos que foram frequentes no inverno do Hemisfério Norte”, explica. Ele esclarece, no entanto, que há possibilidade de outros agentes infecciosos originados na Ásia ou na África, contra os quais a vacina não oferece proteção, circulem no país.

Opostos
O El Niño é o oposto do fenômeno La Niña. Isso significa que, nele, as águas do Oceano Pacífico ficam mais quentes que o normal. O termo técnico El Niño Oscilação Sul (Enos) indica as interações que ocorrem entre o oceano e a atmosfera relacionadas às alterações drásticas de temperatura na superfície da água do mar, ao padrão dos ventos e à incidência das chuvas.

Chuvas irregulares
Em termos climáticos, o La Niña afeta os regimes de chuva em regiões tropicais e de latitudes médias, segundo explica Luiz Cavalcanti, chefe do Centro de Análise e Previsão do Tempo, ligado ao Instituto Nacional de Meteorologia (Capre/Inmet). É o que vem acontecendo, nos últimos meses, no Brasil, onde há chuvas irregulares e escassas no Sul do país e temporais no Centro-Oeste e no Sudeste.

Fonte Correio Braziliense

Risco de infarto sobe 20 vezes no dia em que uma pessoa amada morre

Coração apertado, dor no peito e garganta travada, como se estivesse obstruída por algum tipo de obstáculo invisível. Só quem já passou pela experiência de ver alguém querido morrer pode dizer o quando dói a ausência daquele que se ama.

Segundo um artigo feito por cardiologistas da Universidade de Harvard e publicado no Journal of the American Heart Association, a dor não é apenas emocional. De acordo com o trabalho, aqueles que perderam entes queridos estão mais propensos a sofrer ataques cardíacos. No dia em que a pessoa amada morre, os riscos de quem fica enfartar é 20 vezes maior do que em situações corriqueiras. A ameaça diminui ao longo do tempo. Uma semana após o trauma, contudo, a probabilidade de desenvolver problemas cardíacos continua seis vezes maior que a normal. A boa notícia é que as chances reduzem progressivamente durante o primeiro mês. Em outras palavras, os estudiosos provaram cientificamente o que já faz parte da sabedoria popular: só o tempo é capaz de curar um coração partido.

Elizabeth Mostofsky, principal autora do estudo, explica que a equipe analisou os prontuários de cerca de 2 mil adultos que haviam sofrido ataques cardíacos entre 1989 e 1994. Os pacientes responderam a um questionário em que os médicos perguntavam as circunstâncias do infarto e se haviam perdido pessoas importantes no ano anterior ao ataque cardíaco. Se a resposta fosse positiva, os participantes deveriam ainda explicar a data exata da morte, bem como a importância que aquele relacionamento tinha em suas vidas. Por meio de um cruzamento de dados em que comparavam o número de pessoas que tiveram mortes próximas a eles e a reincidência de ataques cardíacos, chegaram à conclusão de que um em cada 320 indivíduos do “grupo de risco” para complicações cardíacas e uma em cerca de 1,4 mil pessoas de baixo risco (sem histórico de infarto) sofrerão problemas no coração ocasionados pelo luto.

Somados ao risco de ataques cardíacos, os derrames cerebrais foram apontados como a causa de 53% das mortes de cônjuges enlutados. “A dor faz com que sentimentos de raiva, depressão e ansiedade apareçam”, explica Elizabeth. “Essas emoções podem aumentar a frequência cardíaca, a pressão arterial e a coagulação do sangue e esses fatores, por sua vez, aumentam as chances de um ataque cardíaco.” A médica destaca ainda que estudos sobre como os sentimentos afetam a saúde física de um indivíduo não são novidade. “O que é inédito no levantamento é que esse é o primeiro estudo a examinar a curva acentuada do risco de ataque cardíaco logo após a perda de alguém importante na vida de uma pessoa.”

Dor avassaladora
Francisco Malaquias é um dos exemplos de como o coração pode não resistir à dor da perda de alguém querido. No último domingo, o tio da jovem Ingrid Anne Carvalho de Freitas, 15 anos — morta em um acidente de carro que tirou a vida de seis pessoas na madrugada de sábado — sofreu uma parada cardiorrespiratória durante o enterro da sobrinha. Ele precisou ser reanimado pelos bombeiros no cemitério e foi levado em estado grave, mas consciente, para o Hospital Regional de Taguatinga(HRT). No sepultamento dos outros jovens mortos no acidente, vários parentes e amigos passaram mal e precisaram ser socorridos.

Além do estresse emocional, a pesquisadora diz que outros comportamentos típicos de pessoas que acabaram de perder alguém especial ajudam a aumentar o perigo de infarto, como dormir pouco, comer menos e ter níveis elevados de cortisol, hormônio relacionado à resposta do organismo ao estresse. Para o cardiologista Jefferson Mattos Junior, o principal impacto do estudo feito por Elizabeth Mostofsky e sua equipe será nos próprios consultórios cardiológicos. Segundo ele, “é comum que o médico fique muito preocupado com os níveis de colesterol e da pressão arterial sistêmica e não preste atenção nos possíveis efeitos psicológicos e comportamentais que um evento desta magnitude possa causar na vida de um paciente, podendo ser um importante gatilho para um infarto”.

Acompanhamento
Guilherme Filomeno, cardiologista, frisa que o estudo também chama atenção para um fator importantíssimo no tratamento de quem passa pelo delicado momento de superação da morte de pessoas próximas: a atenção de quem ficou. “O cuidado que se tem com esse indivíduo tem que ser pessoal, precisa envolver família, amigos e até mesmo os médicos”, reforça. De acordo com Filomeno, o período normal de luto varia de três a seis meses. Nesse meio tempo, quem está ao redor do enlutado deve esperar mudanças de humor e de comportamento. Por isso, ele diz que, em casos nos quais o sofrimento aparenta ser mais agudo que o usual, os próprios médicos devem aconselhar acompanhamento psicológico e até mesmo medicamentos para amenizar os sintomas precedentes ao infarto que o paciente possa vir a apresentar.

Diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Nabil Gorayeb explica que existem mais de 100 categorias de ocasiões emocionais que podem desencadear problemas cardiovasculares — como o luto, o término de um relacionamento amoroso e o desemprego. Para o cardiologista, o estudo de Harvard “confirmou o que já se desconfiava” no meio médico: quando sofrem fortes traumas psicológicos, pessoas com complicações cardíacas prévias têm mais chances de infartar, mas isso não quer dizer que indivíduos sem histórico estejam livres do risco de passar por maus bocados — inclusive relacionados a outras partes do corpo que não o coração. “As emoções podem causar problemas de toda ordem, sejam cardíacos, pulmonares ou gástricos, por exemplo”, enumera. “Os efeitos ocorrerão onde a pessoa é mais sensível, ou seja, depois de uma emoção muito intensa, as áreas em que o paciente tem mais predisposição sofrem.”

Outros gatilhos
Na medicina, problemas fisiológicos causados por emoções recebem diversos nomes, que variam de acordo com os eventos que serviram como estopim para as complicações. Sergio Timerman, cardiologista e um dos diretores da SBC, conta que há vários estudos que apontam que catástrofes naturais ou ataques terroristas, por exemplo, também são fatores que desencadeiam infartos súbitos. Há três anos, o médico fez um estudo em que avaliava o aumento dos casos de ataques do coração em sobreviventes de enchentes em Santa Catarina. Ele conta que a chamada síndrome de estresse pós-traumático causa impacto forte o suficiente para desencadear um infarto. “Em todo lugar acometido por desastre natural ou atentados, há um aumento significativo de morte por problemas cardíacos relacionados diretamente ao problema”, comenta o médico.

Isso acontece porque, assim como na síndrome do coração partido (veja Para saber mais), o estresse desencadeia respostas emocionais que, literalmente, mexem com as estruturas do indivíduo. Embora a origem das duas síndromes seja a mesma, Timerman explica que as causas específicas são diferentes. “Em uma catástrofe, a pessoa é socialmente afetada, pois perde casa, objetos”, diferencia. “Ela entra em um estresse agudo e tem liberação excessiva de adrenalina, que eleva a pressão arterial.” No momento em que a pessoa começar a apresentar os sintomas, como dor no peito e alteração transitória no ritmo dos batimentos cardíacos, Timerman diz que o tratamento deve ser medicamentoso. “Os remédios reverterão o quadro, para evitar que o paciente tenha parada ou arritmia cardíaca.”

Para saber mais
Causas ainda desconhecidas
O primeiro relato da doença se deu no Japão, em 1990. A cardiopatia foi originalmente chamada de Síndrome de Takotsubo — tako significa polvo e tsubo, armadilha. A ideia do nome surgiu por causa das imagens radiológicas do coração acometido pela síndrome, que formam estruturas semelhantes à armadilha feita pelo animal. Desencadeada por fortes estresses emocionais, como um divórcio ou o falecimento de pessoas amadas, acreditava-se que apenas mulheres estavam sujeitas a ela — foi rebatizada de Broken Heart Syndrome, pois o coração feminino seria mais delicado que o dos homens e se “quebraria” mais facilmente após uma desilusão. Entretanto, já se sabe que, embora representem de 83% a 90% dos casos, elas não são as únicas que podem apresentar os sintomas. As causas ainda não estão completamente esclarecidas, mas sabe-se que estão associadas a um aumento excessivo de adrenalina, o que altera subitamente o ritmo dos batimentos e a pressão cardíaca. Outro fator intrigante da doença é que a “ponta” do coração fica dilatada, inerte e inativa, enquanto o resto do órgão continua funcionando normalmente — o que dá a impressão de que o coração está, realmente, partido.

Sergio Timerman, cardiologista e diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia

Comparação estressante
Questões emocionais estão fortemente ligadas a problemas cardíacos. Em 2004, o estudo Interheart listou os principais fatores de risco associados ao infarto do miocárdio — inclusive, emocionais. Das 24.767 pessoas pesquisadas, 11.119 já haviam passado por infarto agudo do miocárdio e foram comparadas a outras 13.648 que não apresentaram sinais clínicos da doença. Veja alguns dados do trabalho:

» O estresse no trabalho ou em casa praticamente triplica o risco de um infarto — risco superior ao do diabetes e quase o mesmo que de tabagismo e de colesterol alto.

» Entre os que estavam trabalhando, 23% dos infartados tiveram vários períodos de estresse no trabalho, contra 17,9% do grupo de controle.

» Um grupo de 11,6% dos que já sofreram infarto tiveram diversos períodos de estresse em casa, enquanto apenas 8,6% dos “saudáveis” enfrentavam controvérsias domésticas.

» Financeiramente, 14,6% do grupo dos enfartados eram estressados — 12,2% do grupo de controle apresentaram problemas com relação a dinheiro.

Fonte Correio Braziliense

Embrapa Cerrados planeja colocar no mercado espécies de maracujá melhoradas

Na história da humanidade, o rico arsenal de sabedoria popular norteou a lapidação científica de seus elementos culturais mais preciosos, em todas as áreas do conhecimento. Foi assim com a medicina, a música, a engenharia e a literatura, que nasceram do saber comum e consolidaram sua forma erudita e sofisticada a partir das raízes do passado e da ciência rústica do próprio povo.

Dentro desse espectro de criatividade e de transformações, a Embrapa Cerrados é um dos mais bem estruturados laboratórios para explorar a passagem do antigo para o novo e confirmar que, das fontes populares, é possível reinventar os frutos da natureza.

Muitos desses alimentos, que nascem e crescem no mato, parecem ásperos, pequenos e pobres em substâncias bioativas, mas, depois, como num passe de mágica, revelam vigor e riqueza energética na pele, na raiz, nas folhas e na polpa. Um simples maracujá nativo como o da espécie Passiflora setacea, por exemplo, esbanja substâncias como flavonoides, poliaminas, esteróis (o colesterol das plantas, precursor de hormônios), vitaminas e sais minerais que ajudam a regular o organismo, e agora está pronto para ganhar espaço nas feiras, mercados e frutarias. Para isso, foi executado um delicado trabalho de melhoramento genético pelo agrônomo José Orlando de Melo Madalena e sua equipe da Embrapa Cerrados, um trabalho que durou dois anos e meio, desde a revelação de suas qualidades.

Hoje, a variedade BRS Pérola do Cerrado, como passou a ser chamado esse pequeno e redondo maracujá esverdeado, está em vias de entrar na cadeia produtiva da região. “Não adianta mostrar que um determinado fruto ou planta faz bem para a saúde, se as pessoas não têm como comprá-los — seja porque não existe a produção comercial sustentável, seja por não existir condições de logística para colocar o produto no mercado”, observa Ana Maria Costa, que coordena o projeto das passifloras nativas. Quem pode tornar possível o acesso à Pérola do Cerrado — de sabor adocicado, mais acentuado do que o da Passiflora alata, o maracujá-doce — é a Rede Passitec, que reúne 27 instituições de pesquisa públicas e privadas e mais de 100 colaboradores.

De acordo com Ana Maria, a rede procura parceiros para viabilizar a venda no mercado do P. setacea e da BRS Vita, ou P. tenuifila. “Concentramos esforços nessas duas variedades em virtude do potencial funcional e medicinal. As pesquisas mostraram que as duas são ricas em compostos antioxidantes e fenólicos (veja arte), importantes para prevenir doenças cardiovasculares, e podem ter efeito benéfico ao sistema nervoso”, explica a agrônoma. Segundo ela, a Rede Passitec existe para gerar tecnologias e fomentar todas as etapas do sistema produtivo, até a cadeia comercial.

Ela destaca o avanço agronômico para o sucesso da rede, que levará as frutas ao mercado tanto para o consumo in natura como para a fabricação de ingredientes para uso em alimentos. Diante desse rico potencial de cerca de 200 espécies nativas conhecidas no Brasil, os técnicos da Embrapa e de instituições parceiras, como Universidade de Brasília (UnB), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), entre outras, se debruçam na análise de cinco passifloras — edulis (maracujá azedo), incarnata (cujos frutos não são comestíveis), alata, tenuifila e setacea. A mais conhecida é a edulis, de forte apelo comercial, não apenas na indústria de sucos e de sorvetes. Sua casca é usada na produção de farinha funcional; as folhas, aproveitadas na elaboração de fitoterápicos; e o óleo das sementes entra na composição de cosméticos.

“Além de nutrir, as espécies poderão trazer benefícios para a manutenção da saúde, evitando problemas de obesidade, prevenindo doenças e ajudando o bom funcionamento do sistema nervoso devido à presença dos antioxidantes e das fibras em sua composição”, afirma Ana Maria Costa. Ela considera que o projeto está na reta final e que as variedades chegarão em breve ao mercado. “Acreditamos que seja apenas uma questão de tempo a consolidação de parcerias com o setor privado para a finalização tecnológica para esses produtos começarem a chegar ao consumidor.”

Sono e estresse
Para confirmar o que o ideário popular manifesta sobre a fruta em termos de poderes curativos e preventivos, a Embrapa e o Hospital Universitário de Brasília (HUB) iniciaram este ano uma parceria para testar os efeitos de quatro passifloras no controle do estresse, da enxaqueca, de tremores em idosos e da obesidade, além de avaliar o poder do fruto na recuperação pós-trauma, no equilíbrio do sono, na regeneração celular e como regulador cardiovascular. No projeto-piloto, foi usado o Laboratório do Sono do HUB, onde 21 voluntários se submeteram aos testes. Enquanto o projeto não estiver concluído, os técnicos da Embrapa e HUB não poderão divulgar os nomes das variedades examinadas ou dizer em que situação atuam melhor.

É um estudo do tipo cego, em que os voluntários não sabem se estão ingerindo a verdadeira polpa do maracujá ou uma mistura inócua, com sabor semelhante. No teste-piloto, foi observada apenas a questão do estresse; e em uma segunda etapa, que começa em fevereiro, será a vez da sonolência. Os primeiros resultados são considerados satisfatórios. “Percebemos que houve uma melhora funcional nas pessoas e uma evidente redução de estresse”, afirma a psicóloga Mônica Müller, que coordena a aplicação dos testes no HUB.

O neurologista Nonato Rodrigues, também da UnB, aplica os exames de polissonografia nos voluntários. Esse exame avalia os parâmetros do sono, tais como o tempo que a pessoa leva para adormecer, os estágios do sono REM e RAM, entre outros aspectos. “As pessoas que participam não podem tomar medicamentos que causem sonolência ou apneia do sono. Também não participam aquelas com problemas de epilepsia ou de narcolepsia”, explica Mônica.

As inscrições para o recrutamento para a etapa final do projeto, desta vez para avaliação do sono, terminam em 5 de fevereiro de 2012 (veja serviço). Os voluntários têm de ter disponibilidade para dormir no laboratório do sono por dois fins de semana, com intervalo de duas semanas. Segundo Mônica, o projeto, além de reafirmar as qualidades funcionais e medicinais das plantas, permite que as pessoas se tratem de distúrbios do sono e do estresse.

Serviço
Interessados em participar do grupo de voluntários para testes do efeito de polpas de maracujá sobre o estresse e o sono devem se inscrever pelo email muller.clinica@gmail.com.

Efeitos
Os flavonoides são compostos presentes em abundância nas frutas, verduras e legumes. Os benefícios causados pela ingestão de frutas e outros vegetais se deve a esse composto, que auxilia na absorção de vitamina C, tem ação anti-inflamatória, antialérgica, anti-hemorrágica e antioxidante. As poliaminas, por sua vez, são moléculas presentes tanto em plantas como em animais e micro-organismos e estão relacionadas a diversas respostas fisiológicas, como a senescência — processo natural de envelhecimento celular — e o estresse.

Fonte Correio Braziliense

Molécula pode beneficiar pacientes que tenham intolerância a nitroglicerina

Poderoso vasodilatador, a nitroglicerina é usada no tratamento de dores no peito, conhecidas como angina, e nas salas de emergência de hospitais, quando pacientes chegam com sinais de infarto agudo de miocárdio. Ela é também a base de quase todos os medicamentos usados atualmente para dilatar as coronárias de pacientes cardíacos. Entretanto, os benefícios para o coração podem ser limitados, devido ao desenvolvimento, pelo corpo, de intolerância ao composto.

Pesquisa realizada no Departamento de Química e Biologia de Sistemas da Escola de Medicina da Universidade Stanford, na Califórnia, identificou uma molécula que, administrada com a substância, pode evitar infartos mais graves em pacientes que desenvolvem essa resistência. A descoberta é fruto do projeto de doutorado do chinês Lihan Sun, realizado com o brasileiro Júlio César Batista Ferreira, também pós-doutorando na instituição.

“Nesse estudo, descobrimos que a intolerância a nitroglicerina não se deve somente à perda do efeito vasodilatador do medicamento. Na verdade, quando precedido do infarto do miocárdio, o uso de nitroglicerina pode causar efeitos devastadores ao coração”, explica Ferreira. De acordo com o pesquisador, a intolerância à nitroglicerina é resultado da inativação da aldeído-desidrogenase 2 (ALDH2), uma enzima essencial para a proteção cardíaca em vítimas de infartos. “O estudo verificou que a molécula ALDA-1, também descoberta pelo nosso grupo em Stanford, é capaz de manter o funcionamento de ALDH2 e evitar efeitos deletérios decorrentes da intolerância à nitroglicerina durante o ataque cardíaco”, diz o cientista.

A pesquisa, que consumiu os últimos três anos e foi publicada recentemente pela revista Science Translational Medicine, foi realizada em animais. O estudo foi coordenado pela professora Daria Mochly-Rosen. “Depois da administração da nitroglicerina por 16 horas, induzimos o infarto do miocárdio nos animais e observamos que o grupo com o composto apresentou disfunção cardíaca maior do que os demais ao longo de três semanas após o infarto. Porém, quando administramos a nitroglicerina combinada à ALDA-1, os efeitos deletérios da tolerância ao medicamento não se manifestaram”, acrescenta Ferreira.

O próximo passo será avaliar os benefícios da ALDA-1 em humanos. O custo do projeto é de US$ 10 milhões. Para tentar viabilizar a iniciativa, o grupo de pesquisadores de Stanford criou a empresa Aldea para arrecadar fundos para a realização dos testes em humanos.

Dinamite
O uso da nitroglicerina pela medicina foi bastante posterior à sua descoberta. Foi o químico italiano Ascanio Sobrero quem primeiro a identificou, em 1847, e batizou-a de piroglicerina. Vinte anos mais tarde, outro químico, o sueco Alfred Nobel, a utilizaria na fabricação da dinamite. Sobrero chegou a observar que a substância provocava dores de cabeça, causadas pela dilatação dos vasos. Mais tarde, o mecanismo do efeito da nitroglicerina nos doentes cardíacos foi descoberto por três cientistas norte-americanos: Robert Furchgott, Louis Ignarro e Ferid Murad.

“O grande problema é a intolerância a ela, decorrente do uso sustentado do medicamento. Os efeitos devastadores resultam da inativação da ALDH2. A ALDH2 é uma enzima mitocondrial cujas funções são essenciais no sistema cardiovascular, entre as quais catalisar a conversão da nitroglicerina ao vasodilatador óxido nítrico e remover aldeídos tóxicos produzidos durante o infarto do miocárdio. Com a inibição dessa enzima pelo excesso de nitroglicerina, esses aldeídos se acumulam no coração e passam a se ligar a proteínas, a lipídios e ao DNA, resultando na morte celular durante o infarto do miocárdio. Com a ALDH2 ativada, é possível remover com mais facilidade esses aldeídos, minimizando os danos ao coração”, explica Júlio César Ferreira, formado em educação física pela Universidade de São Paulo e PhD em química, sistemas biológicos e biodinâmica humana.

Prevenção
Setenta por cento das mortes no Brasil são decorrentes de doenças não transmissíveis: câncer, diabetes, doenças respiratórias crônicas e doenças cardiovasculares. Dessa porcentagem, quase 40% dos óbitos provêm das doenças cardiovasculares: infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca. Dados mais recentes da Sociedade Brasileira de Cardiologia, referentes a 2009, dão conta de 74 mil mortes naquele ano em decorrência de infarto — metade das pessoas afetadas pelo problema não chegam ao hospital com vida.

Diante de dados alarmantes, o que fazer? “Prevenção e detecção precoce”, afirma Maria da Consolação Vieira, presidente da Sociedade Mineira de Cardiologia. “E ela deveria começar ainda na pediatria, já que, cada vez mais, as doenças cardiovasculares acometem pessoas mais jovens.” As causas são várias: obesidade, sedentarismo, hipertensão, diabetes, tabagismo e colesterol elevado, entre outras. A mudança do estilo de vida da sociedade moderna, com a consequente exposição precoce a um ou vários fatores de risco, vem acelerando o processo, de acordo com a cardiologista. Segundo a médica, a pessoa que sentir dor forte no peito deve procurar a urgência de um hospital para ser avaliada por uma equipe preparada para lidar com a situação.

"Nesse estudo, descobrimos que a intolerância a nitroglicerina não se deve somente à perda do efeito vasodilatador do medicamento. Na verdade, quando precedido do infarto do miocárdio, o uso da substância pode causar efeitos devastadores ao coração"

Júlio César Batista Ferreira, pós-doutorando da Escola de Medicina da Universidade Stanford, na Califórnia

Fonte Correio Braziliense

Nova técnica para reconstituição de tímpanos rompidos evita anestesia geral


Seja por acidente ou descuido, algumas pessoas perfuram o tímpano, aquela membrana fina que separa a orelha da parte média do ouvido.

Dor, zumbido, perda da audição e infecções são alguns dos problemas decorrentes, que costumam sumir depois de o buraquinho se fechar. Na maioria das vezes, isso acontece espontaneamente. Quando se passam meses sem que a cicatrização ocorra, porém, é preciso se submeter a uma cirurgia, que, embora simples, exige hospitalização e, no caso de crianças, anestesia geral. Uma técnica desenvolvida por médicos canadenses do Sainte-Justine University Hospital Centre torna o procedimento bem mais simples: em 20 minutos, o paciente vai embora, sem sequer precisar passar pelo centro cirúrgico.

O método de reconstituição do tímpano já foi aplicado em cerca de 400 pacientes a partir de 4 anos, com um índice de sucesso de 92,7%, no caso de adultos, e de 85,6% em relação às crianças. Em um estudo publicado no jornal especializado Archives of Otolaryngology – Head and Neck Surgery, o otorrinolaringologista Issam Saliba descreve o procedimento e afirma que, em comparação à técnica tradicional, a chamada miringotomia com enxerto de gordura e ácido hialurônico é tão satisfatória quanto, com a vantagem de ser mais barata, rápida e não exigir pós-operatório.

Nesta semana, Saliba apresentou o resultado do estudo à imprensa mundial, em uma entrevista transmitida pela internet em tempo real. De acordo com ele, no Canadá, cada procedimento economiza cerca de US$ 1,5 mil, e poupa os pacientes dos 10 a 15 dias que precisam ficar afastados do trabalho ou da escola pela técnica tradicional. “As técnicas tradicionais demoram entre uma ou duas horas, e é necessário preparar um centro cirúrgico. Por isso, no Canadá, geralmente as pessoas esperam um ano, um ano e meio para conseguir fazer a cirurgia. O novo procedimento dispensa anestesia geral, hospitalização e uso de sala de operação, o que faz dele mais rápido, barato e acessível”, garante Saliba.

Embora, no estudo, o médico descreva a experiência do método em adultos, ele se concentra nos pacientes pediátricos, cujos casos costumam ser mais delicados. As operações tradicionais são indicadas a partir dos 7 anos, porque as crianças precisam receber anestesia geral, o que poderia ser arriscado antes dessa idade. No enxerto com ácido hialurônico, porém, o otorrinolaringologista apenas seda os pequenos pacientes e aplica anestesia local, permitindo que o procedimento seja realizado desde os 4 anos, idade em que muitas crianças perfuram o tímpano em acidentes domésticos, como enfiar um lápis no ouvido.

Melhora sensível
Benjamin Côté, 10 anos, foi um beneficiados com a nova técnica. Ele compareceu à coletiva de imprensa para dar seu depoimento e contou que a qualidade de vida melhorou muito depois do enxerto. Devido a constantes infecções no ouvido, o tímpano esquerdo do garoto ficou lesionado, e ele perdeu 50% da audição. “Na escola, era difícil. Eu conseguia escutar os tons graves das vozes masculinas, mas os agudos femininos eram muito confusos. Minhas professoras quebravam a cabeça para tentar me colocar em uma posição na qual eu pudesse ouvir bem, mas perdi muito conteúdo e minha mãe chegou a pensar que eu tinha deficit de atenção”, relatou.

Nadar era outro problema para o menino, que evitava a água com medo de mais infecções. “Ele passou por muitos desafios na escola e no dia a dia. Os primos brincavam na piscina e o Benjamin só podia molhar os pés”, contou a mãe, Melanie Fortier. Aos 8 anos, o garoto passou pelo procedimento no Hospital Universitário de Sainte-Justine. Um ano depois, o tímpano estava completamente restabelecido. Passados quatro meses, porém, Benjamin já havia começado a recuperar a audição.

De acordo com Saliba, o procedimento é feito pelo canal auditivo e a técnica permite que o próprio corpo reconstitua a membrana em cerca de dois meses. Antes de começar o procedimento, é retirado um pedaço de tecido da parte de trás do lóbulo da orelha, com tamanho pelo menos duas vezes maior que a perfuração do tímpano. Esse enxerto vai estimular a vascularização no local e a migração de células até o buraco na membrana; ou seja, é o que fará a lesão se cicatrizar.

O ácido hialurônico, que ajuda na recuperação do tecido, é aplicado em forma de uma fina lâmina incolor, parecida com uma cola, que veda a cavidade média do ouvido. Coberta por gelatina, ela é absorvida pelo organismo em até dois meses. “As pessoas associam o ácido a procedimentos cosméticos, porque ele é usado no preenchimento de rugas e linhas de expressão”, diz John J. Voorhees, professor de dermatologia da Universidade de Michigan, que não participou do estudo de Saliba. “Na verdade, ele consegue preencher as rugas justamente porque estimula a formação de fibroblastos, as células que, na pele, produzem o colágeno.”

Recuperação
Depois do procedimento — Saliba destaca que não se trata de cirurgia —, o paciente sai da clínica e pode ir para a escola ou o trabalho no mesmo dia. Não é necessário um período de recuperação, ao contrário das cirurgias tradicionais. O método, porém, só é válido no caso de tímpanos perfurados sem comprometimento dos ossos. Caso o acidente tenha fraturado os ossinhos que também fazem parte da cavidade média do ouvido, é preciso submeter o paciente a uma operação, para regenerá-los.

Issam Saliba contou que a ideia da técnica surgiu há cinco anos — “A maçã caiu na minha cabeça”, brincou, fazendo uma referência à lenda de que a lei da gravitação universal foi postulada por Isaac Newton depois que uma fruta em cima do físico inglês enquanto ele estava sentado à sombra de uma árvore. Ele lembrou que a miringotomia com enxerto de gordura e ácido hialurônico é a fusão de duas técnicas já existentes, mas que, sozinhas, não conseguiram muito êxito. “Ambas têm suas vantagens, então imaginei que, juntas, poderiam resultar em uma excelente técnica. Acredito que conseguimos fazer com que isso virasse realidade”, disse.

"As técnicas tradicionais demoram entre uma ou duas horas, e é necessário preparar um centro cirúrgico. Por isso, no Canadá, geralmente as pessoas esperam um ano, um ano e meio para conseguir fazer a cirurgia. O novo procedimento dispensa anestesia geral, hospitalização e uso de sala de operação, o que faz dele mais rápido, barato e acessível"

Issam Saliba, otorrinolaringologista
"Na escola, era difícil. Eu conseguia escutar os tons graves das vozes masculinas, mas os agudos femininos eram muito confusos. Minhas professoras quebravam a cabeça para tentar me colocar em uma posição na qual eu pudesse ouvir bem, mas perdi muito conteúdo e minha mãe chegou a pensar que eu tinha deficit de atenção"

Fonte Correio Braziliense