Aplicativos, carreira, concursos, downloads, enfermagem, farmácia hospitalar, farmácia pública, história, humor, legislação, logística, medicina, novos medicamentos, novas tecnologias na área da saúde e muito mais!



terça-feira, 20 de agosto de 2013

Mesmo com 2,6 médicos por mil habitantes São Paulo enfrenta desafio de má distribuição

São Paulo - O estado paulista concentra 110,4 mil dos 338 mil médicos existentes no país, representando 28,4% dos profissionais cadastrados no Conselho Federal de Medicina (CFM). Em termos proporcionais, são 2,64 médicos para cada mil habitantes. A taxa é similar à meta traçada pelo Ministério da Saúde para o país, definida em 2,7. A má distribuição desses profissionais no território, no entanto, que já é constatada em diversas regiões do país, também se reflete na realidade estadual.
 
Quase 50% dos médicos que atuam em São Paulo, ou 50.740, estão na capital. Em relação aos habitantes, a proporção é 4,48 profissionais por mil. Os dados constam no estudo Demografia Médica Brasileira, do CFM, lançado em fevereiro deste ano. Dentro do próprio município, entretanto, também são observadas desigualdades na distribuição.
 
É o caso da Assistência Médica Ambulatorial (Ama) Tito Lopes, no bairro São Miguel Paulista, extremo leste da capital. Segundo a organização social (OS) Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (APDM), que administra a Ama do Sistema Único de Saúde (SUS), existem 11 vagas para médicos. Entre as razões apontadas para a falta de profissionais, está "a localização das unidades de saúde, em grande parte periféricas", assinala a nota da entidade.
 
Embora nunca tenha deixado de ser atendida na Ama Tito Lopes, a agente de pesquisa Jaqueline da Silva, 29 anos, reclama da demora por uma consulta. "Quando resolvo esperar, sou atendida, mas isso pode levar quatro, cinco horas. São poucos médicos no plantão", criticou. Na manhã do dia 6 de agosto, ela buscou atendimento às 8h15 e conseguiu ser atendida por volta das 10h30. "Até que foi rápido, mas não dá para dizer que foi bom. A médica não tocou em mim, não pediu exame, já foi logo escrevendo a receita e não me explicou como usar o remédio", relatou. Jaqueline foi à Ama com sintomas de dor no estômago.
 
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o déficit total de médicos na rede pública chega a 2.060, com a maioria das vagas disponíveis nas regiões leste e sudeste da capital paulista. No último processo de seleção do órgão, 20% dos médicos aprovados não compareceram, informou o órgão. Além da localização dos bairros, a baixa remuneração e a impossibilidade de cumprir a jornada de trabalho por causa de outros empregos estão entre as justificativas para a recusa. O salário médio para uma carga horária de 20 horas semanais é R$ 4,2 mil. A remuneração média quando esses profissionais são contratados via OS sobe para R$ 6,2 mil.
 
"Em São Paulo, na comparação com o Brasil, existe uma diferença marcante. Mas ainda assim, especialmente na periferia da capital, existem áreas onde há dificuldade [de fixar médicos] por causa dos riscos", comentou Otelo Chino, diretor do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp). Entre as dificuldades enfrentadas pelos médicos, ele cita a questão da segurança pública e os grandes deslocamentos. "São áreas de periferia, algumas a 40 quilômetros do centro. Se exigem uma jornada diária, leva-se pelo menos três horas no deslocamento", exemplificou.
 
Os usuários do SUS ouvidos pela Agência Brasil em São Paulo relataram mais dificuldades na utilização dos serviços de pronto atendimento e de assistência especializada. "A gente já chega aqui [Ama Tito Lopes] com dor, faltando ao trabalho. O que a gente mais quer é sair logo e com uma medicação, mas acaba esperando muito tempo e se pelo menos a dor passasse", relatou a empregada doméstica Sandra Regina de Oliveira, 49 anos. A prefeitura orienta que para sintomas como este, de menor gravidade, os usuários busquem uma das 139 Amas espalhadas pela capital.
 
A demora para conseguir uma consulta especializada também aparece entre as reclamações. A aposentada Neusa Aparecida Pereira, 69 anos, conta que precisou esperar cerca de três meses para ser atendida por um ortopedista. "Fiquei ruim da perna. Passei na Ama para tomar uma injeção para dor e ele me deu uma guia para passar no especialista. Demorou três meses para ser chamada, ele me pediu para fazer exames e foram mais dois meses para o retorno. No dia que eu fui, [a Ama] estava em reforma e acabei deixando por isso mesmo. Até a dor volta", relatou. Ela conta que a burocracia nas marcações a faz desistir de uma saúde preventiva.
 
É na Unidade Básica de Saúde (UBS), no entanto, que a expressão "saúde da família" ganha vida no SUS. Pelo menos é assim que relata a cozinheira Zelmira Buzinaro, 58 anos. Ela trata pelo nome o médico do posto mais próximo de sua casa e recebe mensalmente uma visita das agentes de saúde na sua casa. "Elas medem minha pressão, perguntam como está a saúde. Quando tinha convênio isso não acontecia. Mas sei também que isso depende muito da equipe. Já minha cunhada vive reclamando do posto perto da casa dela", apontou. Segundo a prefeitura, 440 unidades prestam esse atendimento na cidade.
 
Apesar de reclamar do atendimento que recebeu na Ama, Jaqueline também acredita que o acompanhamento regular que recebe em na casa pela UBS é o que mais se aproxima de um atendimento ideal na saúde pública. "Não tenho do que reclamar. Se precisar, até a médica vai. Se tiver consulta marcada, eles avisam. Pesam a criança. Agora que estou trabalhando é mais difícil receber a visita, mas sei que funciona. Eles me conhecem e eu conheço eles. Bem diferente daqui [Ama Tito Lopes]", comparou.
 
Agência Brasil

Trabalhadores na saúde de São Paulo defendem reestruturação do SUS

São Paulo - Apesar de reconhecerem as dificuldades resultantes da má distribuição dos médicos no estado, entidades representativas do setor de saúde destacam que para avaliar integralmente o serviço prestado é fundamental observar as condições de infraestrutura disponíveis.
 
Relatórios de visitas técnicas feitas pelo Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde em São Paulo (Sindsaúde), entre março de 2012 e julho deste ano, apontam, entre outras falhas, estruturas com rachaduras, vazamentos, armazenagem inadequada de medicamentos, descarte irregular de material e risco de contaminação para trabalhadores.
 
Uma das situações mais delicadas foi verificada no Hospital Leonor Mendes Barros, no bairro Belenzinho, zona leste da capital. O documento da inspeção feito em julho aponta a presença de fezes de rato em algumas instalações. "É uma questão muito séria. Constatamos que há indício de um animal transmissor de doenças dentro de um hospital. O que a gente observou é que existem unidades mais precárias e outras menos, mas todas apresentam problemas", criticou Gervásio Foganholi, presidente do sindicato.
 
Na unidade do Belenzinho foi identificado também risco de incêndio em um setor de caldeira já desativado, pois, segundo o Sindsaúde, o óleo foi jogado no piso e coberto com pó de serra, mas o local continuou encharcado. Os trabalhadores relataram ainda a ausência de extintores. "Tem que existir uma política de recursos humanos propositiva, que dê suporte, principalmente, à atenção básica, mas também tem que ter melhoria das condições de estrutura. É esse conjunto que precisa ser resolvido", destacou Foganholi.
 
O Hospital Regional de Assis, município do oeste paulista a cerca de 440 quilômetros da capital, apresentou, em outubro de 2012, descarte inadequado de lixo hospitalar, como seringas, na sala de enfermagem e ambulatórios. No hospital, o sindicato observou armazenagem inadequada de materiais de inalação, teto com infiltração e funcionários no exercício das funções sem equipamentos de proteção individual (EPI), como máscara, luva e touca.
 
Situação parecida foi encontrada no Hospital Heliópolis, no bairro Sacomã, zona sul de São Paulo. Entre as irregularidades identificadas, o Sindsaúde destacou a não utilização de EPI, infiltrações no depósito de armazenamento de remédios e falta de local adequado para descarte de material de cirurgia. O relatório aponta, inclusive, descarte de sangue em vaso sanitário. "Nós defendemos a existência do Sesmt [Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho] em todas as unidades, mas não é o que observamos", disse o presidente do sindicato.
 
Os relatórios feitos pela entidade sindical foram produzidos com base em visitas a 14 unidades de saúde sob responsabilidade do governo estadual, na Grande São Paulo e em algumas cidades do interior. Os resultados de sete hospitais foram apresentados em uma audiência, no último mês de junho, da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa. "Avaliamos que esse era o melhor espaço, porque aglutina representações do governo [do estado] e também da sociedade civil. Ao final desse trabalho, vamos protocolar o documento no Ministério Público também", informou o sindicalista.
 
Uma fiscalização do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), divulgada em junho deste ano, também aponta um cenário preocupante. A vistoria feita em 71 prontos-socorros do estado constatou que 57,7% deles têm macas com pacientes nos corredores; 66,2% enfrentam dificuldade de encaminhar pacientes para outros serviços de referência e 57,7% estão com equipes médicas incompletas.
 
O documento mostra, ainda, que em 59,2% das salas de emergência falta algum tipo de material. “As conclusões [obtidas a partir] do levantamento revelam falhas graves dos serviços de urgência e emergência, que colocam a população em risco e não oferecem aos médicos condições mínimas e adequadas de trabalho”, diz o texto. Do total de unidades fiscalizadas, 30 são prontos-socorros públicos municipais, 22 filantrópicos, 16 públicos estaduais e três privados.
 
Para Otelo Chino, diretor do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), a dificuldade em deslocar médicos às áreas periféricas, sejam elas no interior do país ou em bairros mais distantes dos centros urbanos, é justificada, em parte, pelos problemas de infraestrutura encontrados nas unidades. "É evidente que faltam médicos, mas temos que saber o porquê. Já é sabido que os locais onde não têm uma qualificação para o atendimento, os médicos não ficam. Dê uma condição estrutural melhor e eles atendem ao chamado", avaliou.
 
Procurada pela Agência Brasil para comentar os relatórios, a Secretaria Estadual de Saúde disse que o Sindsaúde faz oposição sistemática ao governo de São Paulo e, por isso, questiona a veracidade dos dados apresentados. O órgão diz estranhar a escolha dos hospitais para a vistoria, tendo em vista que foram selecionadas unidades localizadas "em prédios mais antigos".
 
Em nota, a Secretaria de Saúde informa que o estado possui unidades mais modernas, como o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e o Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. A secretaria destaca investimentos da ordem de R$ 80 milhões, desde 2011, na recuperação de hospitais e centros de saúde.
 
Sobre o Hospital Heliópolis, o órgão informa se tratar de um prédio com cerca de 45 anos, que, eventualmente, apresenta problemas com infiltrações. "No entanto, é importante deixar claro que o prédio passa por manutenções periódicas, como troca de telhas, reparos em encanamentos e consertos de móveis e equipamentos". A secretaria nega que haja falta de local adequado para o descarte de material de cirurgia, ou que ocorra descarte de sangue no vaso sanitário. "Essas informações são absurdas e mentirosas", assinala a nota.
 
O governo estadual também nega que seringas são descartadas de maneira imprópria no Hospital Regional de Assis. Considera inverídica ainda que profissionais não utilizem uniformes adequados. Em relação ao Hospital Leonor Mendes de Barros, a secretaria informou que é feito o procedimento de desratização quinzenalmente e que o último procedimento foi feito em 29 de julho. Sobre a caldeira, o problema de vazamento de óleo foi reparado de acordo com normas de segurança, com a aplicação de serragem no local para a absorção do óleo. O local encontra-se atualmente sem qualquer vestígio de óleo ou serragem. O órgão destaca, também, que no local existem hidrantes e extintores para qualquer emergência.
 
Sobre as equipes do Sesmt, a secretaria esclarece que segue as normas que regulamentam a presença de profissionais do setor de medicina do trabalho de acordo com a quantidade de funcionários que atuam em cada unidade e o risco existente em cada ambiente. Além disso, há treinamento específico de todos os funcionários para que as normas sejam cumpridas.
 
Agência Brasil

Entenda o que é o Ato Médico

Valter Campanato/ABr
Protesto contra o Ato Médico, em Brasília, em julho
Polêmico projeto de lei que regulamenta o exercício da medicina foi aprovado com vetos pela presidente em julho
 
O Congresso vai apreciar nesta terça-feira (20) uma série de vetos em projetos de lei sancionados pela presidente Dilma Rousseff em julho, e um dos que está causando mais polêmica é o Ato Médico.
 
A lei que regulamenta o exercício da medicina foi aprovada por Dilma causava incômodo entre profissionais de várias categorias de saúde, como enfermeiros, fisioterapeutas, e psicólogos, por estabelecer uma série de procedimentos como exclusivos de médicos diplomados.
 
O Artigo 4º, considerado o mais polêmico, teve nove pontos vetados, inclusive o Inciso 1º, que atribuía exclusivamente aos médicos a formulação de diagnóstico de doenças. Outros artigos vetados versavam sobre indicação de próteses e órteses e até a aplicação de injeções.
           
A razão apresentada para o veto é que esse inciso impediria a continuidade de inúmeros programas do SUS que funcionam a partir da atuação integrada dos profissionais de saúde, contando, inclusive, com a realização do diagnóstico por profissionais de outras áreas que não a médica.
 
Entre os trechos mantidos estão os é que caberá apenas às pessoas formadas em medicina a indicação e intervenção cirúrgicas, além da prescrição dos cuidados médicos pré e pós-operatórios; a indicação e execução de procedimentos invasivos, sejam diagnósticos, terapêuticos ou estéticos, incluindo acessos vasculares profundos, as biópsias e as endoscopias. Também será de exclusividade médica a sedação profunda, os bloqueios anestésicos e a anestesia geral.
 
Ao detalhar a razão do veto relacionado à aplicação de injeções, o governo explicou que condicionar o procedimento à prescrição médica pode causar impacto no atendimento dos estabelecimentos privados e nas políticas públicas do Sistema Único de Saúde (SUS), como as campanhas de vacinação.
 
Em relação às órteses e próteses, a razão apontada para o veto é que a manutenção do texto resultaria em impacto negativo no atendimento à saúde. A medida impossibilitaria a atuação de outros profissionais que já prescrevem, confeccionam e acompanham o uso de órteses e próteses que, por suas especificidades, não requerem indicação médica.
 
Os vetos foram bem recebidos pelos profissionais de saúde, enquanto o Conselho Federal de Medicina os chamou de “agressão aos médicos”. Cabe agora aos parlamentares decidirem por sua manutenção, mas o Planalto já avisou: vai levar a discussão ao Supremo Tribunal Federal (STF), caso eles sejam derrubados.

Último Segundo

'Água em pó' é promessa contra a seca

Divulgação
Um litro de água pode ser absorvido por apenas 10 gramas
do produto, segundo fabricantes
'Chuva Sólida' é um polímero em pó capaz de absorver grandes quantidades de água e libertar líquido aos poucos
 
Enquanto a ONU afirma que a maior parte da água usada no planeta vai para a irrigação , pesquisadores estão desenvolvendo uma série de ideias para fazer render mais a água utilizada na agricultura.
 
Nas últimas semanas, muitos se empolgaram com um produto que afirmam ter potencial para superar o desafio global de se cultivar em condições áridas.
 
Denominado "Chuva Sólida", ele é um pó capaz de absorver enormes quantidades de água e ir liberando o líquido aos poucos, para que as plantas possam sobreviver em meio a uma seca.             
 
Um litro de água pode ser absorvido por apenas 10 gramas do material, que é um tipo de polímero absorvente orginalmente criado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês).
 
Nos anos 1970, o USDA desenvolveu um produto superabsorvente feito de um tipo de goma. Ele foi usado principalmente na fabricação de fraldas.
 
Potencial
Mas um engenheiro químico mexicano chamado Sérgio Jesus Rico Velasco via no produto um potencial que ia além de deixar bebês sequinhos.
 
Ele então desenvolveu e patenteou uma versão diferente da fórmula, que pode ser misturada com o solo para reter a água.
 
O engenheiro vem vendendo a "Chuva Sólida" no México há cerca de 10 anos. Sua empresa afirma que o governo mexicano testou o produto e concluiu que a colheita poderia ser ampliada em 300% quando ele era misturado ao solo.
 
Segundo Edwin González, vice-presidente da empresa Chuva Sólida, o produto agora vem atraindo um interesse cada vez maior, já que crescem os temores por falta de água.
 
"Ele funciona encapsulando água e pode durar 8 a 10 anos no solo, dependendo da qualidade da água. Se você usar água pura, ele dura mais."
 
A empresa recomenda usar cerca de 50 quilos do produto por hectare (10 mil metros quadrados), mas essa quantia custa cerca de US$ 1.500 (o equivalente a R$ 3.500).
 
Segundo Gonzalez, a "Chuva Sólida" é natural e não prejudica o solo, mesmo após ser usada por vários anos. Ele afirma que o produto não é tóxico e que, ao se desintegrar, o pó se torna parte das plantas.
 
'Sem evidências'
No entanto, nem todos estão convencidos de que a "Chuva Sólida" é uma solução válida para o problema da seca.
 
A professora Linda Chalker-Scott, da Universidade do Estado de Washington, afirma que esses produtos não são novidade. "E não há evidência científica que sugira que eles armazenem água por um ano.", disse ela à BBC.
 
"Outro problema prático é que esse gel pode também causar problemas. Isso porque à medida que eles secam, ele vai sugando a água ao redor dele mais vigorosamente. E assim ele desvia a água que iria para a raiz das plantas."
 
Segundo ela, usar adubo de lascas de madeira produz o mesmo efeito e é significantemente mais barato.
 
González, no entanto, tem uma opinião diferente: "Os outros concorrentes não duram três ou quatro anos. Os únicos que duram tanto são os que usam sódio em suas formulas, mas eles não absorvem tanto."
 
Apesar do fato de que a ciência ainda não estar totalmente confiante nos benefícios de produtos como esse, González afirma que sua empresa recebeu milhares de pedidos vindos de locais áridos, incluindo Índia e Austrália. Ele também recebeu encomendas da Grã-Bretanha, onde secas não chegam a ser um problema.
 
Último Segundo

Criado há 25 anos, SUS ainda enfrenta desafio na qualidade de atendimento

Brasília - Para garantir saúde pública de qualidade a toda população, o Brasil ainda precisa percorrer um longo caminho. Mas, se de um lado tem desafios como a carência de médicos em muitas regiões, a distribuição irregular dos profissionais em seu território e a falta ou inadequação da estrutura de atendimento em diversas unidades, do outro tem o mérito de ser o único país com mais de 100 milhões de habitantes que assumiu o compromisso de contar com um sistema universal, integral, igualitário e gratuito de saúde.
 
Para conhecer melhor a realidade da saúde pública, a Agência Brasil, em parceria com a TV Brasil, enviou uma equipe de reportagem ao Amazonas, Maranhão e Piauí. Durante sete dias, os repórteres percorreram capitais e cidades do interior dos três estados das regiões Norte e Nordeste para conhecer a realidade dos moradores e de indígenas que dependem da saúde pública. Também foram mobilizadas equipes do Distrito Federal, de São Paulo e do Rio de Janeiro. Durante a semana, a Agência Brasil e a TV Brasil divulgarão uma série - Raio X da Saúde – sobre as carências do Sistema Único de Saúde (SUS) e, também, os hospitais que, mesmo mantidos por dinheiro público, são referências nacionais e internacionais.
 
No Maranhão, a dona de casa Graça Mendes, 56 anos destacou a importância da população local poder contar com o atendimento integral e gratuito. Segundo ela, embora não tenha nenhum vínculo empregatício, pode recorrer a um posto de saúde ou a um hospital quando precisa de atendimento. Nem sempre foi assim: até há algumas décadas somente pessoas formalmente empregadas e seus dependentes podiam utilizar a rede de saúde mantida pelo Estado, por meio do antigo Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps). Os outros brasileiros, que quisessem ou precisassem de atendimento, deveriam pagar diretamente por ele.
 
"A saúde pública, claro, poderia e deveria melhorar, mas é melhor a gente ter esse direito do que ficar sem ele. Temos que cobrar melhoria dos serviços e lutar por isso", disse Graça, que é usuária da rede pública há três anos, desde que ficou viúva e não teve mais como pagar o plano de saúde.
 
A Constituição Federal de 1988 instituiu o Sistema Único de Saúde (SUS), que tem sua origem no movimento conhecido como Revolução Sanitária, nascido nos meios acadêmicos na década de 1970. Seu principal pilar era a defesa da saúde como direito de todos. O movimento teve como marco a 8º Conferência Nacional de Saúde, em 1986, que, além de ajudar a propagá-lo, produziu um relatório final que serviu de base para os debates na Assembleia Constituinte.
 
Defensores da reforma, como o sanitarista Sérgio Arouca, que foi presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), tiveram grande destaque à época e ajudaram o Brasil a implantar o modelo de atenção à saúde como conhecemos hoje.
 
A lavradora Raimunda Ferreira de Oliveira, de 79 anos, que nunca trabalhou com carteira assinada, lembra como era a saúde antes da criação do SUS. "A gente tinha que pagar para ver o médico. Aqui, em Rosário - município maranhense -, tinha um médico só e a gente ia na casa dele para ser atendida quando acontecia alguma coisa", contou.
 
Na estratégia adotada pelo SUS não há hierarquia entre os níveis de governo, mas cada uma das esferas - federal, estadual e municipal - tem competências distintas. O principal financiador da saúde pública no país é a União que, também, tem a responsabilidade de formular políticas na área. Essas políticas devem ser implementadas por estados e municípios. Cabe aos governos estaduais organizar o atendimento em seu território e aos municípios gerir as ações e os serviços ofertados à população. Eles - os municípios - são os principais responsáveis pela saúde de seus habitantes. Se um município não tem todos os serviços, deve pactuar com cidades vizinhas o encaminhamento das demandas a outras localidades onde eles são encontrados.
 
Atualmente, segundo dados do Ministério da Saúde, são feitos, a cada ano, na rede do SUS, 3,7 bilhões de procedimentos ambulatoriais, 531 milhões de consultas médicas e 11 milhões de internações. O Sistema Único de Saúde também é considerado o maior sistema público de transplantes de órgão do mundo, além de responder por 98% do mercado de vacinas e por 97% dos procedimentos de quimioterapia. Entre os anos de 2010 e 2012, foram feitos 32,8 milhões de procedimentos oncológicos por meio do SUS.
 
Diante da dimensão do SUS, para que a rede funcione em harmonia, a porta de entrada deve ser a atenção básica, formada pelos postos e centros de saúde, além das unidades do Programa Saúde da Família. Estudos demonstram que esse estágio de atendimento é capaz de resolver aproximadamente 80% dos problemas de saúde. Somente após passar pela atenção básica, o paciente deve ser encaminhado, se necessário, a outros serviços de maior complexidade, como hospitais e clínicas especializadas, onde são feitos exames, consultas e algumas cirurgias (média complexidade) e procedimentos que envolvem tecnologia mais avançada, como os de traumato-ortopedia, cardiologia, terapia renal substitutiva e oncologia (alta complexidade).
 
Um dos principais problemas na implantação do SUS, segundo especialistas, autoridades e profissionais, é que a atenção básica não dá conta desse papel inicial, de funcionar como porta de entrada do sistema, e as unidades de média e alta complexidade acabam sobrecarregadas. Muitas vezes, as doenças dos pacientes encaminhados aos hospitais poderiam ser evitadas, com ações mais efetivas na área da prevenção ou tratadas em estágio inicial. Nesse primeiro nível de atenção à saúde, segundo o modelo brasileiro, a população tem acesso a especialidades básicas: clínica geral, pediatria, obstetrícia e ginecologia.

Agência Brasil