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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Acúmulo de ferro no corpo pode provocar danos aos órgãos

O ideal é que homens e mulheres saudáveis consumam 8 mg
e 18 mg de ferro por dia, respectivamente
Exame específico de sangue é pouco usado, mas é capaz de detectar o problema
 
O ferro é um nutriente essencial para o nosso organismo, mas tanto a sua falta como o excesso podem provocar graves problemas para a saúde. Se a carência de ferro é o que leva às conhecidas anemias, o excesso do nutriente provoca a hemocromatose – doença que se caracteriza pelo acúmulo de ferro na forma de ferritina (proteína que armazena o nutriente) nos músculos, fígado, pâncreas, articulações e coração provocando danos aos órgãos e tecidos.

“É como se fossem colocados 20 pregos no seu fígado e os deixassem lá por 20 anos. Seria liberada uma ferrugem que causaria uma reação inflamatória que leva a fibrose e a cirrose”, exemplifica o oncohematologista Celso Massumoto. Segundo ele, o problema afeta uma a cada 200 pessoas no mundo. Nos EUA, cerca de 10% da população tem o problema.
 
A doença, que evolui lentamente, pode ter origem genética ou não, segundo o hematologista João Paulo de Oliveira. “Pode ser causada por um defeito nos genes (C282Y e H63D), ou como consequência de outras doenças, grande número de transfusões de sangue, ingestão excessiva de ferro ao longo da vida, alcoolismo, entre outras”, afirma o presidente do Departamento de Hematologia e Hemoterapia da Associação Médica de Minas Gerais.
 
Alimentação
O ideal é que homens e mulheres saudáveis consumam 8 mg e 18 mg de ferro por dia, respectivamente, segundo afirma a nutricionista Débora Cherubino. “O excesso de ferro pode se depositar no fígado, podendo causar cirrose. No pâncreas, (pode causar) diabetes; no coração, insuficiência cardíaca; nas glândulas, mau funcionamento e problemas na produção hormonal”, explica a especialista.
 
Assim, os sintomas da hemocromatose se manifestam de diversas formas. Com dores nas articulações e abdominal, fadiga, perda de peso, mudança na coloração da pele (tonalidade bronzeada),  perda do desejo sexual,  perda de pelo corporal, problemas cardíacos, sintomas relacionados com o início do diabetes.
 
Porém, por ser uma doença de conhecimento científico recente – cerca de oito anos –, Massumoto afirma que poucos médicos têm o costume de pedir um exame que identifica o acúmulo.
 
“Basta realizar um exame de sangue conhecido como ferritina. Os níveis nesse teste não devem ultrapassar 250 ng/ml (nanogramas por mililitro), para as mulheres, e 300 ng/ml, para os homens, mas nos pacientes com o distúrbio, a absorção é muito maior e alguns chegam a ter mais de 20 g de ferro no corpo”, conta.
 
A pedagoga Betânia Lucca, 47, descobriu que tinha hemocromatose no ano passado, após realizar exames de rotina. “No meu caso, é genético. Para o tratamento, não tive que fazer nenhum tipo de dieta. Como descobri cedo, não comprometeu nenhum órgão, mas já fiz em torno de 30 sangrias (extração de sangue)”.
 
Parte do tratamento da doença se baseia na retirada do excesso de ferro através da sangria, dieta balanceada e remédios.
 
“A doença (hemocromatose) se caracteriza pelo acúmulo de ferro. É como se fossem colocados 20 pregos no seu fígado e os deixassem lá por 20 anos.”
 
Celso Massumoto, oncohematologista

Desde 2009, a Secretaria de Estado de Saúde de MG fornece gratuitamente cinco medicamentos para as doenças ligadas ao ferro.
 
iG

Brasil consome 14 agrotóxicos proibidos no mundo

National Geografic
Foto mostra a diferença entre um solo cultivado organicamente
 (esquerda) e outro que recebeu a adição de adubos químicos
ou agrotóxicos
Especialista indica que pelo menos 30% de 20 alimentos analisados não poderiam estar na mesa do brasileiro
 
Os indicadores que apontam o pujante agronegócio como a galinha dos ovos de ouro da economia não incluem um dado relevante para a saúde: o Brasil é maior importador de agrotóxicos do planeta. Consome pelo menos 14 tipos de venenos proibidos no mundo, dos quais quatro, pelos riscos à saúde humana, foram banidos no ano passado, embora pesquisadores suspeitem que ainda estejam em uso na agricultura.
 
Em 2013 foram consumidos um bilhão de litros de agrotóxicos no País – uma cota per capita de 5 litros por habitante e movimento de cerca de R$ 8 bilhões no ascendente mercado dos venenos.
 
Dos agrotóxicos banidos, pelo menos um, o Endosulfan, prejudicial aos sistemas reprodutivo e endócrino, aparece em 44% das 62 amostras de leite materno analisadas por um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) no município de Lucas do Rio Verde, cidade que vive o paradoxo de ícone do agronegócio e campeã nacional das contaminações por agrotóxicos. Lá se despeja anualmente, em média, 136 litros de venenos por habitante.
 
Na pesquisa coordenada pelo médico professor da UFMT Wanderlei Pignati, os agrotóxicos aparecem em todas as 62 amostras do leite materno de mães que pariram entre 2007 e 2010, onde se destacam, além do Endosulfan, outros dois venenos ainda não banidos, o Deltametrina, com 37%, e o DDE, versão modificada do potente DDT, com 100% dos casos. Em Lucas do Rio Verde, aparecem ainda pelo menos outros três produtos banidos, o Paraquat, que provocou um surto de intoxicação aguda em crianças e idosos na cidade, em 2007, o Metamidofóis, e o Glifosato, este, presente em 70 das 79 amostras de sangue e urina de professores da área rural junto com outro veneno ainda não proibido, o Piretroides.
 
Na lista dos proibidos em outros países estão ainda em uso no Brasil estão o Tricolfon, Cihexatina, Abamectina, Acefato, Carbofuran, Forato, Fosmete, Lactofen, Parationa Metílica e Thiram.
 
Chuva de lixo tóxico
“São lixos tóxicos na União Europeia e nos Estados Unidos. O Brasil lamentavelmente os aceita”, diz a toxicologista Márcia Sarpa de Campos Mello, da Unidade Técnica de Exposição Ocupacional e Ambiental do Instituto Nacional do Câncer (Inca), vinculado ao Ministério da Saúde. Conforme aponta a pesquisa feita em Lucas do Rio Verde, os agrotóxicos cancerígenos aparecem no corpo humano pela ingestão de água, pelo ar, pelo manuseio dos produtos e até pelos alimentos contaminados.
 
Venenos como o Glifosato são despejados por pulverização aérea ou com o uso de trator, contaminam solo, lençóis freáticos, hortas, áreas urbanas e depois sobem para atmosfera. Com as precipitações pluviométricas, retornam em forma de “chuva de agrotóxico”, fenômeno que ocorre em todas as regiões agrícolas mato-grossenses estudadas. Os efeitos no organismo humano são confirmados por pesquisas também em outros municípios e regiões do país.
 
O Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), segundo a pesquisadora do Inca, mostrou níveis fortes de contaminação em produtos como o arroz, alface, mamão, pepino, uva e pimentão, este, o vilão, em 90% das amostras coletadas. Mas estão também em praticamente toda a cadeia alimentar, como soja, leite e carne, que ainda não foram incluídas nas análises.
 
O professor Pignati diz que os resultados preliminares apontam que pelo menos 30% dos 20 alimentos até agora analisados não poderiam sequer estar na mesa do brasileiro. Experiências de laboratórios feitas em animais demonstram que os agrotóxicos proibidos na União Europeia e Estados Unidos são associados ao câncer e a outras doenças de fundo neurológico, hepático, respiratórios, renais e má formação genética.
 
Câncer em alta
A pesquisadora do Inca lembra que os agrotóxicos podem não ser o vilão, mas fazem parte do conjunto de fatores que implicam no aumento de câncer no Brasil cuja estimativa, que era de 518 mil novos casos no período 2012/2013, foi elevada para 576 mil casos em 2014 e 2015. Entre os tipos de câncer, os mais suscetíveis aos efeitos de agrotóxicos no sistema hormonal são os de mama e de próstata. No mesmo período, segundo Márcia, o Inca avaliou que o câncer de mama aumentou de 52.680 casos para 57.129.
 
Na mesma pesquisa sobre o leite materno, a equipe de Pignati chegou a um dado alarmante, discrepante de qualquer padrão: num espaço de dez anos, os casos de câncer por 10 mil habitantes, em Lucas do Rio Verde, saltaram de três para 40. Os problemas de malformação por mil nascidos saltaram de cinco para 20. Os dados, naturalmente, reforçam as suspeitas sobre o papel dos agrotóxicos.
 
Pingati afirma que os grandes produtores desdenham da proibição dos venenos aqui usados largamente, com uma irresponsável ironia: “Eles dizem que não exportam seus produtos para a União Europeia ou Estados Unidos, e sim para mercados africanos e asiáticos.”
 
Apesar dos resultados alarmantes das pesquisas em Lucas do Rio Verde, o governo mato-grossense deu um passo atrás na prevenção, flexibilizando por decreto, no ano passado, a legislação que limitava a pulverização por trator a 300 metros de rios, nascentes, córregos e residências. “O novo decreto é um retrocesso. O limite agora é de 90 metros”, lamenta o professor.
 
“Não há um único brasileiro que não esteja consumindo agrotóxico. Viramos mercado de escoamento do veneno recusado pelo resto do mundo”, diz o médico Guilherme Franco Netto, assessor de saúde ambiental da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz). Na sexta-feira, diante da probabilidade de agravamento do cenário com o afrouxamento legal, a Fiocruz emitiu um documento chamado de “carta aberta”, em que convoca outras instituições de pesquisa e os movimentos sociais do campo ligados à agricultura familiar para uma ofensiva contra o poder (econômico e político) do agronegócio e seu forte lobby em toda a estrutura do governo federal.
 
Reação da Ciência
A primeira trincheira dessa batalha mira justamente o Palácio do Planalto e um decreto assinado, no final do ano passado, pela presidente Dilma Rousseff. Regulamentado por portaria, a medida é inspirada numa lei específica e dá exclusividade ao Ministério da Agricultura _ histórico reduto da influente bancada ruralista no Congresso _ para declarar estado de emergência fitossanitária ou zoossanitária diante do surgimento de doenças ou pragas que possam afetar a agropecuária e sua economia.
 
Essa decisão, até então era tripartite, com a participação do Ministério da Saúde, através da Anvisa, e do Ministério do Meio Ambiente, pelo Ibama. O decreto foi publicado em 28 de outubro. Três dias depois, o Ministério da Agricultura editou portaria declarando estado de emergência diante do surgimento de uma lagarta nas plantações, a Helicoverpa armigera, permitindo, então, para o combate, a importação de Benzoato de Emamectina, agrotóxico que a multinacional Syngenta havia tentado, sem sucesso, registrar em 2007, mas que foi proibido pela Anvisa por conter substâncias tóxicas ao sistema neurológico.
 
Na carta, assinada por todo o conselho deliberativo, a Fiocruz denuncia “a tendência de supressão da função reguladora do Estado”, a pressão dos conglomerados que produzem os agroquímicos, alerta para os inequívocos “riscos, perigos e danos provocados à saúde pelas exposições agudas e crônicas aos agrotóxicos” e diz que com prerrogativa exclusiva à Agricultura, a população está desprotegida.
 
A entidade denunciou também os constantes ataques diretos dos representantes do agronegócio às instituições e seus pesquisadores, mas afirma que com continuará zelando pela prevenção e proteção da saúde da população. A entidade pede a “revogação imediata” da lei e do decreto presidencial e, depois de colocar-se à disposição do governo para discutir um marco regulatório para os agrotóxicos, fez um alerta dramático:
 
“A Fiocruz convoca a sociedade brasileira a tomar conhecimento sobre essas inaceitáveis mudanças na lei dos agrotóxicos e suas repercussões para a saúde e a vida.”
 
Para colocar um contraponto às alegações da bancada ruralista no Congresso, que foca seu lobby sob o argumento de que não há nexo comprovado de contaminação humana pelo uso de veneno nos alimentos e no ambiente, a Fiocruz anunciou, em entrevista ao iG, a criação de um grupo de trabalho que, ao longo dos próximos dois anos e meio, deverá desenvolver a mais profunda pesquisa já realizada no país sobre os efeitos dos agrotóxicos – e de suas inseparáveis parceiras, as sementes transgênicas – na saúde pública.
 
O cenário que se desenha no coração do poder, em Brasília, deve ampliar o abismo entre os ministérios da Agricultura, da Fazenda e do Planejamento, de um lado, e da Saúde, do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Agrário, de outro. Reflexo da heterogênea coalizão de governo, esta será também uma guerra ideológica em torno do modelo agropecuário. “Não se trata de esquerdismo desvairado e nem de implicância com o agronegócio. Defendemos sua importância para o país, mas não podemos apenas assistir à expansão aguda do consumo de agrotóxicos e seus riscos com a exponencial curva ascendente nos últimos seis anos”, diz Guilherme Franco Netto. A queda de braços é, na verdade, para reduzir danos do modelo agrícola de exportação e aumentar o plantio sem agrotóxicos.
 
Caso de Polícia
“A ciência coloca os parâmetros que já foram seguidos em outros países. O problema é que a regulação dos agrotóxicos está subordinada a um conjunto de interesses políticos e econômicos. A saúde e o ambiente perderam suas prerrogativas”, afirma o pesquisador Luiz Cláudio Meirelles, da Fiocruz. Até novembro de 2012, durante 11 anos, ele foi o organizador gerente de toxicologia da Anvisa, setor responsável por analisar e validar os agrotóxicos que podem ser usados no mercado.
 
Meirelles foi exonerado uma semana depois de denunciar complexas falcatruas, com fraude, falsificação e suspeitas de corrupção em processos para liberação de seis agrotóxicos. Num deles, um funcionário do mesmo setor, afastado por ele no mesmo instante em que o caso foi comunicado ao Ministério Público Federal, chegou a falsificar sua assinatura.
 
“Meirelles tinha a função de banir os agrotóxicos nocivos à saúde e acabou sendo banido do setor de toxicologia”, diz sua colega do Inca, Márcia Sarpa de Campos Mello. A denúncia resultou em dois inquéritos, um na Polícia Federal, que apura suposto favorecimento a empresas e suspeitas de corrupção, e outro cível, no MPF. Nesse, uma das linhas a serem esclarecidas são as razões que levaram o órgão a afastar Meirelles.
 
As investigações estão longe de terminar, mas forçaram já a Anvisa – pressionada pelas suspeitas –, a executar a maior devassa já feita em seu setor de toxicologia, passando um pente fino em 796 processos de liberação avaliados desde 2008. A PF e o MPF, por sua vez, estão debruçados no órgão regulador que funciona como o coração do agronegócio e do mercado de venenos.
 
iG

Provab aloca 1.525 enfermeiros e dentistas no interior do País

Profissionais farão parte de equipes de atenção básica em municípios com falta de profissionais
 
O Ministério da Saúde divulgou nesta sexta-feira (20), no Diário Oficial, a relação de profissionais selecionados na edição deste ano do Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab). Ao todo, 1 mil enfermeiros e 525 cirurgiões-dentistas vão atuar por um ano na atenção básica de regiões consideradas mais carentes, como o interior e as periferias dos grandes centros.
 
Serão 310 os municípios que receberão dentistas e 251 cidades com enfermeiros. A região que concentrará o maior número de profissionais é o Nordeste, em que foram alocados 383 enfermeiros e 363 dentistas. Em seguida vem o Sudeste, que vai contar com 281 enfermeiros e 82 dentistas, e o Sul, 163 enfermeiros e 29 dentistas. Centro-Oeste e Norte receberão, respectivamente, 98 e 69 enfermeiros e 9 e 42 dentistas. A previsão é que os profissionais comecem a trabalhar nos municípios a partir de março.
 
É a segunda edição do Provab voltado à seleção de enfermeiros e dentistas. Os participantes recebem bolsa paga pelo Ministério da Saúde no valor de R$ 2.976,26 e cursam especialização em atenção básica, tendo de cumprir 32 horas semanais de atividades práticas e oito horas semanais de atividades acadêmicas. O curso é ministrado na modalidade a distância pela Universidade Aberta para o SUS (UNA-SUS).
 
* com informações da Agência Saúde, ligada ao Ministério da Saúde
 
SaudeWeb

Manaus estuda extinguir contratos de PPP de UBSFs

Foto: Divulgação/Semsa
Unidade Básica de Saúde da Família inaugurada em Manaus
Contrato prevê construção de 20 unidades – 7 já entregues -, mas município considera construções inadequadas
 
A Secretaria de Saúde de Manaus, no Amazonas, analisa a possibilidade de extinguir um contrato de parceria público-privada (PPP) firmado em 2012 para a construção de Unidades Básicas de Saúde da Família (UBSF) no município, incluindo o fornecimento de equipamentos, mobiliário e manutenção de infraestrutura. Segundo o órgão, a concessão não correspondeu às expectativas do município.
 
Formado pelas empresas Magi Clean e SH Engenharia e Construções, o consórcio venceu a concorrência dos quatro lotes ofertados pela secretaria pelo valor de R$ 4,2 milhões para o período de nove anos. Estão previstas as construções de 20 UBSFs, sendo que sete já foram entregues.
 
A Secretaria alega que as unidades não foram projetadas com o tamanho adequado, fugindo dos padrões definidos pelo Ministério da Saúde, e que a estrutura não é suficiente para o atendimento do número de famílias nas áreas de influência. Alega ainda que o custo de manutenção é elevado e o serviço é ineficiente.
 
O assunto está em discussão pelo Comitê Gestor do Programa de Parceria Público-Privada do Município de Manaus, cuja intenção é negociar o término do contrato – processo que pode não ser muito fácil, pois os prédios só podem ser patrimonializados após a quitação do contrato, o que só deveria acontecer em 2021.
 
* com informações dos portais PPP Brasil e Amazonas Atual
 
SaudeWeb

Prevenção de doenças crônicas pode fazer crianças viverem 100 anos

Foto: Reprodução
Pesquisadora do Instituto da Criança do HC de SP defende mudança na abordagem de pediatras no tratamento de bebês
 
A pediatra Magda Carneiro Sampaio defende mudanças na forma de cuidado dos bebês e das crianças brasileiras. Presidente do Conselho Diretor do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a pernambucana afirma que falta conversa nos consultórios, assim como exames clínicos cuidadosos.
 
Os diagnósticos baseados em radiografias e exames de sangue, segundo ela, se tornaram uma rotina na vida das crianças. Eles podem prejudicar a longa expectativa de vida que ela prevê para muitos bebês: 100 anos. “O pediatra precisa entender que o cuidado dele nos primeiros anos de vida da criança terá impacto ao longo de toda a vida e, se as posturas dele forem adequadas, elas poderão chegar aos 90, 100 anos com qualidade de vida”, afirma.
 
As doenças crônicas – como as cardiovasculares, diabetes, hipertensão, osteoporose – devem ser cuidadas desde muito cedo. A história genética da família deve ser valorizada pelos médicos e a prevenção precoce pode mudar a trajetória desses bebês. Magda diz que, hoje, os pediatras têm condição de evitar a manifestação de doenças na idade adulta que “começam muito cedo”.
 
“O exemplo mais conhecido e bem estudado é o das doenças cardiovasculares. A deposição de gordura nos vasos começa muito cedo, ainda nos primeiros anos de vida”, ressalta. Em parceria com o médico João Guilherme Bezerra Alves, do Instituto Materno-Infantil de Pernambuco, Magda escreveu um guia para futuros pediatras, cujas orientações para esse novo modelo de pediatria foram listadas ao iG.
 
Doutora em imunologia pela USP, Magda cuida também de outro projeto inovador, que pretende tornar o diagnóstico das crianças mais humano e seguro. Leia os principais trechos da entrevista concedida ao iG:
 
iG: A senhora tem um projeto que defende prevenção precoce de doenças crônicas, que aparecem na vida adulta, ainda nos bebês e nas crianças. Qual é a necessidade de se pensar em hipertensão, diabetes e doenças do coração logo cedo?
Magda Sampaio: Esse é um projeto que busca conscientizar os pediatras de que nós temos um papel importante para a saúde da pessoa ao longo de toda vida. O pediatra, junto com o hebiatra, atende nas duas primeiras décadas apenas, mas a qualidade desse atendimento pode ser fundamental para a pessoa ter vida longa e de boa qualidade. Muitas doenças que se manifestam na idade adulta começam muito cedo.
 
O exemplo mais conhecido e bem estudado é o das doenças cardiovasculares. A deposição de gordura nos vasos começa muito cedo, ainda nos primeiros anos de vida, mas a obstrução que provoca os primeiros sintomas só aparece bem mais tarde. Isso precisa ser revertido cedo, com boa alimentação, atividade física e cuidados nas consultas pediátricas, para que a carga genética familiar seja avaliada também.
 
O pediatra precisa saber, por exemplo, quando a família tem histórico de osteoporose, doenças cardíacas, diabetes. Muitas atitudes preventivas podem ser tomadas a partir disso, já que a criança terá uma forte predisposição a desenvolver essas doenças no futuro. É um projeto conscientização, que sugere mudança de atitude do pediatra. O papel dele é muito mais importante do que só cuidar do bebê.
 
iG: A senhora acredita que, se essa nova forma de pediatria for colocada em prática, com a mudança na formação desses profissionais, essas crianças vão viver até 100 anos. É isso mesmo?
Magda: O pediatra precisa entender que o cuidado dele nos primeiros anos de vida da criança terá impacto ao longo de toda a vida e, se as posturas dele forem adequadas, elas poderão chegar aos 90, 100 anos com qualidade de vida. O fato de muitas residências em pediatria passarem a ter três anos de duração é ótimo, porque os pediatras terão uma formação melhor.
 
Defendemos alguns passos básicos para garantir a esses bebês uma vida longa: assistência pré-natal; aleitamento materno; hábitos alimentares saudáveis desde bebês; vigilância do crescimento e desenvolvimento (com consultas regulares); prevenção de infecções, em especial por meio de vacinas; estímulo à atividade física e combate ao sedentarismo; prevenção do tabagismo, alcoolismo e uso de drogas; identificação precoce de hipertensão, diabetes, dislipidemias e tendência à osteoporose; cuidados com a saúde mental e prevenção da violência.
 
É o pediatra quem conseguirá acompanhar esse desenvolvimento e defender diagnósticos que evitem exposições a exames desnecessários.
 
iG: De que tipos de exames a senhora está falando? A senhora acredita que os diagnósticos pediátricos têm sido feitos da maneira incorreta hoje?
Magda: O desdobramento desse primeiro projeto é o “Diagnóstico Amigo da Criança”. Esse é um projeto que estamos desenvolvendo aqui no Hospital das Clínicas desde 2012 para reduzir o impacto negativo dos procedimentos diagnósticos usados pelos pediatras atualmente. Nossa tarefa é explicar aos pediatras e à população a importância de reduzir a exposição da criança e do adolescente à radiação.
 
A cada resfriado, os médicos já pedem raio-x, exame de sangue. E já sabemos que a exposição a essa radiação aumenta as chances de desenvolver câncer, como leucemia, linfoma e no sistema nervoso central. Não estou desmerecendo os exames, porque eles são muito importantes, mas o diagnóstico bem feito é clínico em primeiro lugar. É preciso lembrar que 85% das crianças chegam sadias aos consultórios.
 
Os exames deveriam ser complementares e não a base do diagnóstico. Temos substituído raios-x por ultrassonografias para reduzir essa exposição, por exemplo, e diminuído a quantidade de sangue que se colhe da criança, com tubos bem menores que os convencionais, porque há desperdício de sangue na avaliação e, para as crianças, essa quantidade faz diferença.
 
iG: A senhora fala que o exame clínico e a análise da história familiar são fundamentais para o bom atendimento do pediatra e a prevenção de doenças, mas as consultas estão cada vez mais rápidas...
Magda: Esse é um grande mal: os médicos estão deixando de ser clínicos. As coisas estão sendo colocadas de ponta cabeça. Quando vejo que não tem médico que queira ir para áreas mais carentes, no fundo, é porque ele não se sente preparado, não sabe examinar. Sem o aparelho que faça o exame, ele se sente inseguro.
 
Claro que existem dificuldades, mas saber examinar e tomar atitudes vai resolver a maior parte dos problemas. O essencial é o pediatra conversar com a mãe e o adolescente. Ter tempo, gosto pelo que faz, ouvir, perguntar. Isso traz quase todas as informações que ele precisa.
 
A informação e o exame físico mostram tudo. Os modelos de clínicos que gostam de interagir com a família e o paciente estão se acabando. Com todo o progresso tecnológico, as pessoas não mudaram fundamental na hora da doença. Tem de olhar no olho, conversar, saber a história da família, as doenças da família.
 
iG: Nesse sentido, a família também precisa mudar de atitude? Muitos médicos comentam que os próprios pais se incomodam quando nenhum exame é solicitado...
Magda: Essa mentalidade do exame passar para a sociedade é o que mais me preocupa. Se o pai não sai do médico com uma lista de exames, não está satisfeito. Médico bom não é o que pede exame. Não estou desmerecendo ninguém, mas ele tem de ter motivo para pedir um exame.
 
O importante é a família levar a criança ao pediatra regularmente para medir, pesar, avaliar os marcos de desenvolvimento. É importante que mãe e o pai tenham uma boa relação com o pediatra, para que ele faça o controle dessa criança e, se ele conhece bem o paciente, vai intervir se algo estiver errado com ela.
 
iG: As doenças crônicas são o grande desafio dos pediatras?
Magda: Algumas doenças respiratórias, como asma, bronquite e rinite alérgica são bastante prevalentes em criança. Em seguida, a obesidade surge de maneira galopante. Nossa ideia deve ser diminuir a quantidade de sal e de açúcar na dieta das crianças desde sempre.
 
O ideal é que elas aprendam a comer sem ou com pouco açúcar e sal, aprender a comer fruta e verdura para isso não seja um sacrifício ou tenha de ser uma mudança de hábito mais tarde. Mas, na realidade, as doenças mentais são o grande desafio.
 
A depressão é um problema gravíssimo, cada vez mais prevalente. É importante que o pediatra observe essas relações da família, o afeto, os valores que o bebê recebe. Não temos fórmulas prontas, mas a prevenção às doenças mentais deve ser uma preocupação precoce também.
 
iG