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terça-feira, 9 de maio de 2017

Brasileiros usam estimulantes sexuais de forma irresponsável

Pesquisa realizada em 16 capitais brasileiras identificou que Porto Alegre é a cidade com maior índice. Homens acima de 56 anos estão entre os que mais usam

De acordo com o Ministério da Saúde, quase 60.000 internações por automedicação foram registradas no Brasil, entre 2009 e 2014. O mais curioso é saber que dentro do percentual de homens adeptos à prática, cerca de 10% fazem uso recreativo de estimulantes sexuais: ou seja, usam esse tipo de medicamento de forma irresponsável, sem real indicação médica.

No Brasil, são comercializados cinco tipos de estimulantes e, de acordo com estudo do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, lidera o ranking das capitais onde o uso recreativo de viagra, cialis, entre outros é mais expressivo:

1º Porto Alegre – RS: 38%
2º Brasília – DF: 18%
3º Vitória – ES: 15%
4º Goiânia – GO, Rio de Janeiro – RJ e Curitiba – PR: 13%
5º Recife – PE: 11%

De acordo com o Roberto Vaz Juliano, urologista e membro do Instituto de Urologia do Hospital Oswaldo Cruz, cada medicamento tem dose e posologia únicas, e só deveriam ser utilizados com indicação médica. Entre os principais efeitos colaterais devido ao uso recreativo estão arritmia cardíaca, cefaleia, distúrbios visuais, vermelhidão na pele, tontura, dores musculares e câimbras.

Dos que fazem uso de forma irresponsável, 56% pertencem às classes sócias A ou B, 38% têm idade a partir dos 56 anos e outros 15% têm menos de 40 anos. A pesquisa foi realizada em 16 capitais brasileiras de todas as regiões do país, com 2.340 pessoas, que responderam o questionário de maneira involuntária.De acordo com dados do ICTQ, a margem de erro máxima para o total da amostra é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro de um nível de confiança de 95%.

Automedicação
Um segundo estudo da NZN Inteligence (plataforma brasileira de levantamento e geração de informação e dados), realizado entre agosto e setembro do ano passado, com mais de 2.000 brasileiros entrevistados, investigou quais são os hábitos da população em relação à automedicação e às medidas que tomam quando têm algum problema de saúde:

– 68% dos pesquisados afirmaram que tomam remédios por conta própria
– 37% relatou que procuram os sintomas na internet quando se sente mal, em detrimento a outras medidas
– 31% buscam soluções em conversas com amigos e familiares
– 26% utilizam medidas caseiras como chás
– 16% vão à farmácia
– 14% vão ao médico

Entre os medicamentos mais consumidos por conta própria estão os analgésicos (88%), os anti-inflamatórios (67%) e os antiácidos (48%). Entre os menos consumidos estão os homeopáticos (7%), os controlados (5%) e os remédios para emagrecer (5%).

Veja

Atenção para o uso racional, seguro e responsável de medicamentos

Em alusão a data que marca o Uso Racional, Seguro e Responsável de medicamentos, lembrada no dia 5 de maio, o Ministério da Saúde reuniu o Comitê Nacional para a Promoção do Uso Racional de Medicamentos (CNPURM) para discutir a agenda de 2017 e a organização do VI Congresso Brasileiro sobre o Uso Racional de Medicamentos e I Congresso Pan-Americano sobre Uso Racional de Medicamentos


As discussões em torno do tema ainda reforçam a importância de utilizar os medicamentos corretamente, fazer o descarte adequado, e estar atento aos riscos de intoxicação.

Geisa Farani, Consultora Técnica do Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos (DAF), do Ministério da Saúde, explica que esta agenda não envolve apenas os profissionais de saúde. “A gente tem que entender que todos nós somos responsáveis, não só o profissional como o próprio cidadão. Através das recomendações e ações é possível fortalecer as equipes e mostrar à população a importância que ela tem”.

Além disso, a farmacêutica Célia Chaves, integrante do Comitê como representante da Federação Nacional de Farmacêuticos, reforça que o Uso Racional de Medicamentos já vem sendo discutido mundialmente há muito tempo. “É uma questão que aflige a todos, as populações mais ricas e as mais pobres, tanto pela medicalização exagerada quanto pela falta de medicamento”.

Se o tratamento não for feito da maneira adequada, como foi prescrito, pode haver consequências para a população. É isso que explica Cleonice Gama, coordenadora do Programa Farmácia Popular do Brasil, do Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos (DAF), do Ministério da Saúde. “Os medicamentos servem para auxiliar na melhora da saúde da população. É muito importante usar esses medicamentos adequadamente porque eles podem ter um efeito colateral indesejado, e podem causar intoxicações ou um sub efeito, onde você só mascara os sintomas”.

Outro ponto importante é que usar de maneira irracional não é apenas utilizar em excesso. Todo o processo que envolve o uso do medicamento deve ser feito com cuidado, desde os profissionais que prescrevem nas Unidades de Saúde até o cidadão que vai fazer o uso em casa. “No SUS, por exemplo, nós temos a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, e as prescrições devem seguir Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas. explica Cleonice.

Após a prescrição, no momento que o medicamento chega ao usuário, é importante tomar a quantidade certa, na hora certa, pelo tempo que foi determinado. Não é indicado suspender o tratamento antecipadamente, principalmente nos casos de antibióticos, quando pode ocorrer o surgimento de resistência bacteriana, e consequente desenvolvimento de superbactérias, dificultando encontrar o tratamento adequado dentro das opções terapêuticas disponíveis para aquela doença.

Outro aspecto que a população também deve levar em conta é o controle na hora de armazenar os medicamentos: eles devem estar no local adequado, em condições ideais de temperatura. Aqueles que são termos- sensível devem ficar na geladeira, e o que não é termo-sensível deve estar a uma temperatura ambiente adequada. Também é necessário observar se houve a degradação dos medicamentos, como alteração de cor, formato, aparência, e sabor.

Após utilizar a quantidade prescrita de medicamento, caso haja sobras, elas devem ser descartadas em local correto, não devendo ser jogadas no vaso sanitário ou pia da cozinha, pois isso vai gerar uma cadeia de contaminação no meio ambiente.

O Ministério da Saúde disponibiliza ainda para a população a Cartilha para a Promoção do Uso Racional de Medicamentos, que está disponível aqui.

Aline Czezacki, para o Blog da Saúde

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Como médicos são assediados pela indústria farmacêutica para prescrever medicamentos

Laboratórios utilizam dados sigilosos das receitas para pressionar profissionais, que recebem brindes, amostras grátis e até inscrições em congressos, em troca de prescrições

O paciente que sai do consultório com uma receita em mãos não faz ideia, mas os laboratórios farmacêuticos travam uma batalha nos bastidores para que o médico prescreva o medicamento da empresa que representam. Na linha de frente, um exército de propagandistas, profissionais contratados pela indústria para levar informações técnicas e científicas, explicando riscos e benefícios das substâncias. Na prática, nem sempre é isso que acontece.

Contrariando resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os propagandistas atuam como vendedores de medicamentos. Há casos de brindes, jantares, viagens e até inscrições em congressos oferecidos por laboratórios em troca da prescrição de remédios – prática vedada pela Anvisa e pelo Código de Ética Médica. Nos últimos dois meses, ZH conversou com propagandistas, visitou farmácias, participou de curso de formação e verificou irregularidades.

Maria (nome fictício) tem mais de uma década de experiência na indústria farmacêutica – hoje trabalha em um dos maiores laboratórios do Brasil. Em março, em uma das conversas, havia acabado de negociar com uma médica da Capital a inscrição em um congresso de psiquiatria. Após consultar o gestor e verificar o potencial prescritivo, cerca de R$ 1,2 mil foram transferidos para a conta da médica, mediante recibo assinado e carimbado.

 – Isso vai ter de ser revertido. Ela sabe que vai ter de prescrever a minha marca – resumiu.

Com salário que pode chegar a R$ 7 mil, incluindo comissão, a propagandista visita 15 médicos por dia, em média, e precisa bater metas para atingir o teto da remuneração. Em março, sua cota individual era de mais de 2 mil unidades ou cerca de R$ 200 mil em produtos da sua linha de 10 medicamentos, como anticoncepcionais e antidepressivos. A meta do grupo era atingir R$ 1,5 milhão. Como estratégia educativa, também leva amostras para residentes de hospitais.

Na palma da mão, Maria tem informações sobre o desempenho dos 300 médicos que visita mensalmente em Porto Alegre. Os balconistas de farmácia lançam em um sistema o registro do médico e o medicamento que prescreveu. Os dados são vendidos para laboratórios por empresas de auditoria.

Basta aplicar alguns filtros e em segundos a propagandista consegue saber quais são os profissionais que mais prescrevem os produtos do seu laboratório. Representantes da indústria negam que a ferramenta possibilite esse nível de detalhamento.

ZH teve acesso ao aplicativo e verificou que é possível saber quem mais receitou o medicamento. O programa exibe a taxa de fidelidade do médico, o que permite ao laboratório saber se o profissional está receitando produtos concorrentes.

Essas informações são cruciais para definir estratégias de abordagem. Na semana passada, ZH acompanhou uma manhã de trabalho da propagandista. Simpática, ela percorre com desenvoltura os consultórios de uma clínica no centro de Porto Alegre, carregando quatro sacolas e maletas recheadas de amostras grátis. As visitas são rápidas, em média cinco minutos. Enquanto aguarda, Maria recorre ao tablet para consultar os dados do profissional. –

Olha, esse aqui está respondendo bem – comenta, apontando para o número de prescrições.

Sobre a mesa do médico, há dezenas de caixas de remédios de outros laboratórios. Maria apresenta uma série de slides com as marcas fabricadas por sua empresa e destaca benefícios em relação aos concorrentes, como preço e quantidade de pílulas. Depois de entregar 18 caixas de amostras de vitaminas e anticoncepcionais, despede-se:

– Se puder estar lembrando (cita as marcas), te agradeço.

A reportagem também presenciou a entrega de antidepressivo de uma propagandista para outra, sem receita. A Anvisa proíbe essa prática. Resolução de 2009 determina que as amostras grátis de medicamentos somente podem ser distribuídas pelas empresas aos profissionais prescritores (médicos e dentistas). Também só podem ser distribuídas mediante aceitação documentada¿ dos profissionais.

Depois de uma hora na clínica, onde visitou quatro médicos e distribuiu 73 caixas de medicamentos, Maria deixa o local mais leve. Mas por pouco tempo. Logo após a pausa para o almoço, a peregrinação recomeça com as bolsas reabastecidas de remédios.

Laboratórios pagam comissão para vendedor de farmácia substituir a marca
As farmácias são outro front de batalha da indústria farmacêutica. Afinal, não basta o médico prescrever o remédio. É preciso que os balconistas vendam o que, de fato, consta na receita. Enquanto alguns laboratórios optam por investir na relação com os médicos, outros focam nos pontos de venda.

Esses fabricantes – geralmente de genéricos e similares – costumam oferecer bonificação para que os atendentes substituam o medicamento. O gerente de uma farmácia de rede no centro de Porto Alegre confirma a prática. Segundo ele, a comissão varia de 1% a 4% sobre o preço do produto. 

Apesar de os fabricantes negarem, a utilização dos dados como forma de pressionar médicos não é novidade. Em 2013, o Conselho Federal de Medicina (CFM) criticou e condenou a prática por violar fundamentos da Constituição, podendo configurar infração ao Código Penal brasileiro. Desde 2015, tramita na Câmara projeto de lei que configura como infração sanitária a violação do sigilo das prescrições e estabelece penas.

Entidades negam irregularidades
Entidades que representam laboratórios e redes de farmácias não veem irregularidade na coleta de dados do receituário médico. Presidente da Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Sérgio Mena Barreto diz que a captação de informações é algo comum no mundo inteiro e que a prática acaba beneficiando o consumidor. Segundo ele, não faz sentido saber o que determinado médico prescreveu e, sim, o comportamento de consumo em geral.

Nelson Mussolini, presidente do Sindicato das Indústrias Farmacêuticas do Estado de São Paulo (Sindusfarma), que representa 95% do mercado de medicamentos no Brasil, nega que os dados sejam utilizados para pressionar médicos. Conforme o dirigente, as pesquisas são muito genéricas e trazem dados globais, que auxiliam a indústria para saber qual a performance dos seus produtos:

– A gente olha o número de prescrições, mas não olha se foi médico A, B, C ou D. Sobre a atuação dos propagandistas, Mussolini reconhece que é proibido oferecer qualquer tipo de vantagem em troca de prescrição. No entanto, admite que existem alguns patrocínios em congressos médicos, mas isso é muito claro e voltado para transferência de conhecimento. Algumas entidades, como a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), têm código de conduta que baliza a relação com os profissionais de saúde. De acordo com Pedro Bernardo, diretor da Interfarma, o regulamento proíbe que seja oferecida qualquer vantagem que possa influenciar a conduta do médico na hora de prescrever – o que inclui pequenos brindes: – O médico tem de ter total liberdade para fazer sua prescrição.

O que diz o Conselho Regional de Medicina do RS (CREMERS)
O presidente Fernando Matos ressalta que o Código de Ética Médica e as resoluções do Conselho Federal de Medicina proíbem que profissionais recebam brinde ou vantagem dos laboratórios em troca de prescrições. Se houver denúncia, o Cremers pode abrir sindicância. Sobre a captação de dados das receitas pelas farmácias, diz que, antigamente, era usado para fazer propaganda de forma mais agressiva, mas que, hoje, caiu em desuso, pois os médicos prescrevem ¿muito mais a substância e não a marca.

O que diz o Conselho Regional de Farmácia do RS (CRF-RS)
Sobre a captação de dados das receitas e bonificação paga pelos laboratórios, o presidente Maurício Schüler Nin afirma que podem ¿levar a um claro risco de prejudicar os esforços para o uso racional de medicamentos e promover certa pressão sobre o prescritor, fazendo com que o sistema de aplicação de benefícios a prescritores por parte de laboratórios traga prejuízos, inclusive ao consumidor. No entanto, ele destaca que não há impedimento legal claro normatizado pela Anvisa.

Gestante: proteja-se contra a influenza (gripe)

FACEBOOK GESTANTEDurante a gestação, algumas alterações naturais no organismo podem favorecer a queda da imunidade da gestante. Com o corpo mais sensível, o cenário se torna favorável para a ocorrência de infecções é nesse momento, que o vírus da influenza pode achar lugar e as consequências podem ser graves, infelizmente

“ Há maior risco de evolução desfavorável, no caso da influenza e com frequência, a doença pode se apresentar na forma de insuficiência respiratória grave”, explica o presidente da Comissão Nacional de Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) e médico, Julio César Teixeira.

Apesar da possibilidade de contrair o vírus da influenza com a mudança da estação, as gestantes podem ficar tranquilas já que está disponível até 26 de maio a vacina da gripe para as grávidas no Sistema Único de Saúde. A vacinação contra influenza é realizada em dose única e tem validade por um ano.

O Ministério da Saúde e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) recomendam a vacinação contra a influenza para todas as gestantes e puérperas (até 45 dias após o parto) na campanha de vacinação. A vacinação das gestantes é considerada prioritária pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pois beneficia a mãe e o bebê, particularmente, os menores de seis meses de idade, que não podem receber a vacina. É importante destacar que a vacina influenza é segura e não contem substâncias que possam causar danos para o bebê na barriga da mãe.

A coordenadora do Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde, Carla Domingues, chama a atenção para que a população não se vacine em cima da hora. “Muitas vezes, as pessoas só buscam a vacina quando há registro de um número elevado de casos. Por isso, é importante que todos os grupos definidos busquem esta proteção dentro do prazo preconizado pelo Ministério da Saúde. É preciso que todos estejam devidamente protegidos antes do inverno chegar, já que a vacina precisa de 15 dias para garantir a proteção”, observou Carla Domingues.

Entenda a doença
A gripe é uma infecção aguda que afeta o sistema respiratório causada pelo vírus da influenza. A transmissão ocorre por meio de secreções das vias respiratórias da pessoa contaminada ao falar, tossir, espirrar ou pelas mãos. Se você entrar em contato com superfícies recém‐contaminadas e levar o agente infeccioso direto a boca, olhos e nariz, estará correndo o risco de pegar a doença. Por essa razão, o presidente da FEBRASGO deixa um alerta: qualquer gestante que comece a sentir que está gripada, com dificuldades para respirar, deve procurar atendimento médico assim que possível.

A preparadora física Luana Nogueira, de 34 anos, irá se vacinar pela primeira vez esse ano já que está gestante. “É importante tomar a vacina já que quem está grávida acaba ficando com a saúde um pouco mais sensível. Também é importante para me proteger e a minha filha. Já ela nasce e vamos ficar no hospital que é um lugar onde pode acontecer uma transmissão”, explica Luana.

De fato, a transmissão da influenza pode acontecer em locais fechados ou semi- fechados, em ambiente domiciliar, creches e escolas. A transmissão também pode acontecer em aviões, navios e outros meios de transporte coletivo, onde são frequentemente registrados surtos de influenza acometendo passageiros e tripulantes. A preocupação da Luana em relação a sua proteção procede e o presidente da FEBRASCO aconselha que gestantes evitem aglomerações, quando for possível, no período de outono e inverno e mantenham uma rotina saudável de vida, sem excessos e busquem frequentar as consultas de pré-natal regularmente.

Público-alvo da campanha de vacinação contra a influenza em 2017
Nesta campanha, além de indivíduos com 60 anos ou mais de idade, serão vacinadas as crianças na faixa etária de 6 meses a menores de 5 anos de idade (4 anos, 11 meses e 29 dias), as gestantes, as puérperas (até 45 dias após o parto), os trabalhadores da saúde, os povos indígenas, os grupos portadores de doenças crônicas não transmissíveis e outras condições clínicas especiais, os adolescentes e jovens de 12 a 21 anos de idade sob medidas socioeducativas, a população privada de liberdade e os funcionários do sistema prisional.

O público alvo representará aproximadamente 54 milhões de pessoas. Para garantir a vacinação desta população, o Ministério da Saúde adquiriu 60 milhões de doses da vacina influenza.

Gabi Kopko, para o Blog da Saúde

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Tese relaciona dependência afetiva a vícios em drogas e jogos

De acordo com especialista, o distúrbio está diretamente associado a um outro sério problema psíquico: o transtorno borderline

Paloma Oliveto

Algumas pessoas são dependentes de álcool e drogas. Outras, de jogo. Há, também, aquelas cujo vício são os relacionamentos. Tachadas, muitas vezes, de destrutivas, mimadas, manipuladoras e carentes, elas sofrem tanto quanto as que não conseguem viver sem bebida, cocaína ou baralhos. Contudo, geralmente, são incompreendidas. Ao observar a forma em que os adictos emocionais são tratados mesmo entre profissionais da saúde mental, o psicólogo e psicanalista Marcelo Soares Cruz resolveu investigá-los mais a fundo. Da prática clínica surgiu uma ideia que acabou se transformando em tese de doutorado, defendida no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). De acordo com o especialista, o distúrbio está diretamente associado a um outro sério problema psíquico: o transtorno borderline.

“Estou envolvido com o tratamento dessas pessoas desde o início da graduação. Soava injusto para mim o sofrimento dos pacientes, o olhar voltado a eles, de muita destrutividade. Daí surgiu a vontade de entender por que eles ficavam assim”, explica o psicanalista. “O principal que tento propor é que o paciente borderline padece de uma condição de adição do outro, da mesma forma como existe a dependência de uma droga. É como se ele tivesse um desespero pelo outro”, explica. Segundo Cruz, o objeto do vício pode ser o parceiro, a mãe, o pai, um amigo ou mesmo um desconhecido. E essa fixação nada tem a ver com amor ou desejo sexual. Trata-se, na verdade, da tentativa de preencher um vazio. “O outro é visto como uma tábua de salvação.”

De acordo com o psicanalista, várias teorias tentam explicar essa situação. Do ponto de vista da psicanálise, a raiz do problema está nos primeiros anos de vida, principalmente na fase em que o bebê é completamente dependente dos pais. Em situações de abandono ou indisponibilidade do cuidador, a criança precisa antecipar um processo para o qual não está preparada, o da independência. Daí surge o trauma. “O que sobra é uma angústia de perda. Como se o outro sempre fosse desaparecer. Como se meu eu estivesse ameaçado pela ausência. É uma questão de sobrevivência”, observa Cruz.

Às vezes, perdas posteriores podem desencadear a mesma reação, explica a psicanalista Lygia Vampré Humberg, autora do livro Relacionamentos Adictivos: vício e dependência do outro. “Essas falhas podem acontecer mesmo em uma fase mais madura, como em idosos que trabalhavam e se aposentam e também que perdem muitas pessoas ao longo da vida”, exemplifica.

Ao ter contato com inúmeros casos de pacientes adictos em relacionamentos e com transtorno borderline, Marcelo Soares Cruz percebeu que as coincidências entre um e outro distúrbio não eram poucas. Pessoas fronteiriças (borderline) são aquelas que estão sempre às voltas com o sentimento de solidão, têm medo de abandono, sentem irritabilidade/raiva/desespero/pânico, sofrem de alterações de humor ao longo do dia, são impulsivas (consumo exagerado de álcool/drogas, envolvimento com jogo de azar, gasto incontrolado de dinheiro) e têm autoestima em baixa. Nos adictos, destacam-se, principalmente, as intensas relações de dependência do outro e a sensação perene de vazio existencial (leia depoimento).  

Para ele, o principal achado da tese é apontar que existe esperança para esses pacientes. “São pessoas que criam contatos turbulentos, agridem, causam situações constrangedoras e, por isso, parecem fadadas à solidão, porque fazem exigências descabidas dos outros, exigem uma correspondência que nem sempre existe. Elas vivem numa montanha-russa emocional, onde idealizam o outro ou o demonizam”, reconhece. “Muitas portas são batidas na cara delas, mas é importante que elas saibam que podem ser cuidadas, o tratamento pode salvar a vida dessas pessoas”, diz.

Terapia
Como não se trata de uma patologia psiquiátrica, como é a doença bipolar, que tem causa biológica, o borderline não é tratado com medicação, mas com terapia. “Oferecer uma psicoterapia, fornecer uma experiência de constância preenche esse vazio”, diz o psicanalista. Ele ressalta, porém, que não há a substituição de uma adicção por outra. “O processo psicanalítico não escraviza ninguém. Para haver a mudança, talvez seja necessário viver um período transitório de dependência (do tratamento) para que a pessoa se liberte”, diz.

A psicanalista Cristiane M. Maluf Martin, que é palestrante de comportamento humano, dependência química e codependência, afirma que, às vezes, a intervenção psiquiátrica pode ser importante para conter a ansiedade associada. “Dependendo do grau, a medicação pode ser necessária com a psicoterapia. Até porque, muitos pacientes borderline podem tentar o suicídio”, adverte.

A psicanalista Lygia Vampré Humberg conta que, em muitos casos, os dois lados de uma relação podem ser considerados adictos. “Quando isso acontece em um casal, o problema é dos dois. Um alimenta a necessidade do outro, um só consegue estar forte porque o outro está fraco”, diz.

De acordo com ela, as pessoas que têm relacionamentos adictivos se queixam de ser maltratadas, mas não conseguem largar o parceiro. “De maneira inconsciente, essa pessoa fez a escolha certa porque, para ela, o certo é aquilo.

O jeito certo de tratar esses relacionamentos é tratar os dois”, destaca. No caso de violência doméstica, Humberg ressalta que, se a mulher não fizer um tratamento, vai acabar encontrando outra pessoa igual à abusadora. “É o famoso dedo podre”, concorda Martin. “Essas pessoas tendem a repetir relacionamentos. Mesmo quando conscientizadas disso, não conseguem parar”, afirma.

Depoimento
"Fui mais fundo que o fundo do poço".A dependência afetiva existe e é a mesma coisa que se você estivesse usando uma droga. Você pode matar, roubar ou se prostituir por causa de outra pessoa. A minha começou quando eu era criança. Meu pai era alcoólatra, e minha mãe, desequilibrada. Eles brigavam muito. Era uma confusão sem fim, e eu e minha irmã mais velha viramos os bodes expiatórios. Sofremos muita violência física e mental. Tortura mesmo.

Piorou na nossa adolescência. Minha mãe ainda era jovem e bonita e não soube lidar com as filhas mais jovens e também bonitas. Ela começou a surtar. Mordia a gente no rosto, me chamava de infeliz e vagabunda. Eu tinha só 12 anos. Eu me casei aos 18. Ele era um psicopata sádico e agressivo. Foi muito traumatizante e fiquei com bastante dificuldade de me relacionar.

Relacionamento, para mim, passou a ser igual a trocar de roupa. Não vivia sem alguém ao meu lado, mesmo que fosse para brigar. Ao mesmo tempo, me sentia como a rosquinha da padaria: com aquele buraco no meio. Mas aquilo me dava satisfação, nem que fosse para eu sofrer ou fazer o outro sofrer. Você sabe que aquilo é uma porcaria, mas você quer aquela droga. Depois, quando passa o prazer, fica pior, se sente uma porcaria. Mas logo depois, arruma outro. Eu me relacionei até com bandido, com assassino.

Fiquei muito violenta. Passei a ser barraqueira, quebrar os lugares, fazer escândalo, quebrar carro. Andava com uma navalha na bolsa. Depois, vinha o arrependimento. Realmente, parece muito com o transtorno borderline. Era muito brincalhona, ótima companhia. Só que, quando explodia, explodia. Nunca tive diagnóstico nem tratamento.

Um dia, fui a São Paulo e passei muito mal. Tive angina, começaram a aparecer doenças. O médico falou que eu tinha de escolher entre viver e morrer. Ninguém mais acreditava em mim, não tinha mais crédito. Então, comecei a lutar por mim, eu lutava para que as pessoas acreditassem em mim. No meu processo de recuperação sofri muito. Tinha dia de sentir dor física. Tive de fazer uma construção da minha personalidade. Foram dois anos me recuperando. Hoje, trabalho como life coach com outras pessoas que têm dependência emocional.”

Vazio interior ou vazio existencial
Maraci Mendes de Sant'Ana - é psicóloga e coordenou grupos de indivíduos adictos em relacionamentos

Quando se fala na inter-relação dos sintomas da síndrome de borderline e dos relacionamentos adictivos, logo se destaca o chamado vazio interior ou vazio existencial. Mas esse vazio aparece em quase todos os demais distúrbios psiquiátricos, senão em todos. E me arrisco a dizer que não se trata de um sintoma, trata-se de uma característica humana. Um sintoma é indício de que alguma coisa não vai bem. Uma característica é algo próprio de alguém ou grupo.

Talvez o vazio interior seja a causa, ou, melhor dizendo, talvez a causa desses distúrbios seja a nossa incapacidade, maior ou menor, de lidar com esse vazio, o que faz com que nos lancemos na missão de preenchê-lo muitas vezes com uma urgência que embota o raciocínio, cega, destrói, enlouquece, mata. Quem foi que disse que vazio existencial precisa ser preenchido? Se é uma característica humana, talvez o melhor seja aceitar e buscar entender o que ele quer nos dizer sem alvoroço, sem trazê-lo para o centro da nossa vida, sem jogar sobre ele todos os holofotes. Porque, se isso fazemos, perdemos a noção de conjunto e esquecemos o que realmente merece ser destacado — o que já nos preenche.

Acho que o pulo do gato está nesta música de Almir Sater: “Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais. Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe? Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou nada sei... Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente. Como um velho boiadeiro levando a boiada, eu vou tocando os dias, pela longa estrada eu vou. Estrada eu sou.”. Talvez o lance seja sermos a nossa própria estrada.