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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Profissionais de saúde costumam trabalhar doentes

Foto Ilustrativa
Mais de 40% do pessoal das equipes de saúde com doença de influenza trabalha enquanto está doente, de acordo com um estudo publicado na American Journal of Infection Control

Pesquisadores dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA usaram dados de um pesquisa nacional na Internet de 1.914 pessoas das equipes de saúde durante a temporada de gripe de 2014-2015 para calcular a frequência de trabalho com auto-relatado de sintomas relativos à influenza (por exemplo, febre e tosse ou dor de garganta).

Os pesquisadores descobriram que 21,6% dos indivíduos das equipes de saúde relataram quadros de influenza, e 41,4% destes relataram trabalhar com estes quadros (mediana, três dias, intervalo, zero a 30 dias). As maiores frequências de trabalho com influenza ocorreram entre farmacêuticos (67,2%) e médicos (63,2%). Por configuração de trabalho, as equipes de pessoal de saúde hospitalar tiveram a maior frequência de trabalho com influenza (49,3%).

Ser ainda capaz de desempenhar tarefas e não se sentir mal o suficiente para perder o trabalho foram as razões mais comuns dadas para trabalhar enquanto estavam doentes, enquanto em instalações de cuidados prolongados, a razão mais comum era a incapacidade de perder o valor do dia trabalhado.

Terra

ANS lança Manual de Diretrizes para o Enfrentamento da Obesidade

obesoA obesidade é uma doença crônica cujo avanço tem se dado de forma acelerada em todo o mundo nos últimos anos. No Brasil, a situação não é diferente

De acordo com dados da pesquisa Vigitel Brasil 2016 da Saúde Suplementar, mais de 50% da população adulta está acima do peso, na faixa de excesso de peso e obesidade. Com o intuito de analisar a questão sob o ponto de vista das possibilidades de ação no setor da saúde privada, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) elaborou o “Manual de Diretrizes para o Enfrentamento da Obesidade na Saúde Suplementar Brasileira”.

O estudo foi lançado lançado na quinta-feira (14/12) durante o “Seminário de Enfrentamento da Obesidade e Excesso de Peso na Saúde Suplementar”, no Rio de Janeiro, para 100 representantes de entidades de saúde, operadoras e prestadores de serviços. É fruto do trabalho do Grupo Multidisciplinar para Enfrentamento da Obesidade, criado pela ANS com o objetivo de promover melhorias e incentivos na atenção à saúde relacionada à prevenção e ao combate da obesidade entre beneficiários de planos de saúde.

“A ANS entende a discussão do tema como urgente e necessária à sustentabilidade da saúde suplementar, uma vez que o excesso de peso e a obesidade constituem o segundo fator de risco mais importante para a carga global de doenças, e estão associados a várias doenças crônicas não transmissíveis, como doenças cardiovasculares, diabetes, cirrose, câncer de cólon, de reto e de mama, entre outras. O objetivo do Manual é compor uma orientação criteriosa, na qual as operadoras de planos de saúde possam se basear para a melhoria da qualidade de vida de seus beneficiários. Daqui em diante nós teremos uma série de encontros com as operadoras para que se possa definir em conjunto como será feita a adesão à proposta junto à rede de prestadores”, explica Karla Coelho, diretora de Normas e Habilitação dos Produtos da ANS.

No âmbito de suas competências, a ANS tem buscado, ao longo dos anos, estimular as operadoras a repensarem a organização das suas redes de atenção, no intuito de rediscutir as formas usuais de organização dos serviços de saúde, tendo por objetivo: o monitoramento dos fatores de risco, o gerenciamento de doenças crônicas, a compressão da morbidade e diminuição dos anos de vida perdidos por incapacidades. O enfrentamento da obesidade, enquanto resultado de uma complexa combinação de fatores biológicos, comportamentais, socioculturais, ambientais e econômicos, representa um grande desafio para o setor.

“Sabe-se que a obesidade é uma doença multifatorial, recidivante e muitas vezes silenciosa, e se não prevenida e cuidada corretamente, tem um impacto devastador na vida do indivíduo, bem como na economia do país. Sua prevenção e tratamento requer uma abordagem multiprofissional e transdisciplinar, envolvendo diversos setores da sociedade”, afirma a gerente de Monitoramento Assistencial da ANS, Katia Audi.

Segundo dados da pesquisa Vigitel Brasil 2016 da Saúde Suplementar, a proporção de beneficiários adultos de planos de saúde com excesso de peso vem aumentando desde 2008, quando foi realizado o primeiro levantamento, passando de 46,5% para 53,7%. O mesmo ocorre com a proporção de obesos, que aumentou de 12,5% para 17,7%. É importante ressaltar que, no Brasil, apenas 10% dos pacientes com obesidade são diagnosticados, e porcentagem inferior a 2% dos mesmos recebem tratamento para obesidade.


Abordagem na infância e adolescência
Segundo dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), quatro em cada cinco crianças obesas permanecerão obesas quando adultas. Os períodos mais críticos para o desenvolvimento da obesidade são: fase intrauterina, os primeiros dois anos de vida e a adolescência.

Os fatores de risco para desenvolvimento de obesidade na infância são: prematuridade, bebês pequenos para idade gestacional (PIG), bebês grandes para idade gestacional (GIG), filhos de mães diabéticas, pais obesos, interrupção precoce do aleitamento materno e introdução inadequada da alimentação complementar, com oferta de alimentos ricos em gorduras e açúcares e o uso de leite de vaca antes de um ano de idade.

Além dos determinantes biológicos, o Manual reforça que a forte influência do ambiente no desenvolvimento da obesidade infantil também deve ser considerada, e medidas que incidam no ambiente alimentar devem ser desenvolvidas e apoiadas. O estudo também destaca que os profissionais de saúde, em especial o pediatra, devem estar atentos aos fatores de risco e monitorar o crescimento e desenvolvimento destas crianças, orientando os pais quanto a alimentação saudável, controle do tempo de tela a que crianças e adolescentes estão submetidos e prática de atividade física. 

“A obesidade é atualmente a doença pediátrica mais comum. A prevenção é a única maneira de deter o avanço desta epidemia e todos os setores da sociedade - escolas, governo, sociedades científicas, indústrias alimentícias e mídia - devem se envolver com este propósito”, lembra a diretora Karla Coelho.

Estratégias para a prevenção da obesidade infanto-juvenil:
  • Desenvolvimento de ações educativas de promoção da alimentação saudável desde o pré-natal; Promoção do aleitamento materno;
  • Introdução adequada de alimentação complementar, de acordo com as recomendações técnicas; Estímulo ao conhecimento sobre a importância da atividade física e práticas corporais no desenvolvimento da criança e do adolescente;
  • Promoção de atividades físicas lúdicas e recreativas;
  • Observação do comportamento sedentário;
  • Promoção adequada de horas de sono;
  • Controle do tempo de tela a que crianças e adolescentes estão submetidos (TV, tablet, celular e jogos eletrônicos);
  • Identificação dos pacientes de risco.
Abordagem em adultos
O Manual recomenda que o cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC) seja realizado para todos os pacientes com menos de 60 anos que procuram a rede prestadora de serviços ambulatorial e hospitalar. A captação deste dado de saúde irá permitir o direcionamento para estratégias de prevenção e tratamento precoce, reduzindo a morbimortalidade do indivíduo e custos no sistema de saúde. As condutas a serem adotadas com os pacientes após a estratificação realizada com base no cálculo do IMC podem ser resumidas em duas abordagens a serem trabalhadas: adoção de hábitos de vida saudáveis, com base na alimentação adequada, e prática de atividade física; e tratamento clínico da obesidade, podendo incluir a adoção de medicamentos e, em casos específicos, a realização de cirurgia bariátrica.

Recomendações para a adoção de hábitos de vida saudáveis:
  • Manter uma alimentação saudável, baseada nos dez passos para uma alimentação adequada, sistematizados pelo Guia Alimentar da População Brasileira (Ministério da Saúde, 2014);
  • Fazer de alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação;
  • Evitar o consumo de alimentos ultraprocessados - salsichas, linguiças, salames e presuntos, entre outros - e de alimentos preparados em frituras de imersão (batata frita, salgados);
  • Utilizar óleos, gorduras, sal e açúcar em pequenas quantidades ao temperar e cozinhar alimentos e evitar caldos industrializados;
  • Reduzir a ingestão de açúcar, gordura saturada e sal;
  • Aumentar o consumo de frutas, verduras e legumes;
  • Aumentar a prática de atividades físicas.
Abordagem clínica da obesidade
O Manual preconiza como abordagem clínica do tratamento da obesidade a adoção de estilo de vida com hábitos saudáveis em conjunto com a adoção de medicamentos, quando necessário; e, nos casos de perda de peso insuficiente e de pouca melhoria no quadro das comorbidades, a realização do tratamento cirúrgico.

O objetivo do tratamento com medicamentos é a perda de 10% do peso corporal, o que determina melhora das complicações da obesidade, como diabetes e hipertensão arterial. Atualmente, quatro medicamentos são registrados para o tratamento da obesidade pela Agência de Vigilância Sanitária - Anvisa, e são utilizados de acordo com diretrizes clínicas específicas.

Tratamento cirúrgico
A cirurgia bariátrica é indicada para pacientes obesos que não apresentaram resposta ao tratamento clínico com medicamentos e mudanças de estilo de vida. A realização da cirurgia determina perda de peso de 20% a 35% do peso inicial após dois ou três anos do procedimento, o que está associado a melhora de complicações da obesidade, como diabetes tipo 2 e câncer, além de aumentar o tempo e a qualidade de vida dos pacientes.

A recomendação de cirurgia bariátrica na saúde suplementar deve seguir a diretriz de utilização, conforme estabelecido no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da ANS, que prevê a cobertura obrigatória por planos de segmentação hospitalar (com ou sem obstetrícia) e por planos-referência. As diretrizes de utilização adotadas pela ANS indicam as características e as condições de saúde nas quais os ganhos e os resultados clínicos decorrentes da cirurgia são, de fato, relevantes para os pacientes, segundo a literatura científica e os conceitos de Avaliação de Tecnologias em Saúde.

O Manual detalha os critérios para a indicação da cirurgia e a recomendação de procedimentos pré e pós-operatórios, bem como as contraindicações. “Apresentamos os aspectos fundamentais na abordagem da equipe multidisciplinar de cirurgia bariátrica, como a importância do acompanhamento médico e nutricional pelo resto da vida e a implementação de mudanças de estilo de vida que incluam a prática de atividade física e dieta equilibrada. Os pacientes que serão submetidos ao procedimento devem receber informações realistas quanto às necessidades no pós-operatório, uma vez que a cirurgia não é a cura para a obesidade, mas um tratamento que ajuda no seu controle”, explica a diretora Karla Coelho.

Sobre o Grupo Multidisciplinar para Enfrentamento da Obesidade
Composto por pesquisadores, técnicos da ANS e representantes de entidades da área da saúde, o Grupo realizou diversas reuniões ao longo de 2017 no esforço conjunto de sistematizar diretrizes pautadas em estudos científicos, publicados no Brasil e no exterior, que apontem para a integração entre procedimentos de prevenção e cuidado da obesidade.

Participam do Grupo:
  • Organização Pan-americana de Saúde – OPAS
  • Ministério da Saúde
  • Instituto Nacional do Câncer – INCA
  • Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
  • Sociedade Brasileira de Pediatria – SBP
  • Conselho Federal de Nutrição – CFN
  • Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul
  • SESI
  • Site Panelinha Serviço Social do Comércio - SESC
  • Serviço Social do Comércio de São Paulo – SESC SP
  • Conselho Federal de Educação Física – CONFEF
  • Endocrinology and Sports Medicine
  • Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia - Febrasgo
  • Conselho Federal de Odontologia – CFO
  • Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica
  • Associação Brasileira de Stress
  • Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.
Fonte: ANS

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Cidades querem restringir visitas de representantes farmacêuticos a unidades de saúde

Governos locais tentam limitar acesso da indústria farmacêutica a médicos da rede pública – e a indústria reage. Um médico conta por que essa relação merece atenção

Havia pouco mais de um ano que o recifense Rodrigo Lima terminara o curso de medicina. Atendia na pequena Gravatá, a 80 quilômetros do Recife, e adotara a prática de distribuir receitas de um medicamento. Era uma droga contra tosse – um incômodo, mas que pode denunciar um problema a ser tratado ou ajudar a expelir secreções de que o corpo precisa se livrar. Em muitos casos, o ideal é deixá-la seguir seu curso. Mas vários pacientes de Lima não contavam com essa opção.

Ele ganhara amostras do medicamento de um representante de vendas de uma empresa que acabara de lançar a droga. Como eram gratuitas, achou por bem distribuí-las. Depois que as amostras acabaram, passou a receitar. “Os pacientes gostaram e, meio no modo automático, passei a receitar para gente que, talvez, nem precisasse”, diz. Lima era médico de uma unidade pública de saúde. Os pacientes, muitos deles pobres, tinham de comprar a droga, mais cara que outras semelhantes. Ela não fazia parte das medicações disponíveis na rede pública.

Em 2003, Lima era recém-formado. Tinha pouco tempo na carreira, mas suficiente para que propagandistas da indústria farmacêutica, como aquele que o apresentou ao medicamento contra a tosse, fossem seus velhos conhecidos. Desde os tempos da faculdade, no Recife, ele os encontrava dentro dos hospitais onde fazia estágio. Em uma das instituições, filantrópica, cada ambulatório tinha um armário carregado de amostras grátis. Os médicos se sentiam bem de poder dar aos pacientes com menos recursos alguns medicamentos. As amostras não ficavam só nos hospitais. Os profissionais, em treinamento ou já formados, também ganhavam. O então estudante Lima levava para casa sacolas carregadas.

“Os parentes me ligavam para pedir remédio, e eu, ainda na faculdade, me sentia importante.” Estudantes de medicina não podem prescrever medicações, mas as informações dadas pelos representantes ajudavam Lima a saber como indicar. “É com essas informações que os médicos jovens formam seu arsenal terapêutico e se habituam com as marcas que passarão a usar”, diz. Havia também os eventos, promovidos por empresas farmacêuticas em churrascarias badaladas do Recife. “Como estudante, ia feliz da vida com a boca-livre.”

Havia primeiro uma apresentação das novidades: lançamentos, estudos para reforçar ou ampliar a indicação de drogas. Depois, o jantar. Farto. Hoje, Lima, de 39 anos, atende como médico de família em uma unidade pública de saúde nos arredores de Brasília. Ainda observa a relação estreita entre médicos e representantes da indústria farmacêutica. Mas sabe que, ao menos, no Distrito Federal esse relacionamento anda complicado. Uma lei que entrou em vigor em junho proíbe a presença de propagandistas em unidades públicas de saúde no horário de atendimento ao público. “A lei nos marginalizou”, afirma o propagandista Caio Santos, de 48 anos.

PARA TOMAR CONTA DOS MÉDICOS Iniciativas, no Brasil e no mundo, para blindar os profissionais de saúde da influência da propaganda (Foto: Revista ÉPOCA)

Há 22 anos, Santos visita hospitais da rede pública da região para convencer os profissionais de saúde de que os medicamentos da empresa que representa são melhores que os da concorrência. Um trabalho que exige conhecimento técnico e boa dose de habilidade social. Há seis meses, os crachás que autorizavam sua entrada em 16 hospitais públicos do Distrito Federal perderam a validade. Agora, Santos só consegue entrar em cinco deles, autorizado pela administração da instituição, mas precisa ser anunciado. Reclama de ter perdido o acesso direto aos médicos – assim como outros 450 propagandistas da indústria farmacêutica na região. “A mudança torna inviável levarmos as discussões científicas para os médicos”, diz. “O jeitinho brasileiro é chamar o médico para sair do hospital, marcar reunião no consultório particular.”

O autor da lei, o deputado distrital Juarezão (PSB), afirma que quis garantir o atendimento aos pacientes: “A própria comunidade pediu. O representante entra na sala e os pacientes ficam do lado de fora esperando. Atrapalha muito”. Juarezão pode ter mirado em agradar a sua base eleitoral. Ele já trabalhou na área de saúde em Brazlândia, uma região administrativa do Distrito Federal, cumprindo atividades de gestão em uma unidade pública de saúde. Mas, com a medida de apelo popular, entrou num debate nebuloso: como os médicos escolhem receitar um medicamento em vez de outro. Parece uma questão técnica, mas sofre influências variadas – até do grau de simpatia do médico pelo representante.

Os propagandistas ocupam papel central na estratégia de marketing da indústria farmacêutica. Conectam o setor aos médicos. Levam informações sobre os produtos da empresa a profissionais de saúde até as cidades mais afastadas de grandes centros, em uma conversa olho no olho, permeada pelas melhores táticas de venda e pela distribuição de amostras grátis, como as que Lima encontrava nos hospitais e distribuía para a família. Mas a relação se encontra sob forte escrutínio, principalmente de grupos acadêmicos. “A interação dos médicos com a indústria gera conflito de interesse”, diz Mário Scheffer, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “O objetivo principal, que é o melhor tratamento para o paciente, é alterado por um secundário, da indústria: ganhar dinheiro.”

A lei do Distrito Federal não é uma iniciativa isolada (leia no quadro abaixo). No Brasil, pelo menos outras três cidades tentaram implantar medidas semelhantes – não sem polêmica e resistência. Em Goiânia, em 2014, a então vereadora Cida Garcêz (SDD) colocou em pauta um Projeto de Lei que determinava que os representantes de empresas farmacêuticas deveriam marcar um horário para falar com o médico antes ou depois das consultas.

O projeto não foi aprovado. “Na época, o sindicato dos propagandistas de Goiás procurou os vereadores e o projeto foi barrado”, afirma Cida. Em Campinas, São Paulo, uma portaria da Secretaria Municipal de Saúde proíbe desde 2016, salvo “com a expressa autorização” do secretário, a visita de representantes em todas as unidades da rede municipal. Há tentativas de revertê-la. Um Projeto de Lei de 2015, para garantir o acesso dos propagandistas, foi aprovado em uma primeira votação – agora, aguarda a segunda. Não há previsão de quando isso deve ocorrer. Em Ribeirão Preto, São Paulo, até dezembro do ano passado, vigorou um decreto que proibiu a presença de representantes de laboratórios farmacêuticos e similares nas unidades de saúde do município.

Um projeto de decreto legislativo do vereador Luciano Mega (PDT) revogou o trecho sobre os propagandistas. Mega, médico pediatra, diz que a motivação surgiu a partir de conversas com os representantes que visitavam seu consultório. “Achei a proibição muito injusta. Trabalhei para revogá-la.” Em setembro, uma liminar obtida pelo prefeito derrubou o decreto a favor da presença de representantes. Em nota, a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) afirma que a proibição das visitas pode prejudicar o atendimento a pacientes: “Esse contato é realizado única e exclusivamente com o objetivo de promover a atualização científica do profissional de saúde”.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Adoçante: amigo ou inimigo?

adocantePara uma alimentação saudável é imprescindível que consumamos pouco açúcar. A partir daí, os adoçantes passam a ser uma opção, mas eles também não são inofensivos

Quando buscamos reduzir ou eliminar o consumo de açúcar, muitas vezes o adoçante é visto como substituto. Mas, eles também podem nos afastar de uma dieta saudável e não são a melhor opção para quem quer perder peso. O Guia Alimentar para a População Brasileira é claro: devemos sempre dar preferência ao consumo de alimentos na forma mais natural possível, com o doce próprio de cada um. 

Adoçantes podem ser naturais, artificiais ou sintéticos. Os naturais são obtidos sem nenhum tipo de reação química, veem das plantas, a exemplo da estévia, ou de origem animal. Os artificiais ou sintéticos surgem através de reações químicas naturais ou não. Os mais comuns são sacarina, aspartame e sucralose.

A jornalista Lurian Leles utiliza dois tipos de adoçante: o artificial, para forno e fogão (para culinária) e o natural para adoçar o cafezinho e os sucos. “Eu uso adoçante há mais ou menos um ano e meio, depois que passei a me preocupar mais com meu peso. Eu quis cortar carboidrato e o açúcar e fiz essa opção, não foi prescrição. Tive essa indicação de trocar, mas mesmo o nutricionista pede para não usarmos adoçantes em demasia”, ressalta.

Não recomendado!
A recomendação dada à Lurian é correta. O adoçante não é um salva-vidas para quem está retirando o açúcar da dieta e não pode ser visto como tal. A coordenadora de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde, Michele Lessa, explica: “o adoçante geralmente é usado nos casos confirmados de diabetes e seu uso deve ser indicado por médico ou nutricionista. Fora isso, ele não é recomendado”.

Michele Lessa diz ainda que pessoas que optam pelo adoçante precisam ao menos escolher aqueles de origem natural. E se a escolha for com o objetivo de emagrecer, este caminho não é seguro. “Não há comprovação de que o adoçante contribua para a perda de peso. O paladar se acostuma com o doce e a pessoa vai ter vontade de consumir mais coisas doces. O ideal é que a pessoa vá reduzindo aos poucos a quantidade de açúcar até perceber que os sabores naturais são mais gostosos sem adição de nenhum tipo de açúcares”, reforça.

O alerta é ainda mais importante para as crianças. A Sociedade Brasileira de Pediatria não recomenda adoçantes para este público, por não se saber os efeitos deles em longo prazo.

Produtos diet e light
Outra importante observação da coordenadora de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde é sobre os produtos diet e light. Quando lemos estas palavras em algum rótulo, costumamos nos animar com a impressão de que são extremamente saudáveis. Mas isso não quer dizer que são. “Estes produtos, na maioria das vezes, possuem adoçantes artificiais e não são alimentos naturais, e sim processados ou ultraprocessados. Por isso, o consumo deve ser moderado”, aconselha.

Lurian segue com a opção pelos adoçantes, mas eles ainda não são preferência em seu paladar. “Não é a mesma coisa do açúcar, o gosto deixa um pouco a desejar, mas sempre que posso eu substituo”.

Acesse receitas para se alimentar melhor, na publicação do Ministério da Saúde Alimentos Regionais Brasileiros

Baixe o Guia Alimentar para a População Brasileira.

Erika Braz, para o Blog da Saúde

Cientistas descobrem primeira droga capaz de tratar doença de Huntington

Condição hereditária traz danos irreversíveis ao cérebro, mas estudo mostra como ‘silenciar’ efeitos do gene mutante

Um estudo divulgado nesta segunda-feira é visto como uma promessa de revolução para o tratamento da doença de Huntington, que é genética e tem efeitos devastadores. A pesquisa indica que, pela primeira vez, uma droga experimental se mostrou capaz de retardar a progressão da doença. Até hoje, não existe nenhum tratamento para adiar os efeitos da enfermidade. As terapias atuais apenas ajudam a controlar os sintomas.

A doença de Huntington é uma condição hereditária em que as células nervosas do cérebro se rompem ao longo do tempo, causando danos irreversíveis. Na série americana “House”, os dilemas em torno da doença foram abordados após uma das médicas ser diagnosticada com a enfermidade.

O estudo foi conduzido no Centro de Doença de Huntington da University College London (UCL), na capital inglesa, e é aclamado pela comunidade acadêmica como “extremamente significativo”, por ser a primeira vez em que qualquer droga foi capaz de suprimir os efeitos da mutação de Huntington. 

— Os resultados foram além do que eu esperava — disse ao “Guardian” a diretora do Centro, professora Sarah Tabrizi, que liderou o ensaio clínico de fase 1. — Os resultados deste estudo são de extrema importância para pacientes com doença de Huntington e suas famílias.

A animação dos colegas de Sarah também se deve ao fato de que a droga é uma vertente sintética de DNA e, assim, poderia ser adaptada para “atacar” outros distúrbios cerebrais hoje incuráveis, como Alzheimer e Parkinson. A gigante farmacêutica suíça Roche chegou a pagar uma taxa de licença de US$ 45 milhões para levar o medicamento para o uso clínico.

O gene mutante de Huntington contém instruções para que as células produzam uma proteína tóxica, chamada huntingtina. Este código é copiado por uma molécula mensageira e despachado para as “máquinas de produção” de proteínas da célula.

Entenda como a droga funciona
A droga, chamada Ionis-HTTRx, funciona interceptando a molécula mensageira e destruindo-a antes que a proteína prejudicial possa ser feita, efetivamente silenciando os efeitos do gene mutante. Para que o medicamento chegue ao cérebro, ele deve ser injetado no líquido ao redor da coluna usando uma pequena agulha.

O ensaio envolveu 46 homens e mulheres com doença de Huntington em estágio inicial no Reino Unido, na Alemanha e no Canadá. Os pacientes receberam quatro injeções com um mês de intervalo, e a dose de medicamento aumentou em cada sessão. Cerca de 25% dos participantes receberam uma injeção de placebo — isto é, que não continha a droga —, para servirem como grupo de controle.

Depois de receber o medicamento, a concentração de proteína nociva no líquido da medula espinhal caiu significativamente e de forma proporcional à quantidade da dose. Esse tipo de associação normalmente indica que a droga tem efeito poderoso.

— Pela primeira vez, uma droga reduziu o nível da proteína que causa doenças tóxicas no sistema nervoso, e a droga se mostrou segura e bem tolerada — disse Sarah. — Este é provavelmente o momento mais significativo na história de Huntington desde que o gene foi isolado.

Sintomas começam entre 30 e 40 anos de idade
Quem tem a doença de Huntington vê, como primeiros sintomas — que normalmente aparecem entre os 30 e 40 anos de idade — mudanças de humor, raiva e depressão. Posteriormente, pacientes desenvolvem movimentos irregulares não controlados, demência e, finalmente, paralisia. Algumas pessoas morrem dentro de uma década após o diagnóstico.

— A maioria dos nossos pacientes sabe o que os aguarda no futuro — afirmou Ed Wild, cientista da UCL e neurologista consultor do Hospital Nacional de Neurologia e Neurocirurgia em Londres, que administrou a droga no ensaio clínico. No Brasil, estima-se que existam cerca de 150 mil pessoas com essa enfermidade.

Ensaios maiores serão realizados
O professor John Hardy, também neurocientista da UCL mas que não estava envolvido no estudo, mostrou-se positivamente surpreso em relação à nova droga: Se tivessem me perguntado cinco anos atrás se isso (a nova droga) poderia funcionar, eu teria dito que não. O fato de que ela funciona é realmente notável.

A partir de agora, é esperado que a farmacêutica Roche realize ensaios maiores para testar o nível de redução dos sintomas dos pacientes que receberem a droga. Se tal teste for bem-sucedido, Sarah Tabrizi acredita que o medicamento pode ser usado em pessoas que tenham o gene da Huntington antes mesme que elas adoeçam, que possivelmente interromperá por completo a existência de qualquer sintoma. Esses paciente podem só precisar de uma injeção a cada três ou quatro meses — aspira Sarah. — Um dia, queremos ser capazes de prevenir a doença.

O Globo