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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Mau colesterol oferece riscos à saúde mesmo a um adulto saudável

Estudo desenvolvido na Espanha conclui que o "mau colesterol", mesmo em taxas consideradas toleráveis, é isoladamente um fator determinante para a ocorrência de infarto ou derrame em pessoas na meia-idade 


Conhecida como “mau colesterol”, a lipoproteína de baixa intensidade (LDL-C) pode ser o motivo pelo qual muitas pessoas aparentemente saudáveis sofrem infarto ou derrame na meia-idade, mesmo não tendo outros fatores de risco cardiovascular, como tabagismo, hipertensão, obesidade, diabetes e dislipidemia (níveis elevados de lipídio no sangue). Depois de faixa etária (ter mais de 50 anos) e de sexo (ser homem), o LDL-C, mesmo em taxas consideradas normais, é o maior preditor da presença de placas ateroscleróticas nas artérias, segundo estudo do Centro Nacional de Investigações Cardiovasculares Carlos III (Cnic), da Espanha, publicado no Journal of the American College of Cardiology (JACC).

De acordo com os autores do trabalho, o resultado sugere a necessidade de estratégias mais agressivas para reduzir os níveis de mau colesterol voltadas, inclusive, aos indivíduos que teriam baixas chances de sofrer eventos cardiovasculares. “Por isso, precisamos definir novos marcadores de placas ateroscleróticas precoces nessas pessoas aparentemente saudáveis”, explica Leticia Fernández-Friera, principal autora do estudo. Ela destaca também que, de todos os fatores de risco associados a esses problemas, o LDL-C é, por sorte, o mais fácil de modificar, facilitando na prevenção de infarto e derrame.

O novo artigo é uma subanálise do estudo Progressão de Aterosclerose Precoce Subclínica (PESA), e avaliou 1.779 participantes que não apresentavam os fatores de risco clássicos. O principal objetivo foi definir quais elementos poderiam levar à formação de placas nas artérias dessa população. Para isso, os pesquisadores analisaram a associação de dados biométricos e padrões de estilo de vida à presença desses depósitos de gordura.

Usando tecnologia de imagem não invasiva (PET scan, ressonância magnética, tomografia computadorizada e ultrassom 2D e 3D), os cientistas conseguiram visualizar quando e como a aterosclerose começou a se instalar, e o que ocorreu para ela se manifestar clinicamente. Normalmente, a condição é detectada apenas em estágio avançado, depois de ter provocado eventos como infarto e derrame. Depois que esses problemas ocorrem, geralmente os pacientes sofrem com um declínio permanente da qualidade de vida, pois as opções de tratamento para as sequelas são ainda limitadas. Do ponto de vista da saúde pública, o impacto financeiro é imenso, observa o artigo.

“Graças ao ultrassom vascular, podemos visualizar diretamente a presença de placas de colesterol nas artérias carótidas, na aorta e nas artérias iliofemorais. Com a tomografia computadorizada, somos capazes de detectar calcificação nas artérias coronarianas. Então, com essas abordagens, pudemos avaliar o progresso da doença nos indivíduos”, conta Javier Sanz, coautor do estudo. Os exames demonstraram que as placas estavam presentes em 50% dos indivíduos entre 40 e 54 anos, não tabagistas e sem histórico de hipertensão, diabetes mellitus ou dislipidemia.

Os resultados também mostraram que, depois de sexo e idade, o preditor mais forte da formação de placas era o “mau colesterol”. “Mesmo em pessoas com taxas ideais de pressão sanguínea, açúcar no sangue e colesterol total, detectamos uma associação independente entre o nível de LDL-C circulante e a presença e a extensão de aterosclerose subclínica (sem sinais aparentes)”, diz Javier Sanz.

“Isso pode ajudar a melhorar a prevenção cardiovascular na população em geral, mesmo antes que apareçam os fatores de risco convencionais. A habilidade de identificar pacientes com a doença antes do aparecimento dos sintomas pode ajudar a evitar ou a reduzir as complicações associadas, o que se traduziria em um enorme benefício social e econômico”, completa Leticia Fernandez-Friera. Ela afirma, contudo, que só daqui a 15 ou 20 anos será possível avaliar o benefício da intervenção precoce. O projeto PESA é de longo prazo, e os participantes serão acompanhados ao longo de toda a vida.

Principal causa de morte em todo o mundo, as doenças cardiovasculares têm alta prevalência e, por isso, considera-se que as estratégias de prevenção devem ser prioridade para a saúde pública. No ano passado, as principais sociedades cardiológicas, inclusive a brasileira, reviram os parâmetros de colesterol (veja arte), tornando as diretrizes mais rígidas.

Multifatorial
“A aterosclerose é um iceberg. Conhecemos a ponta, mas não a base, ou seja, a causa genuína”, afirma o ex-presidente e atual conselheiro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) Lázaro Fernandes de Miranda, coordenador de Cardiologia do Hospital Santa Lúcia. De acordo com ele, o que se sabe é que inflamações crônicas favorecem o surgimento das placas e, de todos os fatores causadores desse processo inflamatório, o “mau colesterol” é considerado o principal. “Outros que estão sendo estudados são a elevação das proteínas PCR, IL1 beta e IL 6. Pesquisas muito recentes demonstraram que uma vez tratada a inflamação, reduziu-se ou inibiu-se a propensão à aterosclerose”, diz.

Inclusive, a substância canaquinumabe, um anticorpo monoclonal com indicação para o tratamento de artrite idiopática juvenil, demonstrou ter efeito secundário em estudo divulgado em agosto: a redução de padrões inflamatórios e, consequentemente, de eventos cardiovasculares. Ela age inibindo a produção IL 1 beta, aumentada em indivíduos que sofreram infarto e derrame.

Miranda destaca que, apesar da influência do LDL-C e das substâncias apontadas nas pesquisas mais recentes sobre o tema, a aterosclerose não é consequência de um único fator. “Existe um programa de estilo de vida do cardiologista norte-americano Dean Ornish que inclui atividade física vigorosa, dieta vegetariana, medicação e controle do estresse, que é um dos fatores de gatilho dos eventos cardiovasculares. Uma pesquisa mostrou que 82% das pessoas que seguiram o programa tiveram redução ou estabilização das placas. Os 18% continuaram progedindo, o que poderia ser explicado por predisposição genética”, diz o médico.

Essa, aliás, é uma crítica que ele faz ao estudo do Centro Nacional de Investigações Cardiovasculares Carlos III: os pesquisadores não consideraram o histórico familiar dos participantes, excluindo, dessa forma, os fatores genéticos como um risco em potencial. Ainda assim, o médico considera que o trabalho deve reforçar a importância de medidas preventivas voltadas às pessoas que, independentemente de outras taxas, têm “mau colesterol” elevado. Inclusive, ele cita o epidemiologista canadense Salim Yousef, presidente da Federação Mundial do Coração, que sugeriu, há duas décadas, a adição de estatina à água, para prevenir doenças cardiovasculares. “Claro que teríamos de saber qual a dosagem ideal, mas essa é uma estratégia que poderia ser pesquisada”, observa.

Pesquisadores japoneses identificam neurônios culpados pelo desejo por doces

Descoberta pode abrir caminho para melhorias no tratamento de excesso de peso

Uma equipe de pesquisadores japoneses identificou os neurônios responsáveis pelos desejos súbitos de consumir doces ou chocolates quando o estresse é grande. Os cientistas estão otimistas de que a descoberta, publicada na edição on-line da revista americana Cell Reports, poderá abrir caminho para avançar em investigações mais precisas para as pessoas que sofrem de excesso de peso.

As pesquisas foram feitas, inicialmente, com ratos. Cientistas do Instituto Nacional de Ciências Fisiológicas, localizado na cidade de Aichi, constataram que quando estimulavam nos animais os neurônios conhecidos por sua relação com o estresse, o interesse deles por carboidratos multiplicava. Os roedores estudados comeram três vezes mais rações açucaradas que sob condições normais, enquanto reduziram pela metade o volume de gorduras ingeridas.

Segundo o cientista Yasuhiko Minokoshi, que liderou os trabalhos, esse estudo é o primeiro a demonstrar o papel do cérebro nas preferências por carboidratos ou gorduras. “Pessoas que comem muito doce quando estão estressadas, muitas vezes pensam que é culpa própria porque não conseguem controlar seus impulsos”, comentou o pesquisador, assinalando que, na realidade, pode ser uma questão de neurônios.

Minokoshi, no entanto, foi prudente quanto aos desdobramentos das investigações. Ele enfatizou que ainda falta tempo para que esses conhecimentos permitam tratamentos específicos. Uma simples supressão desses neurônios poderia ter efeitos colaterais, alertou.

“Mas, se encontrássemos uma molécula específica nos neurônios, poderíamos visá-la para suprimir algumas de suas funções. Isso ajudaria a reduzir o consumo excessivo de carboidratos”, opinou. Já a ativação da molécula, segundo ele, poderia ser útil para os pacientes que consomem muita gordura.

Saúde Plena

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Fake news e fake drugs

Notícias falsas impulsionam uso de medicamentos de eficácia não comprovada

Acreditar numa notícia falsa é como receber um medicamento sem eficiência comprovada. As consequências podem ser desastrosas. A imprensa e jornalistas sérios buscam coibir as “fake news”, pela ética e sobrevivência profissional. No contraponto está a internet, território livre e globalizado, que ameaça os monopólios da indústria da informação. A liberdade de imprensa não pode ser confundida com a ação delinquente dos que manipulam a informação.

Na medicina ocorrem constantes conflitos de interesse envolvendo as indústrias, fontes pagadoras e com os profissionais de saúde que se opõem à falácia de que a medicina deve apenas seguir as regras do mercado. Mais um fértil terreno para “fake news”. É o que novamente assistimos com o tratamento da LLA, um tipo de leucemia que acomete crianças. Três em quatro desses pequeninos ficam curados se cuidados por uma equipe treinada, numa estrutura hospitalar razoável e usando de quatro a cinco medicamentos conhecidos a longa data.

A asparaginase, principal droga utilizada nesses casos, só é produzida por poucos laboratórios no mundo, dessa forma obrigando o Brasil a importá-la, já que não a produz. A recusa do Ministério da Saúde (MS) ao debate científico ampla e num tempo razoável favorece a comercialização de drogas de eficácia duvidosa, principalmente favorecidas pela regra do menor preço. O ministro, denegrindo sistematicamente cientistas independentes, contribui para que “fake drugs” ou agentes inescrupulosos, que agem nas nebulosidades das leis, continuem a prejudicar pacientes não esclarecidos.

A Justiça Federal do Distrito Federal, em setembro de 2017, proibiu a importação de uma “droga barata” fabricada na China e cuja eficiência nunca não foi comprovada. Diante desse fato, o MS propõe a compra de outra droga chinesa, distribuída pela mesma importadora da barata impugnada (sem duplo sentido!). O argumento é o seu menor custo e sua utilização em alguns hospitais chineses e na Bolívia.

Mas há algo ainda mais triste. Temos que esperar pelo menos dois anos para saber o real impacto desse produto no controle da doença. Enquanto isso, mais crianças pobres serão tratadas por uma droga chinesa (com duplo sentido) para a qual faltam pesquisas que recomendem ou condenem seu uso, pois pode ser tanto uma “fake drug” como um medicamento eficiente e menos custoso.

Enquanto os fabricantes não provarem sua eficácia, o ético é que se faça como o Instituto Boldrini, de Campinas, hospital que atende pacientes do SUS e que utiliza a mesma asparaginase adotada na maioria dos hospitais de referência da Europa e dos EUA, mas se recusando a usar uma droga questionável. Chega de “fake drugs”, veiculadas por “fake news”.

O Globo

Por que o fracionamento de remédios não é obrigatório no Brasil?

A venda fracionada de medicamentos continua sendo apenas uma boa ideia que não sai do papel

Sua adoção traria pelo menos três benefícios importantes: economia, pois o paciente compraria exatamente a quantidade prescrita pelo médico; redução da automedicação, evitando que “sobras” de comprimidos e drágeas fossem utilizadas sem consulta médica prévia, e fim de estoques domésticos, sempre sujeitos a acidentes de consumo, que ameaçam principalmente as crianças.

Segundo o Sistema de Informações Tóxico-farmacológicas (Sinitox), no Brasil duas pessoas se intoxicam por hora em consequência da automedicação. Esse número talvez seja ainda maior, pois muitos casos de intoxicação não chegam a ser notificados.

Projeto de lei da senadora Rose de Freitas (PMDB-ES) propõe tornar obrigatório o fracionamento para assegurar sua venda ao consumidor. A expectativa da autora é que seja aprovado ainda neste semestre. Torço para que se torne lei logo. Até porque há normatização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o fracionamento, mas não a obrigatoriedade de oferta destes remédios.

Medicamento não deveria ser estocado em gavetas, prateleiras, caixinhas etc. O correto seria ter em casa somente a quantidade necessária para as próximas semanas ou exatamente a receitada para um tratamento. Por que, então, as farmácias não vendem medicamentos fracionados? Só há uma explicação: porque não é obrigatório. Em função desta lacuna legal, o consumidor, muitas vezes, tem de comprar mais do que necessita.

Além da despesa adicional desnecessária, há situações em que a pessoa julga ter, novamente, a mesma doença já tratada com determinado remédio. Para combatê-la, utiliza comprimidos guardados. Mas nada substitui a avaliação médica. Não há como garantir que uma dor de garganta, por exemplo, tenha a mesma causa em duas ocasiões diferentes.

Se o armazenamento de remédios é um problema, descartá-los corretamente é outro. Drágeas, comprimidos, pílulas, líquidos injetáveis, xaropes e pomadas não podem ser jogados no lixo comum. É preciso descartá-los em locais específicos para isso, em farmácias e drogarias. Por isso, algumas prefeituras também recebem medicamentos para evitar contaminação do solo e das águas, além de intoxicação. São tantos argumentos favoráveis, que a pergunta se impõe: a quem interessaria impedir o fracionamento?

Folha de São Paulo

TRT de MG entende que farmacêutico que aplica injeções tem direito a adicional de insalubridade

Aplicar medicamentos injetáveis pode configurar trabalho insalubre em função do contato permanente com agentes biológicos

Pelo menos foi o entendimento recente da 7ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região (MG), que condenou uma rede de farmácias a pagar adicional de insalubridade a um ex-empregado que aplicava injeções em clientes.

O adicional de insalubridade é uma pauta antiga dos farmacêuticos nas reuniões de negociação coletiva, principalmente daqueles que atuam em ambientes com risco de contaminação. Muitos utilizam recursos técnicos para solicitar aos empregadores este acréscimo ao salário.

Neste caso específico, a 7ª Turma do TRT-3 rejeitou a conclusão da perícia baseando-se no artigo 479 do novo CPC (no mesmo sentido do 436 do CPC de 1973). O Tribunal manteve a sentença que deferiu o adicional de insalubridade seguindo o voto da relatora desembargadora Cristiana Maria Valadares Fenelon.

A norma prevê a insalubridade em “trabalhos ou operações em contato permanente com pacientes, animais ou com material infecto-contagiante em hospitais, serviços de emergências, ambulatórios, postos de vacinação e outros estabelecimentos destinados ao cuidado da saúde humana”.

A relatora entendeu que a aplicação de injetáveis, numa média de duas a três vezes por dia, como fazia o reclamante, configurou o enquadramento no Anexo 14 da NR-15. Isso porque expõe o trabalhador ao contato com pacientes, submetendo-o a riscos de contágio, por sangue eventualmente contaminado. Ela tomou por base o depoimento do representante da empresa que admitiu que “não era possível saber se o paciente era ou não portador de HIV ou outras doenças infecciosas”.

Após exame das fichas de Equipamento de Proteção Individual (EPI) a desembargadora concluiu que as luvas de proteção fornecidas, mesmo que fossem corretamente usadas, não eram suficientes para eliminar o risco de contágio, mas apenas para minimizá-lo. Isso porque o contágio por agentes biológicos não se restringe às mãos, podendo ocorrer por outras vias como, pele, nariz, ouvido, ou até mesmo pela garganta. “Essa conclusão é mais convincente e compatível com o que se observa geralmente, através de regras de experiência comum” explicou a relatora.