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segunda-feira, 5 de março de 2018

Pesquisadores propõem classificar diabetes adulto em cinco tipos

Diabetes-2Distinção ajudaria a decidir tratamentos para diferentes evoluções e complicações da doença

Separar o diabetes surgido na idade adulta em cinco diferentes tipos – no lugar de apenas tipo 1 e tipo 2 como é feito atualmente – pode ajudar a melhor decidir o tratamento para cada paciente, num primeiro passo rumo à medicina de precisão contra a doença, mostra estudo feito na Suécia e Finlândia e publicado nesta quinta-feira no periódico científico “The Lancet Diabetes & Endocrinology”. Segundo os cientistas, os cinco tipos de diabetes identificados na pesquisa têm diferentes características com complicações também diferentes, o que ilustra a variedade de tratamentos requerida pelos pacientes.

As taxas de prevalência de diabetes estão subindo no mundo inteiro, mais rápido que outras desordens, tornando o mal um fardo à saúde global mais significativo também. Ainda assim a classificação médica do diabetes não sofre alterações há 20 anos, ainda se baseando principalmente nos níveis de açúcar no sangue.

O diabetes do tipo 1 geralmente é diagnosticado ainda durante a infância, provocada pelo fato do corpo do paciente não ser capaz de produzir insulina suficiente. O diabetes do tipo 2, no entanto, se estabelece quando o corpo não consegue produzir insulina o bastante para atender à crescente demanda imposta por fatores como obesidade e resistência insulínica, frequentemente mais tarde na vida. A maior parte dos casos diagnosticados no mundo é do tipo 2, algo entre 75% e 85%, e embora se saiba que este tipo apresenta grande variabilidade, pouco foi feito para explorar essas distinções do ponto de vista clínico.

– As evidências sugerem que o tratamento precoce do diabetes é crucial para prevenir complicações que podem encurtar a vida. Um diagnóstico mais acurado do diabetes pode então nos dar valiosas pistas de como ele vai evoluir com o tempo, permitindo-nos prever e tratar as complicações antes que elas se desenvolvam – justifica Leif Groop, pesquisador do Centro para Diabetes da Universidade Lund, na Suécia, do Instituto para Medicina Molecular da Finlândia e primeiro autor do estudo no “The Lancet Diabetes & Endocrinology”. – Os protocolos de tratamento existentes são limitados pelo fato de responderam ao mau controle metabólico de quando o diabetes se desenvolveu, mas não nos dão maneiras de prever que pacientes precisarão de um tratamento mais intensivo. Este estudo nos leva a um diagnóstico mais útil do ponto de vista clínico, e representa um importante passo na medicina de precisão do diabetes.

O novo estudo teve como base quatro outros estudos de coorte envolvendo quase 15 mil pacientes com 18 anos ou mais então recém-diagnosticados com diabetes na Suécia e Finlândia. Os cientistas analisaram seis medidas usadas para monitorar os pacientes que refletem aspectos chave da doença: idade do diagnóstico, índice de massa corporal, controle glicêmico de longo prazo, funcionamento das células produtoras de insulina no sangue, resistência à insulina e presença de anticorpos associados ao diabetes autoimune. Eles também fizeram análises genéticas dos pacientes, e compararam a progressão da doença, tratamento e o desenvolvimento de complicações associadas à doença em cada tipo de diabetes.

Numa primeira análise de uma coorte de 8.980 adultos, os pesquisadores identificaram um tipo de diabetes autoimune e quatro subtipos distintos de diabetes do tipo 2. Eles então testaram seus achados em mais três coortes com um total de 5.795 pessoas, mostrando que os cinco diferentes tipos identificados também estavam presentes nestes pacientes.

Segundo os pesquisadores, os cinco tipos de diabetes se mostraram bastante distintos, incluindo três formas severas e duas mais leves da doença. Entre as formas severas estava um grupo com grande resistência à insulina e um risco significativamente maior de problemas nos rins dos que as outras vítimas da doença, afetando de 11% a 17% dos pacientes (grupo 3), e um grupo relativamente jovem, com deficiência na produção de insulina e mau controle metabólico, mas sem anticorpos autoimunes, com uma prevalência entre 9% e 20% (grupo 2).

Já a terceira forma severa foi vista em um grupo que tinha deficiência de insulina e os anticorpos autoimunes, uma forma de diabetes anteriormente classificada como do tipo 1 e chamada de diabetes autoimune latente em adultos (Lada, na sigla em inglês), atingindo de 6% a 15% dos pacientes (grupo 1). Já a forma mais comum de diabetes mostrou ser uma das mais moderadas, vista principalmente em pacientes mais velhos, com uma prevalência entre 39% e 47% (grupo 5). Já o segundo tipo mais leve só foi observado em indivíduos obesos e afetou de 18% a 23% dos pacientes (grupo 4). Todos os cinco tipos também se mostraram geneticamente distintos, com nenhuma mutação associada a todas as variantes da doença. Este achado apoia a noção de que os cinco tipos são de fato diferentes, e não apenas estágios variados de uma mesma desordem.

Por fim, os pesquisadores analisaram os tipos de tratamentos dados a cada grupo de pacientes, mostrando que muitos não recebiam o tratamento apropriado. Por exemplo, só uma pequena proporção dos pacientes dos grupos 1 e 2 receberam insulina já no aparecimento da doença (42%, ou 212 de 506 pacientes; e 29%, ou 389 de 1.339 pacientes, respectivamente), sugerindo que a classificação tradicional do diabetes não é capaz de indicar o melhor tratamento para as características subjacentes da doença.

Os cientistas, porém, destacam algumas limitações de seu estudo, incluindo não ter sido capaz de confirmar que cada um dos cinco tipos tem causa diferente nem se a tipo de diabetes de um paciente pode mudar com o tempo. Além disso, a pesquisa envolveu apenas pacientes escandinavos, tendo ainda que ser confirmada com outras populações. Mas estudos também serão necessários para testar e refinar a classificação dos cinco tipos incluindo biomarcadores, genótipos, avaliações de risco genético, pressão sanguínea e gorduras no sangue.

O Globo

sexta-feira, 2 de março de 2018

Lean: a droga à base de codeína que tem aumentado número de mortes por overdose

Consumo contínuo da mistura de glicose , compostos químicos e refrigerante pode desencadear síndrome de abstinência
Reprodução/Twitter - Consumo contínuo da mistura de glicose , compostos
químicos refrigerante pode desencadear síndrome de abstinência
Mistura de anestésico contra dores, antialérgico, refrigerante e balas de goma apresenta riscos fatais, além de desencadear problemas como hepatite, gastrite, hipertensão arterial, acidentes vasculares e infecções

Você já ouviu falar de "lean"? A bebida que mistura codeína , refrigerante e balas de goma tem se tornado cada vez mais popular entre jovens de diferentes países. Criada nos Estados Unidos, durante a cena do blues, em 1960, é também conhecida como purple drank , sizzurpe e syrup , e pode levar pessoas à síndrome de abstinência e até mesmo à morte.

No Brasil, o lean se tornou famoso em 2015, e vem ganhando potência por sua predominante aparição em clipes de trap norte-americanos, em que rappers aparecem com copos de isopor brancos cheios de gelo e, claro, a “bebida roxa”. Em sua composição, além da codeína, que é um derivado do ópio usado como anestésico contra dores moderadas e graves e em tratamentos oncológicos, usa-se prometazina, um antialérgico que aumenta o efeito de sedação.

De acordo com um levantamento realizado pelo site americano Motherboard , o consumo de purple drank chamou a atenção do governo dos EUA depois de registros numerosos de mortes por overdose. Segundo o relatório oficial da comissão presidencial, cerca de 142 pessoas vêm a óbito por dia devido ao uso de opioides, o que se igualaria à quantidade de mortos nos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 a cada três semanas.

História, efeitos e overdose
Apesar de ter sido desenvolvida no final dos anos 1960, em Houston, no estado americano do Texas, foi somente em 1990 que a bebida começou sua ascensão de fato, em paralelo com o crescimento da cultura hip hop e com as frequentes menções feitas pelo produtor musical DJ Screw, que morreu por overdose de codeína em 2000.

A coordenadora da Comissão de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria, Dra. Ana Cecília Marques, explica que a ingestão do purple drank pode causar diferentes efeitos, sendo o de bem-estar e relaxamento os mais comuns. Ela alerta que, se ingerido excessivamente, as sensações podem ser contrárias, levando o indivíduo a um sono profundo e até mesmo ao coma.

A médica ainda adverte que a junção do álcool com drogas derivadas do ópio pode aumentar esses efeitos, tornando-os fatais. “Se o uso for crônico, todos os sistemas do corpo são acometidos, o que pode gerar inflamações como hepatite, gastrite, colite, neurite, hipertensão arterial, acidentes vasculares e infecções de repetição, principalmente respiratórias”.

Outra questão levantada é o perigo do consumo de antibióticos, especialmente por causa das superbactérias, que enfraquecem o sistema imunológico e cessam a eficácia de tratamentos à base de medicamentos como esse. Para a nutróloga Ana Luisa Vivela, o syrup não desencadearia esse risco, sendo prejudicial ao organismo de cada pessoa de maneira particular.

Para ela, há chances de propagação de superbactérias em indivíduos que já estejam com infecções, mas que, no geral, o maior risco trazido pela “bebida roxa” está ligado a questões cardiovasculares. “Qualquer substância ingerida sem dosagem e prescrição médica pode ser nociva, principalmente para jovens e adolescentes que não sabem o que estão consumindo. A superbactéria geralmente é contraída em ambientes hospitalares, assim, para evitar este e outros problemas, o aconselhável é não ingerir codeína, que é muito perigosa por ser uma substância que se transforma em morfina”, alega.

O consumo contínuo da mistura de glicose e compostos químicos ainda pode provocar síndrome de abstinência, como já relatada pelo rapper Lil Wayne. Em entrevista a diferentes veículos americanos, o cantor de 35 anos diz passar mal se ficar um dia sem tomar sizzurp . "É como se você sentisse a morte no seu estômago quando para de usar", explica.

Em 2016, após ser hospitalizado e preso, o cantor americano Gucci Mane também veio a público alertar os jovens sobre o consumo da mistura. Em sua página do Twitter, ele disse: "Me arrependo muito! Tomo lean faz dez anos e tenho que admitir que isso me destruiu. Quero ser o primeiro rapper a assumir que é viciado e dizer que isso não é brincadeira. Eu mal consigo lembrar das coisas que fiz ou falei. Logo irei para reabilitação porque sei que preciso de ajuda”.

Outros casos que terminaram de forma ainda mais trágica são os de Pimp C e Big Moe, que faleceram em 2007 por overdose de codeína. O caso mais recente é o do rapper Fredo Santana, que morreu aos 27 anos no começo de 2018 pelo mesmo motivo.

É importante mencionar que não há estimativas concretas que evidenciem a quantidade de mortes causadas pela droga preparada com o pró-fármaco descendente da semente do ópio. Entretanto, alguns casos mostrados na mídia têm contribuído para que a vigilância acerca do medicamento seja maior.

“Álcool me deixa chato, prefiro lean”
A reportagem do iG conversou com jovens na faixa etária entre 18 e 24 anos, que não quiseram ser identificados e relataram ter experimentado a droga apenas por curiosidade, sem saber de seus efeitos colaterais. Um deles conta que "começou a ingerir codeína sem ao menos saber o que era", e que preferiu parar o uso "depois de saber se tratar de um sintético".

Já outro relata ter “improvisado” o drink com o xarope para tosse de sua avó quando ainda era criança, pois "queria imitar os rappers". Ele diz que, atualmente, a bebida lhe proporciona uma sensação de tranquilidade agradável, "muito diferente da despertada pelo álcool".

“Para mim, além de saboroso, o lean traz uma vibe boa, o que não acontece com o álcool, que também consumo frequentemente. Percebo que, com bebida alcoólica, eu fico chato e estressado, já o purple drank me faz relaxar e me ajuda a dormir, o que é bem difícil no cotidiano. Eu tenho consciência de que não é certo, mas eu tomo com moderação, sei que é perigoso”, conclui.

Fiscalização
No Brasil, a codeína é fiscalizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que a classifica como um entorpecente. Vendida apenas com receita médica especial, a Anvisa conta com a ajuda das autoridades de estados e municípios, ligadas às respectivas secretarias de saúde, para a realização do controle da substância, que, na atualidade, vem sendo burlado em diferentes regiões.

A falsificação de receitas e o tráfico da substância pelas redes sociais, por exemplo, se tornaram um agravante na supervisão realizada pelas autoridades. Em junho do ano passado, a Polícia Federal (PF) cumpriu dois mandados de busca e apreensão em uma investigação acerca do comércio ilegal de purple drank em Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina. Dois garotos foram apontados como suspeitos de produzir a droga em suas residências e vendê-la em uma rede social.

De acordo com a PF, pelo fato de a bebida ter a codeína como principal ingrediente, o caso foi considerado tráfico de entorpecentes, em que a pena pode chegar a 15 anos de prisão.

Para a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, a desinformação é um dos principais fatores que cercam a produção e o consumo do lean. O órgão expõe não existir tratamentos clínicos específicos, contudo, é importante que todos que necessitam de ajuda para problemas de dependência química busquem auxílio nas unidades regionais do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

iG

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Sob pressão de custos, companhias se unem para cortar gastos com saúde

Gestão de negócios para reduzir custos na sua oficinaOs custos com planos de saúde transformaram-se num pesadelo para as empresas. Na maioria delas, representa a segunda maior despesa com pessoal, perdendo apenas para a folha de pagamento. Em alguns casos, até mais

O descompasso entre aumentos de preços em geral e a chamada inflação médica começou em meados da década passada. Mas tornou-se mais perceptível a partir do controle inflacionário. Os reajustes nos planos de saúde equivalem hoje a duas a três vezes o índice do IPCA, segundo pesquisa feita no ano passado pela Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) e a Aliança para a saúde populacional (Asap).

Em conversas informais empresários perceberam que tal pressão de custos era comum a todos. Há seis meses, a ABRH e Asap – essa última representante de consultorias especializadas na gestão de saúde – criaram um fórum, que mensalmente reúne executivos para trocar experiências. As mais bem-sucedidas revelam empresas que incluíram a saúde dos empregados nos programas de gestão.

As empresas instaladas no Brasil arcam com dois terços do que se gasta com saúde no país, segundo dados da ABRH e Asap. Elaborada pela união das duas entidades, a pesquisa concluída no segundo semestre de 2017 envolveu 668 empresas que, juntas, têm 1,3 milhão de empregados e 3 milhões de beneficiados, incluindo dependentes. Um universo equivalente a quase 10% do total coberto pelos planos de saúde no país.

À pesquisa a maioria dos entrevistados respondeu que os reajustes de preços desses planos equivalem a, no mínimo, duas a três vezes a inflação e alguns garantiram que já arcaram com aumentos seis ou sete vezes acima do IPCA. “É como se a boca do jacaré não parasse de abrir”, diz o diretor de desenvolvimento de pessoas da ABRH Brasil, Luiz Edmundo Rosa. Segundo ele, o fórum reúne, por enquanto, 20 grandes grupos, entre os quais estão Itaú, Petrobras, Johnson & Johnson, Pirelli, Sherwin Williams e Natura. A união para cortar custos e incluir a saúde na estratégia empresarial provocou a necessidade de formar as equipes de recursos humanos. Em parceria com uma universidade cujo nome está em sigilo, em maio será lançado um curso de capacitação em gestão de saúde corporativa. “Antes, falávamos do problema para nós mesmos. Mas não adianta reclamar dos aumentos de preços e simplesmente delegar às operadoras o cuidado com os funcionários.

É preciso criar uma inteligência de saúde dentro da empresa”, diz a presidente da Asap, Ana Elisa Siqueira. Para Rosa, da ABRH, os empresários correm sérios riscos de não conseguir conter essa escalada de custos quando delegam a uma única pessoa a responsabilidade de gerir a segunda maior despesa da companhia. Mas muitos já se deram conta disso.

Desde outubro de 2016, a farmacêutica Biolab tem uma área interna criada pelas áreas de recursos humanos e financeira. Em parceria com uma consultoria, foram tomadas várias medidas. Uma delas consiste em fazer uma análise de todos os pedidos de procedimentos médicos e exames dos seus 6,9 mil funcionários. Às 6h da manhã, diariamente, a superintendente de RH, Luciana Lourenço, recebe uma lista dos pedidos que envolvem as principais especialidades, como ortopedia e cardiologia.

Na triagem, médicos que trabalham para a empresa podem ser acionados para dar uma segunda opinião. Mas, segundo Luciana, o sucesso desse tipo de ação depende da confiança do trabalhador na empresa. A Biolab fez parceria com o Serviço Social da Indústria (Sesi) para oferecer exames em clínicas ambulantes, que estacionam nos pátios das fábricas do grupo. E acompanha todas as internações.

Bosch criou um comitê que trabalha na saúde como se fosse desenvolver um novo produto da companhia.

Os resultados são gratificantes. Luciana acompanhou toda a recuperação do filho de um funcionário do Espírito Santo. O garoto ficou órfão depois de um acidente em que os pais morreram e ele ficou gravemente ferido. "No modelo antigo eu não conseguiria interferir; só saberia o que aconteceu quando recebesse o relatório do tempo que ele passou na UTI", diz.

As grandes empresas têm trocado planos pré-pagos por pós-pagos, nos quais só se paga quando usa. "O risco de fazer essa troca sem, paralelamente, criar um programa de gestão é como deixar o carro sem seguro estacionado numa rua escura", diz Luciana.

Com as duas ações, em um ano a Biolab reduziu os custos com plano de saúde em 30%. "Pagamos hoje, por beneficiado, o equivalente ao valor de três anos atrás", diz o diretor financeiro, Alexandre Iglesias. "Se as empresas não assumirem essa gestão terão que arcar com uma despesa impagável".

A preocupação dos empresários com os custos com planos de saúde não afeta apenas o Brasil. Conforme noticiado na edição de ontem do Valor, três gigantes americanas - Amazon, Berkshire Hathway e JP Morgan - uniram-se para criar uma empresa sem fins lucrativos para conter gastos com os planos de saúde de seus quase 1 milhão de funcionários.

Com 8,5 mil funcionários e 24 mil vidas, incluindo dependentes, a Bosch decidiu enxugar a estrutura de convênios ao perceber que o "crescimento desse custo estava desproporcional", diz o diretor de Recursos Humanos, Fernando Tourinho. "Nada sobre 20% a 22% ao ano." Também na Bosch, o custo com saúde representa a segunda maior despesa com pessoal. Há quatro anos, o número de operadoras foi reduzido de oito para três e a quantidade de planos caiu de 27 para sete.

Mas a ação que mais orgulha Tourinho foi a criação de um comitê interno que envolve gestores de RH, médicos internos e funcionários de outras áreas. Segundo o executivo, a ideia é fazer com a saúde o que um grupo de trabalho faria se tivesse que lançar um novo produto da Bosch. "Se sabemos desenvolver a inteligência artificial de um automóvel temos a obrigação de saber fazer o mesmo com a vida das nossas pessoas", destaca.

Parcerias com consultorias, Sesi e um trabalho de revisão do cardápio das fábricas para oferecer alimentos mais saudáveis e reduzir o nível do sal também fazem parte da mudança de conceito sobre saúde na Bosch. Esse esforço ajudou a cortar custos. Mas Tourinho não revela números. Segundo ele, vale mais a qualidade atingida.

O presidente do Grupo Fleury, Carlos Marinelli, defende a integração entre as operadoras, planos de saúde e hospitais. "Não temos bala de prata para resolver os problemas. Este é um setor complexo e que tem incentivos cruzados, difíceis de serem resolvidos, principalmente por ser uma área muito politizada", diz.

Nessa mudança de modelo, começa a mudar também o perfil do exame ocupacional. Os médicos que prestam esse serviço abriram o jogo e contaram à equipe da Bosch que no exame ocupacional eles não têm tempo de "ser médicos". "Se um operário me diz que está com gastrite, não dá tempo de examiná-lo", contou um deles. Para eliminar a parte das perguntas, a empresa implantou um software que leva ao médico o prontuário do funcionário antes de ele entrar na sala.

Já faz mais de oito anos que a prevenção entrou na agenda da General Electric . Com a ajuda de consultores, foi implementado um forte programa de combate ao tabagismo, sedentarismo e obesidade. Com convênios com seis operadoras, a empresa também trocou o plano pré-pago pelo pós-pago. A conduta mudou os hábitos de 33 mil vidas espalhadas pelo país, segundo a GE, que diz assistir, silenciosamente, à transformação nas pessoas e suas escolhas.

Farmacêutica promete mudanças ante crise de opioides nos EUA

O fabricante do fármaco para a dor mais vendido do mundo, Purdue Pharma, acusado de se beneficiar de uma mortífera crise de opioides que afeta a classe média dos Estados Unidos, anunciou uma mudança de rumo

A empresa assegurou que pediu a seus vendedores que não encorajem os médicos a receitarem medicamentos contra a dor, incluindo o popular analgésico OxyContin, com frequência abusados por dependentes químicos. “Reestruturamos e reduzimos significativamente nossa operação comercial e nossos representantes de vendas já não promoverão os opioides aos médicos prescritores”, afirmou a Purdue Pharma.

A prescrição excessiva de medicamentos para a dor provocou o vício de milhões de americanos, assim como uma explosão de overdoses fatais, como a do ícone pop Prince e a do roqueiro Tom Petty. A Purdue Pharma é um dos fabricantes apontados pela cidade de Nova York em um processo de 500 milhões de dólares apresentado em janeiro para recuperar custos que poderiam ajudar a combater a crescente crise de opioides.

As mortes por overdose em Nova York dobraram entre 2010 e 2016, quando mais de 1.000 pessoas faleceram por excesso de opioides. Segundo o processo, o número é maior que o das mortes de nova-iorquinos por acidentes de carro e homicídios combinadas. O processo acusa os fabricantes de propaganda enganosa e os distribuidores de abastecimento excessivo de analgésicos receitados, o que representa uma carga para a cidade pelos custos de atendimento médico, justiça penal e segurança.

Em outubro, o presidente Donald Trump descreveu a crise de opioides como uma emergência nacional de saúde pública. Estima-se que 2,4 milhões de americanos são viciados em opioides, narcóticos que incluem tanto os analgésicos receitados como a heroína. A Purdue Pharma publicou em seu site uma advertência sobre os efeitos dos opioides e disse que está comprometida “a ser parte da solução, ao se associar com a polícia local, agências do governo locais e estatais e grupos comunitários em todo o país”.

Mas segundo um informe difundido na segunda-feira pela senadora democrata Claire McCaskill, a Purdue Pharma apoiou financeiramente o Washington Legal Foundation, um grupo que em 2016 criticou as recomendações dos Centros para o Controle e Prevenção de Doenças dirigidas a limitar a prescrição de opioides em casos de dor crônica. “As organizações que recebem um financiamento sustancial dos fabricantes ampliaram e reforçaram as mensagens a favor de um maior uso de opioides”, disse McCaskill.

Istoé

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Tratamento para o alcoolismo dá novo rumo à terapia anticâncer

Tratamento câncer
Tratamento câncer (iStockphoto/Getty Images)
O dissulfiram é uma medicação usada há mais de 60 anos no tratamento do alcoolismo, que mostrou efeito benéfico contra o câncer

O dissulfiram, conhecido comercialmente como Antabuse, é uma medicação usada há mais de 60 anos no tratamento do alcoolismo. Como em tantos outros casos, essa foi uma descoberta casual feita em 1937. O dissulfiram era uma substância utilizada no beneficiamento da borracha e se percebeu que os trabalhadores constantemente expostos a ele, desenvolviam dores pelo corpo, semelhantes a um quadro gripal, quando ingeriam bebidas alcoólicas. 

Descoberta ao acaso
No início dos anos 70 ocorreu a publicação de um caso clínico de uma senhora portadora de câncer de mama que havia se espalhado para os ossos e que, por ter desenvolvido alcoolismo severo, teve o seu tratamento do câncer suspenso e substituído por dissulfiram. Esta paciente veio a falecer dez anos depois por “despencar embriagada” de uma janela. Na autópsia, surpreendentemente, as metástases ósseas haviam desaparecido.

Este caso motivou várias pesquisas que demonstraram que o dissulfiram, em laboratório, era capaz de matar células cancerosas de vários tipos e também era capaz de retardar o crescimento de câncer em animais. Em 1993, foi realizado um pequeno estudo clínico com 64 pacientes, metade dos quais recebeu dissulfiram em adição ao tratamento padrão. Após seis anos de seguimento, a sobrevida do grupo que recebeu dissulfiram foi de 81% comparada a 55% no grupo controle.

Um estudo epidemiológico, realizado na Dinamarca, utilizando o registro nacional de oncologia, identificou mais de 240.000 casos de câncer entre os anos de 2000 e 2013. Entre estes, 3.000 pacientes receberam Antabuse (dissulfiram). A taxa de mortalidade por câncer entre os 1177 pacientes que continuavam tomando Antabuse era 34% menor do que entre os pacientes que abandonaram o seu uso.

Mecanismo de ação do dissulfiram
Apesar de todas estas evidências, o uso do dissulfiram no tratamento do câncer não prosperou, em parte por conta de resultados inconsistentes e em parte porque os pesquisadores não entendiam como o dissulfiram funcionava. Finalmente este mistério parece ter chegado ao fim graças a um grupo de cientistas escandinavos e americanos que, em 14 de dezembro, publicaram na revista Nature, o mecanismo de ação do dissulfiram.

De uma maneira simplificada podemos dizer que um dos produtos do metabolismo do dissulfiram se liga ao cobre dentro das células. Como consequência, este produto impede a célula cancerosa de se livrar do lixo metabólico que ela produz, causando uma “intoxicação ” e a sua morte.

Para os leitores mais afeitos à ciência, a proteína inibida pelo Ditiocarb (produto do metabolismo do dissulfiram) complexado com cobre se chama NPL4 e o sistema de “limpeza” do lixo celular é o sistema da ubiquitina proteassomal. É importante notar que o dissulfiram não tem esse efeito em células normais nem em qualquer célula cancerosa.

Este efeito é notado principalmente nas células-tronco cancerosas, que transportam cobre em quantidades 10 vezes maior que as outras células. Hoje se sabe que são essas células-tronco cancerosas as responsáveis pelo desenvolvimento de resistência aos quimioterápicos e recorrência dos tumores.

Coadjuvante ao tratamento
Deste modo, o dissulfiram não deve ser uma “cura” para o câncer, mas um coadjuvante para prevenir a resistência e a recorrência. Entre os tumores nos quais as células-tronco têm um papel proeminente na agressividade, está o glioblastoma, cujo tratamento atual é um desafio.

Evidentemente essa descoberta agora necessita da demonstração prática de sua utilidade através de grandes estudos clínicos que a indústria farmacêutica reluta em financiar, porque o dissulfiram é uma droga antiga, genérica e barata. É improvável que o lucro advindo da venda desta medicação cubra os custos dos estudos clínicos necessários. São estudos que certamente serão conduzidos pelos grandes centros mundiais de tratamento do câncer.

Referência: Nature 552, 194–199 (14 December 2017)
doi:10.1038/nature25016

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