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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Se persistirem os sintomas, consulte um psicanalista

Numa sociedade em que o cidadão é monitorado por "olhos eletrônicos", faróis inteligentes, câmeras digitais, numa constante sensação de paranóia implícita, o resultado não pode ser dos melhores.

Quando a vida pessoal se transforma num inferno particular, o mal-estar crônico adquire novas formas sintomáticas e a ansiedade toma conta.

Neste momento, o que se recomenda é procurar ajuda profissional. Se for um médico ou psiquiatra, a terapia medicamentosa estará ao alcance das mãos, mas se a opção fosse um psicanalista, a terapia baseada na palavra faria o sujeito falar do seu sofrimento.

A prática clínica consiste em fazer o paciente contar sobre quem ele pensa que é e como ele se apresenta para si e para quem o escuta. Como enfatizava Jacques Lacan, o analista age menos pelo que diz e faz do que por aquilo que é.

Significa que este exerce essa função somente quando houver alguém que lhe demande neste lugar. Entre quatro paredes e um divã, o analista se pergunta: O que ele quer de mim? A cura ou o apego ao sintoma? Quem ele pensa que sou, quando diz isso?

Em outras palavras, o analista funciona como arrimo das representações inconscientes com as quais o paciente dialoga e lida sem saber ao certo que isso acontece na transferência. A associação livre, regra fundamental do tratamento, opera mudanças quando o discurso faz um novo sentido, redefinindo o modo de escutar a própria história.

Quem não deseja falar de si para alguém? Ainda mais, quando as relações são vividas como superficiais, passageiras e vazias. Na era da comunicação móvel, o diálogo não é mais dialógico, é atravessado pelas lentes das tecnologias digitais criando uma profusão de sentidos díspares.

Para os mais jovens, as novas mídias e as redes sociais digitais (facebook, twitter, blogs) são fatos consumados: por meio destas tecnologias que a vida rola solta.

Alguns analistas acompanham a tendência e postam páginas no facebook, enquanto outros são seguidos no twitter ou nos blogs inteligentes e criativos sobre temas do cotidiano.

Estes eventos demonstram que a sociabilidade em rede, onde o virtual e o real são vivenciados como sendo a mesma coisa, chegou para ficar e apresenta dinâmicas nunca antes cogitadas, enquanto a energia se sustentar, pois na falta dá-se o caos.

Algumas situações que ocorrem hoje em sessões de análise confirmam como a cultura digital faz parte da produção do inconsciente.

Os analisantes se valem do torpedo para mandar mensagens ao psicanalista como: "estou a caminho", "desculpe, mas não poderei ir", "podemos mudar a sessão?" ou, quando não desligam o celular e dizem: "desculpe, mas preciso atender" ou "vou desligar o aparelho".

Outro fenômeno interessante é quando o paciente, para ser o mais fiel em seu discurso, lê o que o outro lhe escreveu no celular.

Sob esta perspectiva, as linguagens apresentadas sob os diferentes suportes - tablets, smartphones, laptops - compõem um aspecto da transferência de saber que a psicanálise atual deve conhecer e manejar.

Segundo a semioticista Lucia Santaella, "estamos vivendo a transição entre um modelo de acesso restrito à informação para um modelo aberto e livre, no qual a informação se espalha por todas as superfícies e ambientes".

Com essa constatação, fica-se mais exposto ao meio; porém, isto poderia prejudicar as análises? Ou, quanto mais o psicanalista parecer como um de nós, menor seria a idealização que gira em torno dele?

No passado, havia uma idéia de que o paciente não podia ter acesso à vida privada do analista, ao ponto de se produzir enormes resistências ao tratamento, se algo fosse revelado da sua intimidade.

O constrangimento maior era encontrá-lo em ambientes comuns e não saber o que fazer: cumprimentar, ignorar ou se esconder. Naquelas épocas, as análises eram restritas apenas à elite que podia pagar por elas, e os profissionais, todos de formação médica.

Tudo isso mudou! Hoje, os psicanalistas são psicólogos em grande maioria, e a psicanálise tornou-se conhecida e mais acessível. Desperta curiosidade, desejo de conhecer e experimentar; é assunto freqüente, tanto na mídia, quanto nas pesquisas acadêmicas.

Em público, diversos analistas emitem opiniões, participam de entrevistas e debates sobre temas da própria práxis.

Apesar de tantas informações, as pessoas têm dificuldade de diferenciar psicoterapeuta, psicólogo, psicanalista e psiquiatra, ainda que se tenha confiança de serem profissionais que cuidam da "cabeça", da "mente", do "subconsciente", do "psicológico" e do "comportamento".

As pessoas chegam aos consultórios com pesquisas feitas no Google sobre o remédio que estão tomando ou sobre o sintoma favorito, resultando em informações fragmentadas sobre a matéria. Não são poucas as medicadas indiscriminadamente; mais por médicos generalistas do que por psiquiatras.

Com notável sucesso de vendas e com o aumento de usuários das "tarjas prestas", o perfil do consumidor interessou as agências de publicidade, com os remédios apresentados na propaganda como produtos de primeira necessidade.

Não é para menos, quem ficou dependente de ansiolíticos e/ou antidepressivos, para poder se livrar deles, precisa tomar outra pílula que anula o efeito da anterior, e assim por diante.

É preciso um coquetel de pílulas para um coquetel de sintomas, deixando como rastro o insone que erra nas noites mal dormidas. Quem já passou por isso se reconhece quando alguém diz, ao chegar ao trabalho: "Cara, não agüentei e tomei um Dramin, e agora não consigo parar em pé".

A ausência de sono que afeta tanta gente, seja esta breve ou prolongada, é de tirar do sério. Para muitos, o uso constante das gotas de Rivotríl é mais eficaz do que contar carneirinhos. Pois é: até para nanar, é preciso se dopar!

Localizado no sono REM, o sonho é suprimido pela ação da droga, e não há nada menos salutar do que deixar de sonhar, sem lembrar nada para contar. Perde-se uma parte de si, um detalhe do mundo anímico que faz coro com o autoconhecimento e a dimensão subjetiva do desejo.

O inconsciente, patrimônio freudiano, nada tem a ver com o sistema nervoso central ou periférico. Mas, quando não podemos evitar que algumas fórmulas de compromisso caduquem com o passar do tempo, inviabilizando a felicidade e a tranqüilidade, talvez seja o momento exato para começar uma análise.

Os seres humanos são complicados, melhor dizendo, complexos. Soltos no mundo, desde crianças, temos de responder, como adultos, aos desafios da vida, antes reais do que virtuais. E o fato de sermos falantes, sexuados e mortais, isso não tem remédio. Independente dos meios eletrônicos, a cura pela palavra mantém seu prestígio, com mais de um século de sucesso em cartaz.

FANI HISGAIL é psicanalista e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP e autora do livro "Pedofilia, Um Estudo Psicanalítico" (Ed. Iluminuras, 2007); hisgail@uol.com.br 

Fonte Folhaonline

Humor - Falta de ar

Quando o paciente se apaixona pelo terapeuta

Duas pessoas se encontram sozinhas em uma sala ao menos uma vez por semana ao longo de anos. Uma delas está em situação de fragilidade e conta todos os seus problemas. A outra é vista como a solução para essas questões. Não é difícil compreender porque de vez em quando analista e analisado se apaixonam durante o tratamento.

Freud criou o conceito de amor de transferência para lidar com esse impasse, advertindo seus primeiros discípulos de todas aquelas pacientes que caíam de amores por eles ao longo do tratamento estavam, na verdade, vivendo um sentimento transitório que fazia parte de seu processo de cura.

Na transferência, o paciente repete com o terapeuta os amores e os problemas de relacionamento que já enfrentou ao longo da vida - o fenômeno é simultaneamente uma resistência ao tratamento e um motor de cura, por isso, precisa ser manipulado pelo analista, que não pode envolver seus próprios sentimentos na questão.

Para o psiquiatra David E. Zimerman, essas paixões costumam ser transitórias e os pacientes podem se beneficiar dos insights que a experiência produz caso o analista tenha habilidade para manejar a situação.

A racionalidade, no entanto, nem sempre prevalece: "Já supervisionei o caso de uma paciente muito histérica e extremamente sedutora. Ela acusava o analista de usar as regras da psicanálise como escudo, pois temia ficar louco por ela!", conta Zimerman.

No livro "Cartas a um jovem terapeuta" (Ed. Alegro), o psicanalista Contardo Calligaris chama as paixões do consultório de "quiprocó". Motivo: os terapeutas nunca são o que os pacientes imaginam.

Fora do consultório, a idealização do parceiro também é comum, mas os amantes costumam viver situações mais igualitárias, sem uma marcação tão definida entre o lado frágil e o lado que representa a autoridade e sem um acesso tão grande e unilateral à intimidade do outro.

Para o psicanalista Leopoldo Fulgencio, a mesma atração que pode arruinar um tratamento e frustrar as expectativas do paciente pode também levá-lo à cura: "O motor da análise é o afeto. A sacada de Freud foi criar uma situação artificial em que o amor pode ser vivido de modo a levar o paciente à autonomia, e não à dependência ou submissão. Freud dizia que os pacientes se curam por amor ao analista. E sabemos que, se o analista não se interessar pelo paciente, ele irá embora."

Quem permanecer, nunca esquecerá aquilo que viveu em forma de transferência, acreditava Freud.

Fonte Folhaonline

Especialistas querem evitar tratamentos 'inúteis' contra câncer

Especialistas britânicos pediram aos doentes terminais de câncer evitar se submeter a tratamentos "inúteis" e caros que oferecem "falsas esperanças", informou nesta terça-feira a revista médica "The Lancet Oncology".

O professor Richard Sullivan, do King's College de Londres, e um grupo de acadêmicos afirmaram que alguns médicos criam "expectativas irreais" nos doentes ao submetê-los a diversos tratamentos, ao invés de deixar que a família poupe o dinheiro para dar conforto ao paciente terminal.

O aumento do custo dos tratamentos se deve ao fato da maioria dos doentes ser idoso e serem oferecidos tratamentos modernos e complexos, acrescenta o artigo publicado nesta terça-feira.

"É preciso dar atenção especial aos custos do cuidado ao paciente com câncer no final da vida", acrescentam. Os acadêmicos lembram que algumas formas de câncer são atualmente incuráveis.

Os estudos sugerem que grande parte dos custos totais do atendimento aos pacientes terminais corresponde às últimas semanas de vida, algo que resulta inútil, ressaltam os especialistas.

"Tratamentos como a quimioterapia nas últimas semanas de vida não só têm consequências financeiras para a família do doente e a sociedade, mas podem comprometer também a qualidade de vida do paciente", afirmam.

Em seu estudo, os acadêmicos avaliaram uma série de tratamentos e observaram que muitas vezes mesmo os melhores podem ser inúteis. "Os médicos e a indústria da saúde criaram expectativas irreais para impedir o agravamento da doença e a morte", insistem.

"Estas expectativas permitem a aplicação inadequada de tratamentos de eficácia relativa, inclusive a cirurgia", afirmam os especialistas, destacando que nos países desenvolvidos o tratamento contra o câncer é uma "cultura do excesso". "Estamos em uma sociedade centrada quase exclusivamente no lucro e esse lucro costuma ser pequeno".

Portanto, o artigo evidencia que os médicos devem considerar a maneira mais efetiva e menos dispendiosa das opções disponíveis para estes pacientes, por isso sugerem o fornecimento de determinados remédios unicamente aos que possam tirar algum proveito.

Fonte Folhaonline

Conheça o básico sobre as linhas da psicanálise

As palavras são associadas, interpretadas, esmiuçadas. Na psicanálise, a cura se dá por meio delas.

Atenção às palavras: tudo bem usar "recalque", "projeção" e outros termos saídos desse campo e já incorporados. Mas confundir os "psis", o que é comum, não.

O psicólogo também estuda saúde mental, mas não receita. Ele estuda o "software que roda no cérebro", como diz Francisco Daudt, colunista da Folha. Há muitas linhas de psicologia, muitos jeitos de estudar comportamento.

Psicanalista é uma coisa, psiquiatra, outra.

Psiquiatra é médico: estuda transtornos mentais e os trata prescrevendo remédios.

Terapeuta é quem cuida. Psicoterapeuta, então, é quem cuida do funcionamento mental das pessoas usando alguma técnica como psicodrama ou as das terapias cognitivo-comportamentais.

Já o psicanalista estuda o tal "software" segundo o modelo de Freud, isto é, partindo da premissa que o inconsciente governa muitas das ações humanas.

O psicanalista pode ser um teórico ou um psicoterapeuta que cuida de pessoas usando a ferramenta psicanálise.

Parte fundamental dessa ferramenta é o método da associação livre, criado por Freud para sondar o inconsciente. Nele, o paciente é levado a falar sobre seus pensamentos de forma a revelar a origem de seus conflitos.

No centro dos conflitos estaria o complexo de Édipo, conjunto de impulsos amorosos e hostis dirigidos pela criança aos pais.

O conceito fazia mais sentido quando a única forma de família tinha figuras de pai e mãe bem definidas. E hoje?

Édipo não precisa ser entendido como antes, ao pé da letra, diz Isabel Gomes, professora de psicologia da USP. "Se duas mães fazem as funções materna e paterna, a triangulação se mantém."

NINGUÉM É PURO
Psicanalistas freudianos puros são raros, diz o psicanalista Luiz Tenório Oliveira Lima. "Analistas experientes transitam com a tradição de Freud e a dos sucessores."

A primeira grande mudança na psicanálise veio com a austríaca Melanie Klein (1882-1960). Ela mostrou que crianças já podem ser analisadas desde cedo.

"Alguém que atende crianças não pode ignorar as contribuições de Klein", diz Luís Claudio Figueiredo, que estuda a autora.

Klein substituiu a associação livre pela interpretação de desenhos, brincadeiras e jogos, nos quais a criança já expressa suas fantasias.

Segundo o psicanalista Daniel Delouya, é uma linha eficaz para tratar psicoses infantis. Nessa terapia, a criança cria uma realidade própria com suas fantasias. "Klein trabalha bem esse mundo interno da criança."

Nem tudo é mundo interno para os seguidores de Donald Winnicott (1896-1971). O pediatra inglês pôs o ambiente na equação psicanalítica, defendendo que o desenvolvimento da criança depende de segurança, dada principalmente pela mãe.

Essa linha "acolhe mais" o paciente, diz Elsa Dias, da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana.

Segundo ela, essa corrente serve sobretudo para transtornos alimentares e síndrome do pânico, que teriam raiz em um encontro não muito acolhedor da criança com o mundo.

Nessa visão, a anorexia se relaciona a problemas no aleitamento; o pânico, a um bebê interrompido a toda hora pela mãe intrusiva.

Sucessor de Klein, Wilfred Bion (1897-1979) contribuiu para a análise repensando a relação analista-paciente.

"O analista não é só a figura sobre a qual o paciente projeta ou transfere: ele se observa nessa relação", diz Adriana Nagalli, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Além de se observar, ele devolve ao paciente as próprias experiências.

Segundo Nagalli, esse vínculo ajuda o paciente a tolerar frustrações. "Ao compreender que seu analista também falha, você suporta melhor suas limitações."

O francês Jacques Lacan (1901-1981) temperou a psicanálise com a linguística. O inconsciente, para ele, só é acessível pelo verbo, já que é a linguagem que organiza e traduz as experiências.

TEMPO TERAPÊUTICO
Lacan reformulou a duração da sessão, propondo o ªtempo lógicoº. Em vez dos clássicos 50 minutos, o analista define o término conforme a situação.

"Na linha freudiana, o analista é uma folha em branco sobre a qual o paciente projeta sua vivência. Quando Lacan introduz o tempo lógico, o analista passa a existir", diz Anna Veronica Mautner.

Segundo Jorge Forbes, do Instituto de Psicanálise Lacaniana, o tempo é fator terapêutico. "Prefiro a arbitrariedade de quem dirige a terapia do que a do relógio", diz.

Lacan mostrou que Édipo não dava conta de explicar novos sintomas do mundo moderno, com menos regras definidas e mais necessidade de tomar decisões, explica Forbes. "O analista põe as cartas na mesa e faz o paciente a se responsabilizar pelas suas decisões."

Fonte Folhaonline