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terça-feira, 6 de março de 2018

Cientistas desenvolvem terapia virtual contra paranoia e ansiedade

Mais testes são necessários para confirmar os benefícios a longo prazo desse tipo de tecnologia, que simula estar em uma realidade cheia de avatares virtuais

Uma terapia que combina realidade virtual com tratamentos tradicionais, desenvolvida por cientistas na Holanda, pode se tornar um grande aliado para combater a paranoia e a ansiedade em pessoas com transtornos psicóticos. Testes clínicos realizados em 116 pacientes tiveram resultados promissores, descreveram cientistas na revista The Lancet Psychiatry. Segundo o estudo, os exercícios tornaram as relações sociais dos pacientes menos tensas.

Embora animado, o grupo de especialistas liderado por Roos Pot-Kolder, da VU University da Holanda, destaca que mais testes são necessários para confirmar os benefícios a longo prazo desse tipo de tecnologia, que simula estar em uma realidade cheia de avatares virtuais.

Estima-se que até 90% dos pacientes com psicoses têm pensamentos paranoicos, o que os leva a perceber ameaças onde não há nenhuma. Como resultado, muitos evitam lugares públicos, assim como o contato com pessoas, passando muito tempo sozinhos. A terapia cognitivo-comportamental (CBT), em que os pacientes recebem ajuda para superar problemas que parecem esmagadores, ajuda a reduzir a ansiedade, mas faz pouco para controlar a paranoia. Daí a expectativa em torno do novo estudo.

Para o teste, os 116 participantes receberam um tratamento tradicional, com medicação antipsicótica e consultas com o psiquiatra. Metade deles também praticou interações sociais em um ambiente virtual. Essa parte da terapia consistiu em 16 sessões de uma hora de duração, num período de entre oito a 12 semanas.

Os pacientes foram expostos, por meio de avatares virtuais, a situações sociais que provocariam medo e paranoia em quatro cenários: a rua, o ônibus, o café e o supermercado. Os terapeutas podiam alterar a quantidade de avatares, sua aparência e se as respostas já registradas para o paciente eram neutras ou hostis. Os especialistas também aconselhavam os participantes, ajudando-os a explorar e testar seus próprios sentimentos em diferentes situações.

Eles foram avaliados no início do teste, três meses e seis meses depois. O estudo revelou que a exposição à realidade virtual não aumentou o tempo que os participantes passaram com outras pessoas, mas, sim, a qualidade das interações. “A adição da realidade virtual aos tratamentos tradicionais reduziu os sentimentos paranóicos e o uso de comportamentos ansiosos em situações sociais, em comparação com a terapia padrão sozinha”, resumiu a autora principal, Roos Pot-Kolder.

Foto: Reprodução

Saúde Plena

Capacidade respiratória diminui em mulheres que fazem faxina regularmente

iStockO efeito, não verificado em homens, equivale a fumar um maço de cigarro por dia, segundo estudo realizado ao longo de 20 anos

Muitos conhecem as sensações durante e logo depois de uma limpeza em casa. Após todo o esforço, os cômodos estão cheirosos, os vidros, limpos e o chão brilhando. Durante a faxina, porém, é comum que o cheiro forte de alguns produtos cause incômodos ou dores de cabeça, ou que as mãos estejam vermelhas e formigando levemente.

Além do desconforto, os produtos utilizados podem apresentar riscos à saúde. Um estudo publicado na revista International journal of occupational and environmental health apontou que grande parte deles têm substâncias consideradas irritantes, perigosas ou mesmo corrosivas, que podem causar danos nos olhos ou na pele.

O exercício diário da faxina, porém, pode causar problemas não conhecidos até agora. Publicada na edição on-line de 16 de fevereiro da revista Journal of respiratory and critical care medicine, uma outra pesquisa mostrou que mulheres que limpam regularmente a casa ou que trabalham no ramo podem sofrer perda acelerada da capacidade pulmonar em relação às que não se envolvem com essa atividade. Esse resultado não foi observado nos homens.

Tabagismo
Segundo esse artigo, escrito por pesquisadores da Universidade de Bergen, na Noruega, o efeito é comparável a fumar 20 cigarros por dia durante 20 anos. O trabalho ainda especula que a causa disso sejam as pequenas irritações que acontecem nas vias aéreas com o contato com produtos de limpeza. Ao longo do tempo, elas podem gerar efeitos permanentes.

“Dados anteriores mostraram um aumento no risco de se desenvolver asma e sintomas respiratórios em profissionais da limpeza e em pessoas que limpam sua casa”, diz Oinstein Svanes, o principal autor da pesquisa. A equipe analisou dados de 6.235 homens e mulheres com idade média de 34 anos, que participaram por duas décadas de um estudo que registrou os hábitos e os dados de saúde respiratória.

Classificando os dados por grupos, os pesquisadores descobriram que as mulheres que lidam com limpeza regularmente no trabalho ou em casa apresentaram um declínio maior da capacidade pulmonar ao longo dos anos em comparação às que não fazem a faxina doméstica. Dois exames foram usados para determinar isso: a quantidade de ar que uma pessoa consegue expelir em um segundo, que diminuiu em 3,6ml/ano nas faxineiras domésticas e 3,9ml/ano nas profissionais, e a quantidade de ar total que o paciente pode expelir, diminuindo 4,3ml/ano nas domésticas e 7,1ml/ano nas profissionais.

“Estudos anteriores indicam que mulheres podem ser mais suscetíveis aos efeitos, por exemplo, do tabagismo do que os homens”, afirma Svanes, justificando o fato de essa observação ter sido feita apenas nos participantes do sexo feminino. Essa relação, porém, não é certa. “Existe uma discussão sobre isso na literatura”, conta Sérgio Pontes, pneumologista da Aliança Instituto de Oncologia. “A gente entende que as mulheres podem perder a capacidade pulmonar mais rapidamente do que os homens. Existem estudos que mostram isso e existem estudos que não, então, não é algo comprovado.”

Profissões
Outro fator com potencial de influenciar o resultado, segundo o artigo, é o baixo número de homens trabalhando com limpeza na amostra utilizada - apenas 57. Além disso, o fato de muitos deles se dedicarem a profissões arriscadas do ponto de vista da saúde dos pulmões, como a indústria, não permitiu atribuir aos produtos de higiene doméstica problemas respiratórios identificados nessas pessoas.

Desinfetantes hospitalares, por exemplo, já foram ligados a doenças respiratórias. Um estudo apresentado em setembro de 2017 no Congresso da Sociedade Respiratória Europeia mostrou que o uso semanal do produto por enfermeiros resultou em um aumento de 22% da chance de se desenvolver a doença pulmonar obstrutiva crônica, que não tem cura e está relacionada principalmente ao tabagismo.

“Esses produtos causam uma inflamação nas vias aéreas se você os aspira”, explica Elizabeth Oliveira Rosa e Silva, pneumologista do Hospital Santa Lúcia e membro da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. “Isso acontece muito com a asma. Muitas vezes, o paciente já chega ao consultório dizendo que usou um produto com cheiro forte”, exemplifica.

“Os principais causadores são os detergentes, sabões em pó, alvejantes e desinfetantes”, diz Sérgio Pontes. “No longo prazo, eles podem provocar um tipo de inflamação em toda a via aérea e até na pele.” Para se proteger, o ideal é evitar o uso de produtos fortes. Muitas vezes, um pano úmido é o suficiente. Para as profissionais da limpeza, porém, que podem lidar com produtos ainda mais perigosos, é necessário utilizar equipamentos de proteção adequados.

“O estudo trouxe um desafio para a indústria: fabricar produtos pouco agressivos para a via respiratória”, afirma Rosa e Silva. “Se não houver algum motivo, a indústria continuará numa situação confortável. Agora a gente tem um estudo para se basear, feito ao longo de 20 anos, com grupos diferentes. É um estudo importante”, avalia.

Alterações metabólicas
Outros itens usados no dia a dia também podem causar danos à saúde. Um estudo publicado na revista Plos medicine mostrou que substâncias de perfluoroalquil, ou PFAS, podem interferir no metabolismo, principalmente das mulheres, levando a um aumento de peso. Elas estão em embalagens de alimentos, frigideiras antiaderentes e peças de roupa, e já foram associadas a câncer, alterações hormonais, disfunções imunológicas e níveis altos de colesterol.

“Agora, pela primeira vez, nossas descobertas assinalam um novo caminho no qual os PFAS podem interferir na regulação do peso corporal e contribuir, portanto, para a epidemia de obesidade”, afirma o principal autor, Qi Sun, professor do Departamento de Nutrição da Universidade de Harvard.

O estudo envolveu 621 participantes com sobrepeso e obesidade de um teste clínico ocorrido nos anos 2000. A pesquisa analisou os efeitos de quatro dietas durante um período de dois anos. Em média, os voluntários perderam 6,4kg nos primeiros seis meses, mas recuperaram 2,5kg um ano depois. “Aqueles que ganharam mais peso foram os que tinham as maiores concentrações de PFAS no sangue, com um vínculo mais forte entre as mulheres”, afirma o artigo. O estudo mostrou ainda que as substâncias estão ligadas a um metabolismo mais lento em momentos de repouso, o que facilita o ganho de peso.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Pesquisadores propõem classificar diabetes adulto em cinco tipos

Diabetes-2Distinção ajudaria a decidir tratamentos para diferentes evoluções e complicações da doença

Separar o diabetes surgido na idade adulta em cinco diferentes tipos – no lugar de apenas tipo 1 e tipo 2 como é feito atualmente – pode ajudar a melhor decidir o tratamento para cada paciente, num primeiro passo rumo à medicina de precisão contra a doença, mostra estudo feito na Suécia e Finlândia e publicado nesta quinta-feira no periódico científico “The Lancet Diabetes & Endocrinology”. Segundo os cientistas, os cinco tipos de diabetes identificados na pesquisa têm diferentes características com complicações também diferentes, o que ilustra a variedade de tratamentos requerida pelos pacientes.

As taxas de prevalência de diabetes estão subindo no mundo inteiro, mais rápido que outras desordens, tornando o mal um fardo à saúde global mais significativo também. Ainda assim a classificação médica do diabetes não sofre alterações há 20 anos, ainda se baseando principalmente nos níveis de açúcar no sangue.

O diabetes do tipo 1 geralmente é diagnosticado ainda durante a infância, provocada pelo fato do corpo do paciente não ser capaz de produzir insulina suficiente. O diabetes do tipo 2, no entanto, se estabelece quando o corpo não consegue produzir insulina o bastante para atender à crescente demanda imposta por fatores como obesidade e resistência insulínica, frequentemente mais tarde na vida. A maior parte dos casos diagnosticados no mundo é do tipo 2, algo entre 75% e 85%, e embora se saiba que este tipo apresenta grande variabilidade, pouco foi feito para explorar essas distinções do ponto de vista clínico.

– As evidências sugerem que o tratamento precoce do diabetes é crucial para prevenir complicações que podem encurtar a vida. Um diagnóstico mais acurado do diabetes pode então nos dar valiosas pistas de como ele vai evoluir com o tempo, permitindo-nos prever e tratar as complicações antes que elas se desenvolvam – justifica Leif Groop, pesquisador do Centro para Diabetes da Universidade Lund, na Suécia, do Instituto para Medicina Molecular da Finlândia e primeiro autor do estudo no “The Lancet Diabetes & Endocrinology”. – Os protocolos de tratamento existentes são limitados pelo fato de responderam ao mau controle metabólico de quando o diabetes se desenvolveu, mas não nos dão maneiras de prever que pacientes precisarão de um tratamento mais intensivo. Este estudo nos leva a um diagnóstico mais útil do ponto de vista clínico, e representa um importante passo na medicina de precisão do diabetes.

O novo estudo teve como base quatro outros estudos de coorte envolvendo quase 15 mil pacientes com 18 anos ou mais então recém-diagnosticados com diabetes na Suécia e Finlândia. Os cientistas analisaram seis medidas usadas para monitorar os pacientes que refletem aspectos chave da doença: idade do diagnóstico, índice de massa corporal, controle glicêmico de longo prazo, funcionamento das células produtoras de insulina no sangue, resistência à insulina e presença de anticorpos associados ao diabetes autoimune. Eles também fizeram análises genéticas dos pacientes, e compararam a progressão da doença, tratamento e o desenvolvimento de complicações associadas à doença em cada tipo de diabetes.

Numa primeira análise de uma coorte de 8.980 adultos, os pesquisadores identificaram um tipo de diabetes autoimune e quatro subtipos distintos de diabetes do tipo 2. Eles então testaram seus achados em mais três coortes com um total de 5.795 pessoas, mostrando que os cinco diferentes tipos identificados também estavam presentes nestes pacientes.

Segundo os pesquisadores, os cinco tipos de diabetes se mostraram bastante distintos, incluindo três formas severas e duas mais leves da doença. Entre as formas severas estava um grupo com grande resistência à insulina e um risco significativamente maior de problemas nos rins dos que as outras vítimas da doença, afetando de 11% a 17% dos pacientes (grupo 3), e um grupo relativamente jovem, com deficiência na produção de insulina e mau controle metabólico, mas sem anticorpos autoimunes, com uma prevalência entre 9% e 20% (grupo 2).

Já a terceira forma severa foi vista em um grupo que tinha deficiência de insulina e os anticorpos autoimunes, uma forma de diabetes anteriormente classificada como do tipo 1 e chamada de diabetes autoimune latente em adultos (Lada, na sigla em inglês), atingindo de 6% a 15% dos pacientes (grupo 1). Já a forma mais comum de diabetes mostrou ser uma das mais moderadas, vista principalmente em pacientes mais velhos, com uma prevalência entre 39% e 47% (grupo 5). Já o segundo tipo mais leve só foi observado em indivíduos obesos e afetou de 18% a 23% dos pacientes (grupo 4). Todos os cinco tipos também se mostraram geneticamente distintos, com nenhuma mutação associada a todas as variantes da doença. Este achado apoia a noção de que os cinco tipos são de fato diferentes, e não apenas estágios variados de uma mesma desordem.

Por fim, os pesquisadores analisaram os tipos de tratamentos dados a cada grupo de pacientes, mostrando que muitos não recebiam o tratamento apropriado. Por exemplo, só uma pequena proporção dos pacientes dos grupos 1 e 2 receberam insulina já no aparecimento da doença (42%, ou 212 de 506 pacientes; e 29%, ou 389 de 1.339 pacientes, respectivamente), sugerindo que a classificação tradicional do diabetes não é capaz de indicar o melhor tratamento para as características subjacentes da doença.

Os cientistas, porém, destacam algumas limitações de seu estudo, incluindo não ter sido capaz de confirmar que cada um dos cinco tipos tem causa diferente nem se a tipo de diabetes de um paciente pode mudar com o tempo. Além disso, a pesquisa envolveu apenas pacientes escandinavos, tendo ainda que ser confirmada com outras populações. Mas estudos também serão necessários para testar e refinar a classificação dos cinco tipos incluindo biomarcadores, genótipos, avaliações de risco genético, pressão sanguínea e gorduras no sangue.

O Globo

sexta-feira, 2 de março de 2018

Lean: a droga à base de codeína que tem aumentado número de mortes por overdose

Consumo contínuo da mistura de glicose , compostos químicos e refrigerante pode desencadear síndrome de abstinência
Reprodução/Twitter - Consumo contínuo da mistura de glicose , compostos
químicos e refrigerante pode desencadear síndrome de abstinência
Mistura de anestésico contra dores, antialérgico, refrigerante e balas de goma apresenta riscos fatais, além de desencadear problemas como hepatite, gastrite, hipertensão arterial, acidentes vasculares e infecções

Você já ouviu falar de "lean"? A bebida que mistura codeína , refrigerante e balas de goma tem se tornado cada vez mais popular entre jovens de diferentes países. Criada nos Estados Unidos, durante a cena do blues, em 1960, é também conhecida como purple drank , sizzurpe e syrup , e pode levar pessoas à síndrome de abstinência e até mesmo à morte.

No Brasil, o lean se tornou famoso em 2015, e vem ganhando potência por sua predominante aparição em clipes de trap norte-americanos, em que rappers aparecem com copos de isopor brancos cheios de gelo e, claro, a “bebida roxa”. Em sua composição, além da codeína, que é um derivado do ópio usado como anestésico contra dores moderadas e graves e em tratamentos oncológicos, usa-se prometazina, um antialérgico que aumenta o efeito de sedação.

De acordo com um levantamento realizado pelo site americano Motherboard , o consumo de purple drank chamou a atenção do governo dos EUA depois de registros numerosos de mortes por overdose. Segundo o relatório oficial da comissão presidencial, cerca de 142 pessoas vêm a óbito por dia devido ao uso de opioides, o que se igualaria à quantidade de mortos nos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 a cada três semanas.

História, efeitos e overdose
Apesar de ter sido desenvolvida no final dos anos 1960, em Houston, no estado americano do Texas, foi somente em 1990 que a bebida começou sua ascensão de fato, em paralelo com o crescimento da cultura hip hop e com as frequentes menções feitas pelo produtor musical DJ Screw, que morreu por overdose de codeína em 2000.

A coordenadora da Comissão de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria, Dra. Ana Cecília Marques, explica que a ingestão do purple drank pode causar diferentes efeitos, sendo o de bem-estar e relaxamento os mais comuns. Ela alerta que, se ingerido excessivamente, as sensações podem ser contrárias, levando o indivíduo a um sono profundo e até mesmo ao coma.

A médica ainda adverte que a junção do álcool com drogas derivadas do ópio pode aumentar esses efeitos, tornando-os fatais. “Se o uso for crônico, todos os sistemas do corpo são acometidos, o que pode gerar inflamações como hepatite, gastrite, colite, neurite, hipertensão arterial, acidentes vasculares e infecções de repetição, principalmente respiratórias”.

Outra questão levantada é o perigo do consumo de antibióticos, especialmente por causa das superbactérias, que enfraquecem o sistema imunológico e cessam a eficácia de tratamentos à base de medicamentos como esse. Para a nutróloga Ana Luisa Vivela, o syrup não desencadearia esse risco, sendo prejudicial ao organismo de cada pessoa de maneira particular.

Para ela, há chances de propagação de superbactérias em indivíduos que já estejam com infecções, mas que, no geral, o maior risco trazido pela “bebida roxa” está ligado a questões cardiovasculares. “Qualquer substância ingerida sem dosagem e prescrição médica pode ser nociva, principalmente para jovens e adolescentes que não sabem o que estão consumindo. A superbactéria geralmente é contraída em ambientes hospitalares, assim, para evitar este e outros problemas, o aconselhável é não ingerir codeína, que é muito perigosa por ser uma substância que se transforma em morfina”, alega.

O consumo contínuo da mistura de glicose e compostos químicos ainda pode provocar síndrome de abstinência, como já relatada pelo rapper Lil Wayne. Em entrevista a diferentes veículos americanos, o cantor de 35 anos diz passar mal se ficar um dia sem tomar sizzurp . "É como se você sentisse a morte no seu estômago quando para de usar", explica.

Em 2016, após ser hospitalizado e preso, o cantor americano Gucci Mane também veio a público alertar os jovens sobre o consumo da mistura. Em sua página do Twitter, ele disse: "Me arrependo muito! Tomo lean faz dez anos e tenho que admitir que isso me destruiu. Quero ser o primeiro rapper a assumir que é viciado e dizer que isso não é brincadeira. Eu mal consigo lembrar das coisas que fiz ou falei. Logo irei para reabilitação porque sei que preciso de ajuda”.

Outros casos que terminaram de forma ainda mais trágica são os de Pimp C e Big Moe, que faleceram em 2007 por overdose de codeína. O caso mais recente é o do rapper Fredo Santana, que morreu aos 27 anos no começo de 2018 pelo mesmo motivo.

É importante mencionar que não há estimativas concretas que evidenciem a quantidade de mortes causadas pela droga preparada com o pró-fármaco descendente da semente do ópio. Entretanto, alguns casos mostrados na mídia têm contribuído para que a vigilância acerca do medicamento seja maior.

“Álcool me deixa chato, prefiro lean”
A reportagem do iG conversou com jovens na faixa etária entre 18 e 24 anos, que não quiseram ser identificados e relataram ter experimentado a droga apenas por curiosidade, sem saber de seus efeitos colaterais. Um deles conta que "começou a ingerir codeína sem ao menos saber o que era", e que preferiu parar o uso "depois de saber se tratar de um sintético".

Já outro relata ter “improvisado” o drink com o xarope para tosse de sua avó quando ainda era criança, pois "queria imitar os rappers". Ele diz que, atualmente, a bebida lhe proporciona uma sensação de tranquilidade agradável, "muito diferente da despertada pelo álcool".

“Para mim, além de saboroso, o lean traz uma vibe boa, o que não acontece com o álcool, que também consumo frequentemente. Percebo que, com bebida alcoólica, eu fico chato e estressado, já o purple drank me faz relaxar e me ajuda a dormir, o que é bem difícil no cotidiano. Eu tenho consciência de que não é certo, mas eu tomo com moderação, sei que é perigoso”, conclui.

Fiscalização
No Brasil, a codeína é fiscalizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que a classifica como um entorpecente. Vendida apenas com receita médica especial, a Anvisa conta com a ajuda das autoridades de estados e municípios, ligadas às respectivas secretarias de saúde, para a realização do controle da substância, que, na atualidade, vem sendo burlado em diferentes regiões.

A falsificação de receitas e o tráfico da substância pelas redes sociais, por exemplo, se tornaram um agravante na supervisão realizada pelas autoridades. Em junho do ano passado, a Polícia Federal (PF) cumpriu dois mandados de busca e apreensão em uma investigação acerca do comércio ilegal de purple drank em Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina. Dois garotos foram apontados como suspeitos de produzir a droga em suas residências e vendê-la em uma rede social.

De acordo com a PF, pelo fato de a bebida ter a codeína como principal ingrediente, o caso foi considerado tráfico de entorpecentes, em que a pena pode chegar a 15 anos de prisão.

Para a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, a desinformação é um dos principais fatores que cercam a produção e o consumo do lean. O órgão expõe não existir tratamentos clínicos específicos, contudo, é importante que todos que necessitam de ajuda para problemas de dependência química busquem auxílio nas unidades regionais do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

iG

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Sob pressão de custos, companhias se unem para cortar gastos com saúde

Gestão de negócios para reduzir custos na sua oficinaOs custos com planos de saúde transformaram-se num pesadelo para as empresas. Na maioria delas, representa a segunda maior despesa com pessoal, perdendo apenas para a folha de pagamento. Em alguns casos, até mais

O descompasso entre aumentos de preços em geral e a chamada inflação médica começou em meados da década passada. Mas tornou-se mais perceptível a partir do controle inflacionário. Os reajustes nos planos de saúde equivalem hoje a duas a três vezes o índice do IPCA, segundo pesquisa feita no ano passado pela Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) e a Aliança para a saúde populacional (Asap).

Em conversas informais empresários perceberam que tal pressão de custos era comum a todos. Há seis meses, a ABRH e Asap – essa última representante de consultorias especializadas na gestão de saúde – criaram um fórum, que mensalmente reúne executivos para trocar experiências. As mais bem-sucedidas revelam empresas que incluíram a saúde dos empregados nos programas de gestão.

As empresas instaladas no Brasil arcam com dois terços do que se gasta com saúde no país, segundo dados da ABRH e Asap. Elaborada pela união das duas entidades, a pesquisa concluída no segundo semestre de 2017 envolveu 668 empresas que, juntas, têm 1,3 milhão de empregados e 3 milhões de beneficiados, incluindo dependentes. Um universo equivalente a quase 10% do total coberto pelos planos de saúde no país.

À pesquisa a maioria dos entrevistados respondeu que os reajustes de preços desses planos equivalem a, no mínimo, duas a três vezes a inflação e alguns garantiram que já arcaram com aumentos seis ou sete vezes acima do IPCA. “É como se a boca do jacaré não parasse de abrir”, diz o diretor de desenvolvimento de pessoas da ABRH Brasil, Luiz Edmundo Rosa. Segundo ele, o fórum reúne, por enquanto, 20 grandes grupos, entre os quais estão Itaú, Petrobras, Johnson & Johnson, Pirelli, Sherwin Williams e Natura. A união para cortar custos e incluir a saúde na estratégia empresarial provocou a necessidade de formar as equipes de recursos humanos. Em parceria com uma universidade cujo nome está em sigilo, em maio será lançado um curso de capacitação em gestão de saúde corporativa. “Antes, falávamos do problema para nós mesmos. Mas não adianta reclamar dos aumentos de preços e simplesmente delegar às operadoras o cuidado com os funcionários.

É preciso criar uma inteligência de saúde dentro da empresa”, diz a presidente da Asap, Ana Elisa Siqueira. Para Rosa, da ABRH, os empresários correm sérios riscos de não conseguir conter essa escalada de custos quando delegam a uma única pessoa a responsabilidade de gerir a segunda maior despesa da companhia. Mas muitos já se deram conta disso.

Desde outubro de 2016, a farmacêutica Biolab tem uma área interna criada pelas áreas de recursos humanos e financeira. Em parceria com uma consultoria, foram tomadas várias medidas. Uma delas consiste em fazer uma análise de todos os pedidos de procedimentos médicos e exames dos seus 6,9 mil funcionários. Às 6h da manhã, diariamente, a superintendente de RH, Luciana Lourenço, recebe uma lista dos pedidos que envolvem as principais especialidades, como ortopedia e cardiologia.

Na triagem, médicos que trabalham para a empresa podem ser acionados para dar uma segunda opinião. Mas, segundo Luciana, o sucesso desse tipo de ação depende da confiança do trabalhador na empresa. A Biolab fez parceria com o Serviço Social da Indústria (Sesi) para oferecer exames em clínicas ambulantes, que estacionam nos pátios das fábricas do grupo. E acompanha todas as internações.

Bosch criou um comitê que trabalha na saúde como se fosse desenvolver um novo produto da companhia.

Os resultados são gratificantes. Luciana acompanhou toda a recuperação do filho de um funcionário do Espírito Santo. O garoto ficou órfão depois de um acidente em que os pais morreram e ele ficou gravemente ferido. "No modelo antigo eu não conseguiria interferir; só saberia o que aconteceu quando recebesse o relatório do tempo que ele passou na UTI", diz.

As grandes empresas têm trocado planos pré-pagos por pós-pagos, nos quais só se paga quando usa. "O risco de fazer essa troca sem, paralelamente, criar um programa de gestão é como deixar o carro sem seguro estacionado numa rua escura", diz Luciana.

Com as duas ações, em um ano a Biolab reduziu os custos com plano de saúde em 30%. "Pagamos hoje, por beneficiado, o equivalente ao valor de três anos atrás", diz o diretor financeiro, Alexandre Iglesias. "Se as empresas não assumirem essa gestão terão que arcar com uma despesa impagável".

A preocupação dos empresários com os custos com planos de saúde não afeta apenas o Brasil. Conforme noticiado na edição de ontem do Valor, três gigantes americanas - Amazon, Berkshire Hathway e JP Morgan - uniram-se para criar uma empresa sem fins lucrativos para conter gastos com os planos de saúde de seus quase 1 milhão de funcionários.

Com 8,5 mil funcionários e 24 mil vidas, incluindo dependentes, a Bosch decidiu enxugar a estrutura de convênios ao perceber que o "crescimento desse custo estava desproporcional", diz o diretor de Recursos Humanos, Fernando Tourinho. "Nada sobre 20% a 22% ao ano." Também na Bosch, o custo com saúde representa a segunda maior despesa com pessoal. Há quatro anos, o número de operadoras foi reduzido de oito para três e a quantidade de planos caiu de 27 para sete.

Mas a ação que mais orgulha Tourinho foi a criação de um comitê interno que envolve gestores de RH, médicos internos e funcionários de outras áreas. Segundo o executivo, a ideia é fazer com a saúde o que um grupo de trabalho faria se tivesse que lançar um novo produto da Bosch. "Se sabemos desenvolver a inteligência artificial de um automóvel temos a obrigação de saber fazer o mesmo com a vida das nossas pessoas", destaca.

Parcerias com consultorias, Sesi e um trabalho de revisão do cardápio das fábricas para oferecer alimentos mais saudáveis e reduzir o nível do sal também fazem parte da mudança de conceito sobre saúde na Bosch. Esse esforço ajudou a cortar custos. Mas Tourinho não revela números. Segundo ele, vale mais a qualidade atingida.

O presidente do Grupo Fleury, Carlos Marinelli, defende a integração entre as operadoras, planos de saúde e hospitais. "Não temos bala de prata para resolver os problemas. Este é um setor complexo e que tem incentivos cruzados, difíceis de serem resolvidos, principalmente por ser uma área muito politizada", diz.

Nessa mudança de modelo, começa a mudar também o perfil do exame ocupacional. Os médicos que prestam esse serviço abriram o jogo e contaram à equipe da Bosch que no exame ocupacional eles não têm tempo de "ser médicos". "Se um operário me diz que está com gastrite, não dá tempo de examiná-lo", contou um deles. Para eliminar a parte das perguntas, a empresa implantou um software que leva ao médico o prontuário do funcionário antes de ele entrar na sala.

Já faz mais de oito anos que a prevenção entrou na agenda da General Electric . Com a ajuda de consultores, foi implementado um forte programa de combate ao tabagismo, sedentarismo e obesidade. Com convênios com seis operadoras, a empresa também trocou o plano pré-pago pelo pós-pago. A conduta mudou os hábitos de 33 mil vidas espalhadas pelo país, segundo a GE, que diz assistir, silenciosamente, à transformação nas pessoas e suas escolhas.