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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O sonho da fertilização e o pesadelo da laqueadura

Conheça a mulher que reúne na mesma história os dois métodos extremos da concepção

Lucilene de Medeiros Silva tinha só 21 anos, uma única filha e toda a vida pela frente quando ingressou nas estatísticas de mulheres esterilizadas do Brasil. Aos 32, integrou o grupo de pessoas que tentam, via fertilização in vitro, realizar o sonho da maternidade.

A história da paciente que reúne duas ocorrências extremas da maternidade ajuda a explicar os caminhos inversos percorridos por quem se submete a essas técnicas. Enquanto a laqueadura – cirurgia que liga as trompas e impede as possibilidades de ter filhos – está em queda no País, a busca por técnicas de reprodução assistida, especialmente a inseminação artificial, cresce a passos largos.

A primeira deixa de ser tão comum no cenário de saúde por conta da maior autonomia das pacientes, dos novos casamentos que mudam a estrutura familiar (e trazem de volta a vontade de ter filhos) e também pelo avanço da qualidade de outros métodos contraceptivos não definitivos, como a pílula e o DIU.

Já a reprodução assistida está mais popular não apenas porque as mulheres estão adiando a maternidade – a idade tem um papel importante na dificuldade de engravidar – mas por causa da crescente redução nos custos dessas técnicas, fato que permitiu o crescimento do acesso da classe média às clínicas da área.

Lucilene morava em Pernambuco quando diz ter feito a laqueadura que sequer desejou. “Foi uma imposição médica”, conta ela, “sem respaldo científico nenhum”, descobriu depois. Já para entrar nos números da inseminação artificial, ela reprogramou todo seu cotidiano. Mudou-se para São Paulo e tem economizado do salário que ganha como chefe de seção de serviço de uma empresa para custear o tratamento para engravidar. “A gente deixa de fazer coisas que gosta, mas tenho fé que vai dar certo”, diz.

250 reais
O sonho e o pesadelo vivido no capítulo "maternidade" da vida de Lucilene começou no primeiro casamento, com um primeiro filho e um pré-natal cheio de cuidados. Enquanto Mariana esteve na barriga de Lucilene, não deu trabalho algum. A gravidez foi tranquila e a cesariana, feita em 2001, em um hospital público do Recife, também. Deve ser por isso, lembra, que nem bem tinha dado à luz e Lucilene já queria passar pela experiência por uma segunda vez. Foi então que o médico, o mesmo que trouxe a sua primogênita ao mundo, disse que os planos precisavam mudar.

“Ele me disse que a melhor alternativa era ligar as trompas. A explicação dada era de que meu sangue (O negativo) era raro e que eu poderia morrer se tivesse um outro filho. O jeito era marcar a laqueadura rápido.”

No mês seguinte ela estava na mesa de cirurgia. Não tinha acesso a opiniões de outros médicos e agora tinha medo de morrer, afinal Mariana não podia ficar sem mãe. “Acreditei nele e fiz aquela operação que tanto me machucava por dentro. Depois descobri que não tinha nada que impedisse uma outra gravidez, nenhuma doença, nenhum problema, nada foi comprovado”, diz.

“É duro pensar”, afirma Lucilene, “mas acho que o doutor só queria os R$ 250 que cobrou para me deixar estéril.”

Método em desuso
A laqueadura é um método contraceptivo definitivo em queda no País. Segundo os estudos feitos pelo IBGE em 1996, 40,1% das mulheres entre 15 e 44 anos que viviam com um companheiro haviam sido esterilizadas. A proporção cai para 29% em 2006 (último ano estudado).

A análise do Cedeplar – instituição de estudos de estatísticas ligada à Universidade Federal de Minas Gerais – é de esse tipo de cirurgia ainda se concentra mais no público sem instrução e de baixa renda. A maior dificuldade dessa população para conversar com os médicos e entender o alcance de uma operação que, de forma definitiva, vai impedir uma gestação, pode estar por trás do maior índice de arrependimento deste grupo.

De acordo com o Cedeplar, 19% das mulheres laqueadas e sem escolaridade ficam arrependidas após a operação, parcela que cai para 12% entre as com mais de 8 anos de estudo. “Sem contar que o desejo atual de não ter mais filhos não é imutável”, afirma Magnólia Pereira dos Santos, diretora da Sociedade Brasileira de Ginecologia da Bahia (Sogiba).

Magnólia afirma que, com os novos rearranjos familiares, os novos casamentos e a possibilidade da maternidade tardia, as mulheres acabam esbarrando na vontade de ter filho depois que já fizeram a laquedura.

“Existem outros métodos contraceptivos (como a pílula anticoncepcional, o DIU e a camisinha) que não são definitivos e mais indicados para as mulheres que não correm risco de morrer em uma outra gestação”, explica a médica.

“Reverter uma laqueadura é muito mais difícil do que fazer o procedimento. O ônus financeiro e psicológico para a mulher também é muito maior.”

Lucilene, que desde o princípio não se importaria de ter tomado pílulas anticoncepcionais até, de fato, desejar um irmão para Mariana, tinha agora uma outra razão para lamentar a sua “laqueadura compulsória”. O primeiro casamento havia chegado ao fim, um novo amor já tinha surgido, e a vontade de ampliar a família também ficou mais forte.

Pratos limpos
Em 1997, o Conselho Federal de Medicina (CFM) determinou algumas regras para a realização de laqueaduras no País. As normas diziam que mulher precisa ter mais de 25 anos, dois filhos e um companheiro estável para poder receber a técnica contraceptiva definitiva.

Depois da decisão tomada, é preciso esperar 60 dias para ser realizada a cirurgia, tempo de reflexão para o casal maturar a ideia. Além disso, todo o processo de conversa entre o médico e a paciente precisa ser registrado no prontuário clínico, para não dar margem a interpretações equivocadas nem por parte do médico nem por parte da mulher.

Este ano, o código de ética médica foi revisto pelo CFM e todas as etapas da laqueadura foram reforçadas como necessárias. O presidente da comissão de anticoncepção da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Rogério Banasse Machado, afirma que algumas partes deste processo para a cirurgia, entretanto, acabam negligenciadas.

“Diminuir o número de laqueaduras no Brasil não é tão importante como reduzir a quantidade de cesáreas, mas existem algumas falhas na condução da laqueadura”, afirma.

O registro no prontuário médico, por exemplo, Machado diz que nem sempre é feito, “por uma mistura de falta de conversa esclarecida entre médico e paciente e também por falhas no preenchimento padrão das fichas”.

“Um método definitivo precisa ser ponderado, já que existem outras opções seguras de prevenção à gravidez como pílula e DIU. Mas, por vezes, quando a mulher corre riscos (hipertensão muito grave, por exemplo) a laqueadura acaba indicada”, explica.

É verdade que nenhum desses passos exigidos para a realização da “ligadura das trompas” foi percorrido pelo médico de Lucilene. Ela já pensou em processá-lo, mas diz ter pouca informação sobre o especialista. Não procurou os conselhos regionais de medicina, entidades que podem julgar se o profissional foi negligente ou não. “Neste tempo todo, eu pensei mais em arrumar a minha vida. Não foquei em processo ou justiça.”

Alternativas
Em 2006, Lucilene arrumou as malas, pegou Mariana no colo, deixou Recife e foi morar em São Paulo. Logo conseguiu emprego, melhorou as condições de vida e se permitiu sonhar com uma nova gestação. Foi tentar o irmão de sua filha que já estava cansada de ser única na clínica de fertilização Engravida. A diretora da clínica, a médica Ana Lúcia Beltrame, afirma que casos como o de Lucilene não são exceções.

“Das pacientes que nos procuram de fora do Estado, temos uma participação muito importante de mulheres que foram submetidas à laqueadura, muitas vezes sem nem saber o que é esse procedimento, e querem ser mães. Esse alerta precisa ser feito”, acredita Beltrame.

Nem toda a laqueadura não mais desejada precisa ser revertida com fertilização in vitro, mas em alguns casos essa é a única alternativa possível. Da mesma forma, nem todos os casais com dificuldades para engravidar devem recorrer à inseminação. Os especialistas fazem coro ao dizer que essa é a última opção. Antes é preciso passar por testes e ver se nenhuma outra doença fácil de ser corrigida, como varicocele no caso dos homens, não é o que impede a concepção.

Desta vez, Lucilene não podia errar nos trâmites médicos. Fez todos os exames e a fertilização é mesmo o único caminho. “Eu e minha família estamos economizando bastante para custear o tratamento. Não estamos mais saindo tanto de casa. A Mariana, coitada, tem aberto mão de roupas novas, mas tenho muita esperança de que vou engravidar.”

Fertilização mais acessível
Os médicos especializados em reprodução humana estão em um processo de facilitar a fertilização para pessoas que não têm renda tão elevada. Um dos exemplos é o programa Acesso, a reunião de mais de 20 clínicas de todo País com a proposta de oferecer descontos e facilidade de pagamento para os interessados que não têm renda mensal superior a R$ 3.800.

Lucilene já começou o tratamento. A mulher que já fez parte das estatísticas da laqueadura e agora da inseminação, quer entrar para o grupo de 50% das submetidas ao tratamento que, enfim, conseguem engravidar.

Fonte Delas

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