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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A degradação da medicina

Por Luiz Roberto Londres*
 
Minha formatura na então Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil deu-se no ano de 1965. Naquela época, o Estado do Rio de Janeiro tinha apenas quatro escolas médicas: a minha, a Ciências Médicas – hoje UERJ, a Medicina e Cirurgia – hoje UNIRIO e a Fluminense – hoje UFF. Todas eram escolas públicas reconhecidas pelo seu corpo docente, pela excelência do ensino, pelo enriquecimento do conhecimento de seus alunos. Seus mestres eram profissionais de renome, mas que colocavam a missão do ensino na frente dos atendimentos dos pacientes particulares. E além do ensino, muitos se dedicavam à pesquisa científica sem outros interesses que não descobertas que trouxessem benefícios aos seres humanos.
 
Hoje o estado do Rio de Janeiro tem 17 escolas de Medicina: as quatro públicas que existiam na época da minha formatura e 13 escolas particulares que visam lucro; lucro esse que não pode ser comprometido pelo ensino. Com a progressão das escolas particulares houve uma regressão do ensino médico. E isso acontece também nas escolas públicas pela inação do Estado em suas diversas instancias. Os médicos, aos poucos, foram escolhendo privilegiar a clientela do consultório e prestando menos atenção ao corpo discente das escolas.
 
O Brasil é o segundo país do mundo em número de escolas médicas, com 183, só perdendo para a Índia, com 272. Temos mais escolas do que a China, a Rússia e mesmo os Estados Unidos, todos eles com uma população bem maior que a nossa. Falam de falta de médicos, mas o que acontece é a concentração de profissionais que superlotam alguns municípios enquanto outros não têm nem um médico. Os Estados Unidos com 136 têm 2,33 habitantes por escola enquanto o Brasil tem apenas 1,06 milhão.
 
Além de mal distribuídos os médicos são cada vez mais mal formados. Não mais lhes ensinam a reflexão sobre os dados colhidos, mesmo que esses sejam pontuais. Ao invés da reflexão eles se limitam a um ato reflexo que geralmente se converte em pedido de exame não mais para confirmar ou não hipóteses diagnósticas, mas para fazer o diagnóstico, ou mesmo a prescrição de medicamentos, tantas vezes desnecessários.
 
A Medicina está deixando de ser uma atividade intelectual com cunho social e humanitário para ser o simples cumprimento de um trabalho mecânico e desinteressante. A sua missão, o atendimento, o conforto, o tratamento, a cura ou o simples acompanhamento daqueles que necessitam perdem o espaço para o pensamento do médico em si e em suas obrigações.
 
Na atualidade, através de perguntas avulsas e não em questionários preparados, vemos que na escolha da especialidade que querem abraçar, o que conta são aquelas que oferecerão ao candidato a melhor remuneração. O esvaziamento de segmentos como a pediatria, a obstetrícia e mesmo a clínica geral, mostram isso. Por outro lado cresce a procura das especialidades que, mesmo à custa da boa prática médica, estejam prometendo melhor remuneração.
 
Dois são os campos em que vemos serem exercidas as preferências dos atuais estudantes: os exames complementares, com maior incidência nos exames de imagem e a especialidade de ortopedia e cardiologia. Naquelas crescem os pedidos em função da falta de uma anamnese e de um exame físico adequados, com uma crescente proporção de exames normais (em algum lugar chega a 60%).
Pedomorfose: esse é um termo que aprendi há muito tempo em um livro de Arthur Koestler. Significa a mutação de uma espécie através das alterações de suas formas larvares. E acho que isso se aplica à Medicina. Dificilmente poderemos corrigir o seu curso desviado de suas missões se não nos ocuparmos com as escolas médicas em seus currículos e suas finalidades. A Medicina de amanhã se refletirá na formação dos estudantes de hoje.
 
*Luiz Roberto é médico e Diretor da Clínica São Vicente
 
Fonte SaudeWeb

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