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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Parar de fumar ajuda a controlar a ansiedade

No Dia Nacional de Combate ao Fumo, a psiquiatra Analice Gigliotti desmistifica a crença de que o tabaco acalma 

Rio - No Dia Nacional de Combate ao Fumo, nesta sexta-feira, a psiquiatra e diretora do Espaço Clif, Analice Gigliotti, comenta as consequências do tabaco na saúde mental. Na clínica de dependência química, em Botafogo, na zona Sul do Rio, 45% dos internados até hoje fumavam. Entre os pacientes psiquiátricos, 33% fumavam.

De acordo com o último relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado no ano passado, o cigarro é o causador de seis milhões de mortes no mundo por ano, a maioria em países de baixa e média renda. O documento mostra ainda, que, se essa tendência se mantiver, o número de mortes ligadas ao fumo deve aumentar para oito milhões ao ano em 2030, e 80% desses óbitos deverão acontecer nos países mais pobres.

Além disso, no século XX, o cigarro teria causado a morte de mais de 100 milhões de pessoas, segundo estimativa do relatório Global Tobacco Epidemic 2013 (Epidemia Global do Tabaco 2013).  

Como que a saúde mental pode melhorar depois que uma pessoa para de fumar, já que se acredita que o cigarro diminui a ansiedade?
Parar de fumar diminui a ansiedade. O estudo “Mudança na saúde mental após a cessação do tabagismo: revisão sistemática e meta-análise” publicado em fevereiro deste ano na “British Medical Journal” evidenciou que os índices de ansiedade e de depressão diminuem, embora as pessoas achem que o cigarro deixa menos ansioso. A síndrome de abstinência de nicotina aumenta a ansiedade. A nicotina fica no organismo da pessoa durante duas horas. Quando os níveis plasmáticos da nicotina vão caindo, a pessoa começa a sentir falta da substância e sente que tem que fumar de novo. Ou seja, a falta da nicotina aumenta a ansiedade.   

As pessoas que não estão com uma boa saúde mental têm mais tendência em procurar o cigarro?
Com certeza. Existe uma prevalência maior de tabagismo de pessoas com transtorno mental. Existem várias teorias para explicar isso. Por exemplo, de que seria uma coisa secundária. Isto é, a pessoa está depressiva usa o cigarro como antidepressivo. Se está ansiosa, usa para diminuir a ansiedade. Mas é importante ressaltar também que o cigarro aumenta a vulnerabilidade aos transtornos mentais. O tabagismo precoce aumenta as chances de a pessoa ter esquizofrenia, depressão. Perturba o cérebro, já que é uma droga que entra em contato com o cérebro.

Por que pacientes dependentes de outras drogas acabam também fumando cigarro?
Existem várias teorias que explicam isso. Existem questões de neuroquímica. Algumas vezes o que existe é que uma droga aumenta o reforço positivo da outra. Por exemplo, fumar enquanto bebe aumenta o prazer de fumar e vice-versa. Da mesma forma que fumar cigarro aumenta o prazer quando fuma maconha ou quando cheira cocaína. Isso é uma coisa de reforço positivo conjunto. Outro fator é que algumas situações, alguns ambientes desencadeiam o desejo de uma droga, que acabam desencadeando o desejo de outra. Algumas situações que são permissivas a uma droga são permissivas para outra. Uma pessoa que fuma maconha, fuma cigarro muito mais frequentemente. Ambas são drogas fumadas, ou seja, é a mesma via de entrada. É muito comum também o cigarro ser uma porta de entrada. O fumante de cigarro tem três vezes mais chance de fumar maconha, e vice-versa.

Parar de fumar pode ajudar uma pessoa na recuperação de outra dependência química?
Sim. É difícil você largar as drogas se não for conjuntamente. As situações que você usa uma droga normalmente são as mesmas situações que você usa outra droga. É comum pessoas beberem e fumarem ao mesmo tempo. Os locais onde se bebe e onde se fuma são os mesmos. A outra é que a nicotina fica estimulando os mesmos centros de recompensa das outras drogas.

Algumas pessoas começam a fumar mesmo tendo casos na família de morte pelo tabaco, algo que normalmente traria algum trauma. Existe alguma explicação psicológica para isso?
Normalmente, se começa a fumar na adolescência. Adolescente não pensa muito em consequência futura. Isso é coisa típica da idade. Biologicamente não estão preparados para medicar riscos da atitude. Os pais têm que guiar, e a melhor forma de fazer isso é dar exemplo, não usando nenhuma substância psicoativa. Não devemos banalizar o consumo das drogas. A coisa mais importante é conversar com o filho sobre isso. Não de uma maneira professoral, mas com um tom próximo.

Há muitos casos também de pessoas que conseguem parar de fumar e depois de um tempo voltam. Isso ocorre normalmente por que?
A dependência de droga é uma doença crônica que está susceptível a recaídas. Um paciente dependente de qualquer droga provavelmente vai ter recaída. Situações de maior estresse como morte ou coisa mais grave podem desencadear essa vontade de consumir a droga novamente.

O Globo

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