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terça-feira, 19 de julho de 2011

Bulimia

Definição

A bulimia é uma doença na qual uma pessoa exagera na ingestão de alimentos ou tem episódios regulares em que come em excesso de maneira significativa e sente perda de controle. Dessa forma, a pessoa afetada usa vários métodos, como vômitos ou abuso de laxantes, para impedir o ganho de peso.
Muitas pessoas (não todas) com bulimia também têm anorexia nervosa.

Causas, incidência e fatores de risco

Muito mais mulheres do que homens têm bulimia, e o distúrbio é mais comum em meninas adolescentes do que em adultas jovens. A pessoa afetada geralmente está consciente de que seu padrão de alimentação é anormal e pode sentir medo ou ter sentimento de culpa associado aos episódios de comportamento bulímico.

A causa exata da bulimia é desconhecida. Fatores genéticos, psicológicos, traumáticos, familiares, sociais ou culturais podem contribuir para seu desenvolvimento. A bulimia provavelmente ocorre devido a mais de um fator.

Sintomas

Na bulimia, excessos na alimentação podem ocorrer até várias vezes por dia durante vários meses.
Em geral, pessoas com bulimia comem grandes quantidades de alimentos altamente calóricos, normalmente em segredo. A pessoa geralmente não tem controle sobre sua alimentação durante esses episódios.

Esses excessos na dieta causam uma sensação de desgosto por si mesmo, o que leva ao que é chamado purgação para impedir o ganho de peso. A purgação pode incluir: vômito autoinduzido, exercícios excessivos e uso de laxantes, enemas ou diuréticos. A purgação frequentemente traz uma sensação de alívio.

O peso corpóreo está geralmente na faixa normal, embora as pessoas com bulimia frequentemente se vejam com excesso de peso. Como o peso muitas vezes está normal, este distúrbio de alimentação pode não ser notado por outros.

Os sintomas ou comportamentos que podem ser observados incluem:
  • Exercícios compulsivos
  • Evidência de embalagens descartadas de laxantes, comprimidos para perda de peso, eméticos (medicamentos que provocam vômito) ou diuréticos (drogas que reduzem os líquidos)
  • Ir regularmente ao banheiro logo após as refeições
  • Comer rapidamente grandes quantidades de alimento que desaparecem imediatamente

Exames e testes

Foto: ADAM
Os órgãos gastrointestinais superiores incluem a boca, o esôfago e o estômago

Um exame dentário pode mostrar cáries dentárias ou infecções na gengiva (como gengivite). O esmalte dos dentes pode estar corroído ou furado devido à exposição excessiva ao ácido contido no vômito.

Um exame físico também pode revelar:
  • Vasos sanguíneos rompidos nos olhos (do esforço para vomitar)
  • Boca seca
  • Aparência em forma de bolsa nos cantos da boca devido às glândulas salivares inchadas
  • Erupções e espinhas
  • Pequenos cortes e calos na parte superior das articulações dos dedos das mãos devido ao vômito autoinduzido
O teste Chem-20 pode mostrar um desequilíbrio eletrolítico (como hipocalemia) ou desidratação.

Tratamento

Pessoas com bulimia raramente precisam ser hospitalizadas, exceto sob as seguintes circunstâncias:
  • Quando os ciclos de comportamento bulímico levaram à anorexia
  • Quando forem necessários medicamentos para a retirada da purgação
  • Quando uma grande depressão estiver presente
Com mais frequência, uma abordagem passo a passo é adotada para pacientes com bulimia.

Esta abordagem segue estágios específicos, dependendo da gravidade da bulimia e da resposta da pessoa aos tratamentos:
  • Grupos de apoio podem ser úteis para pacientes com condições brandas que não têm nenhum problema de saúde
  • A terapia cognitivo-comportamental (TCC) e a terapia nutricional são os melhores tratamentos para bulimia que não responde a grupos de apoio
  • As drogas usadas para bulimia geralmente são antidepressivos conhecidos como inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRSs). Uma combinação de TCC e ISRSs é muito eficiente se a TCC não for eficaz sozinha
Os pacientes podem desistir dos programas se tiverem expectativas não realistas de serem "curados" somente com terapia.

Antes do início de um programa, deve-se esclarecer o seguinte:
  • Várias terapias provavelmente serão tentadas até o paciente conseguir superar este distúrbio grave
  • É comum a bulimia retornar (recaída), mas isso não é motivo para desespero
  • O processo é doloroso e exige trabalho árduo da parte do paciente e de sua família

Grupos de apoio

Grupos de autoajuda como os Comedores Compulsivos Anônimos podem ajudar algumas pessoas com bulimia. A American Anorexia/Bulimia Association é uma fonte de informações sobre esse distúrbio.
Consulte: Distúrbios alimentares – grupo de apoio

Evolução (prognóstico)

A bulimia é uma doença crônica, e várias pessoas continuam tendo alguns sintomas apesar do tratamento. Pessoas com menos complicações médicas de bulimia, e que têm vontade e podem participar da terapia, tendem a ter uma chance melhor de recuperação.

Complicações

A bulimia pode ser perigosa e levar a complicações médicas graves ao longo do tempo. Por exemplo, os vômitos frequentes colocam ácido gástrico no esôfago (o tubo que liga a boca ao estômago) que pode lesar permanentemente esta área.

Possíveis complicações incluem:

Ligando para o médico

Marque uma consulta com o médico se você (ou seu filho) apresentar sintomas de um distúrbio alimentar.

Prevenção

Menos ênfase social e cultural sobre a perfeição física pode eventualmente ajudar a reduzir a frequência desse distúrbio.

Fonte IG

Anorexia nervosa

Definição

A anorexia nervosa é um distúrbio alimentar que envolve a incapacidade de ficar no peso corporal mínimo considerado saudável para a idade e altura da pessoa. Calcule seu IMC.

Pessoas com este distúrbio podem ter um medo intenso de ganhar peso, mesmo quando estão abaixo do peso normal. Elas podem usar dietas extremas, exercícios excessivos ou outros métodos para perder peso.
Consulte também:

Causas, incidência e fatores de risco

As causas exatas da anorexia nervosa são desconhecidas. Vários fatores provavelmente estão envolvidos. Genética e hormônios podem desempenhar um papel no seu desenvolvimento. Atitudes sociais que promovem de maneira irreal tipos de corpos magros também podem contribuir.
Cada vez mais, há evidências de que conflitos na família não contribuem para este ou outros distúrbios alimentares. A maioria das organizações de saúde mental deixou de apoiar essa teoria.

Os fatores de risco incluem:
  • Ser perfeccionista
  • Sentir aumento na preocupação ou atenção com o peso e a forma
  • Ter problemas alimentares e digestivos na primeira infância
  • Ter mãe ou pai com anorexia ou vícios
  • Ter pais que estejam preocupados com peso e perda de peso
  • Ter autoimagem negativa ou alto nível de sentimentos negativos em geral
  • Passar por uma alteração estressante na vida, como um novo emprego ou mudança, ou eventos como estupro ou abuso
A anorexia geralmente começa na adolescência ou na fase adulta jovem. É mais comum em mulheres, mas também pode ser vista em homens. O distúrbio é observado principalmente em mulheres brancas com escolaridade alta e que têm família ou personalidade focadas em objetivos.

Sintomas

Para ser diagnosticada com anorexia, uma pessoa deve:
  • Ter medo enorme de ganhar peso ou ficar gorda, mesmo quando estão abaixo do peso normal
  • Recusar-se a manter o peso no que é considerado normal ou aceitável para sua idade e altura (15% ou mais abaixo do peso esperado)
  • Ter uma imagem corporal muito distorcida, ser muito focada no peso ou na forma corporal, e recusar a admitir ou reconhecer a gravidade da perda de peso
  • Não ter tido períodos menstruais por três ou mais ciclos (em mulheres)
As pessoas com anorexia podem limitar gravemente a quantidade de comida que ingerem e depois provocar vômitos.

Outros comportamentos incluem:
  • Cortar a comida em pequenos pedaços ou movê-los no prato em vez de comê-los
  • Exercitar-se o tempo todo, mesmo quando o tempo está ruim, machucar-se ou manter-se ocupado todo o tempo
  • Ir ao banheiro imediatamente após as refeições
  • Recusar-se a comer perto de outras pessoas
  • Usar comprimidos para urinar (diuréticos), evacuar (enemas e laxantes) ou para reduzir o apetite (comprimidos dietéticos)
Outros sintomas de anorexia podem incluir:
  • Pele manchada ou amarelada, seca e coberta por pelos finos
  • Pensamento confuso ou lento, junto com memória ou julgamento deficientes
  • Depressão
  • Boca seca
  • Extrema sensibilidade ao frio (vestir várias camadas de roupas para ficar aquecido)
  • Perda de resistência dos ossos
  • Desgaste dos músculos e perda de gordura corporal

Exames e testes

Outras causas de perda de peso ou atrofia muscular devem ser descartadas com exames médicos.

Exemplos de outras condições que possam causar esses sintomas incluem:
  • Doença de Addison
  • Doença celíaca
  • Doença inflamatória intestinal
Os exames devem ser feitos para ajudar a determinar a causa da perda de peso ou qual dano a perda de peso causou. Vários desses testes serão repetidos ao longo do tempo para monitorar o paciente.

Esses exames podem incluir:

Tratamento

Foto: ADAM
Pirâmide de alimentos

O maior desafio no tratamento da anorexia nervosa é fazer a pessoa reconhecer que tem uma doença. A maioria das pessoas com anorexia nervosa nega que tem um distúrbio alimentar. Em geral, os indivíduos somente começam um tratamento quando a doença está bastante avançada.

Os objetivos do tratamento são, primeiro, recuperar o peso corporal e os hábitos alimentares normais. Um ganho de peso de 0,5 a 1,4 kg por semana é considerado um objetivo seguro.

Vários programas diferentes foram desenvolvidos para tratar da anorexia. Algumas vezes, o ganho de peso é alcançado usando-se programas para alimentação, atividade física menor e maior atividade social, para pacientes internados e externos. Vários pacientes começam com uma permanência curta no hospital para acompanhamento com um programa de tratamento diário.

Os médicos que geralmente estão envolvidos nesses programas incluem profissionais de enfermagem, médicos, um nutricionista e psicólogos.

O tratamento é normalmente muito desafiador e requer trabalho árduo pelos pacientes e suas famílias. É possível que várias terapias sejam tentadas até que o paciente tenha sucesso em superar este distúrbio.

Os pacientes podem desistir dos programas se tiverem expectativas não realistas de serem "curados" somente com a terapia.

Embora uma permanência curta no hospital seja um modo comum de iniciar o tratamento, uma permanência mais longa pode ser necessária se:
  • A pessoa tiver perdido muito peso, como estar abaixo de 70% do seu peso corporal ideal para sua idade e altura. A subnutrição for grave e colocar a vida em risco, podendo exigir alimentação através de veia ou tubo de alimentação no estômago
  • A perda de peso continuar apesar do tratamento
  • Surgirem complicações médicas, como problemas cardíacos, confusão ou desenvolvimento de níveis baixos de potássio
  • A pessoa tiver depressão grave ou pensar em cometer suicídio
Diferentes tipos de psicoterapias são usados para tratar de pessoas com anorexia:
  • Terapia comportamental cognitiva individual, terapia de grupo e terapia familiar são todas bem-sucedidas
  • O objetivo da terapia é mudar os pensamentos ou o comportamento de um paciente para encorajá-lo a comer de maneira mais saudável. Esse tipo de terapia é mais útil para tratamentos de pacientes mais jovens que não tiveram anorexia por muito tempo
  • Se o paciente for jovem, a terapia pode envolver toda a família. Abordagens mais novas veem a família como parte da solução, em vez da causa do distúrbio alimentar
  • Grupos de apoio também podem fazer parte do tratamento. Em grupos de apoio, pacientes e familiares se encontram e compartilham aquilo pelo que passam
Medicamentos, como antidepressivos, antipsicóticos e estabilizadores de humor, podem ajudar alguns pacientes anoréxicos quando ministrados como parte de um programa de tratamento completo. Por exemplo: olanzapina, inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRSs) e antidepressivos. Esses medicamentos podem ajudar a tratar a depressão ou a ansiedade.

Embora essas drogas possam ajudar, nenhum medicamento foi comprovado para reduzir o desejo de perder peso.

Grupos de apoio

Consulte: Distúrbios alimentares – grupo de apoio

Evolução (prognóstico)

A anorexia nervosa é uma condição médica grave e potencialmente fatal. Em algumas estimativas, ela leva à morte em 10% dos casos. Programas de tratamento experimentados têm uma boa taxa de êxito na recuperação do peso normal, mas é comum a doença retornar.
Mulheres que desenvolvem este distúrbio alimentar em idade precoce têm melhor chance de recuperação completa. No entanto, a maioria das pessoas com anorexia continuará preferindo um peso corporal mais baixo e estará preocupada com alimentos e calorias de uma certa forma. O controle do peso pode ser difícil, e um tratamento prolongado pode ser necessário para ajudar a manutenção de um peso corporal saudável.

Complicações

As complicações podem ser graves. Uma permanência no hospital pode ser necessária.

As complicações podem incluir:
  • Inchaço
  • Enfraquecimento dos ossos
  • Desequilíbrio eletrolítico (como níveis baixos de potássio)
  • Arritmias cardíacas perigosas
  • Redução de glóbulos brancos que leva a maior risco de infecção
  • Desidratação grave
  • Má nutrição grave
  • Convulsões devido à perda de líquidos como resultado de diarreia ou vômitos excessivos
  • Problemas na glândula tireoide, que podem levar à intolerância ao frio e à constipação
  • Cáries dentárias e queda de dentes

Ligando para o médico

Converse com seu médico se uma pessoa próxima a você estiver:
  • Excessivamente preocupada com o peso
  • Exercitando-se em excesso
  • Restringindo a ingestão de alimento
  • Gravemente abaixo do peso ideal
Obter ajuda médica precoce pode reduzir a gravidade de um distúrbio alimentar.

Prevenção

Em alguns casos, a prevenção pode não ser possível. Encorajar atitudes saudáveis e realistas em relação ao peso e à dieta podem ajudar. Algumas vezes, a psicoterapia pode ajudar.

Fonte IG

Transtornos alimentares aumentam risco de morte

Índice de mortalidade foi superior entre pacientes anoréxicos em torno dos 20 anos, segundo estudo
Foto: Getty Images Ampliar
Transtornos alimentares predispõe à morte

Pesquisadores ingleses analisaram 36 estudos, publicados entre janeiro de 2006 e setembro de 2010, sobre a anorexia nervosa, a bulimia e outros transtornos alimentares não especificados.

Os anoréxicos acreditam erroneamente que estão gordos e se negam a comer. Os bulímicos comem em excesso e, em seguida, forçam a eliminação do alimento através do vômito ou do uso de laxantes.
 
O estudo incluiu 17.272 pacientes, registrando um total de 755 mortes. A meta-análise revelou que para cada 1.000 pessoas-anos, um total de 5.1 mortes ocorreu entre os anoréxicos (1.3 delas por suicídio), 1.7 mortes entre os bulímicos e 3.3 entre os participantes que sofriam de outros transtornos alimentares. Uma meta-análise é uma compilação de vários estudos sobre o mesmo tema para a verificação de resultados através da análise de dados estatísticos.
A taxa de mortalidade padrão (número de mortes reais comparado ao número de mortes esperadas) foi de 5.86 por anorexia, 1.93 por bulimia e 1.92 por outros transtornos alimentares.

Os anoréxicos em torno dos 20 anos de idade apresentaram índice de mortalidade superior ao dos mais jovens ou na faixa dos 30 anos, informou a equipe comandada por Jon Arcelus, do Leicester General Hospital.

O estudo foi publicado na edição de julho do periódico Archives of General Psychiatry.

Mesmo observando que algumas das mortes poderiam ser atribuídas a outras causas, os autores do estudo disseram que o índice de mortalidade por transtornos alimentares, principalmente a anorexia, é mais alto do que por esquizofrenia e depressão.

Os autores ressaltam que pesquisas adicionais serão necessárias para identificar os fatores que elevam o risco de morte em portadores de transtornos alimentares.

Fonte IG

Uma cidade contra o câncer


Como o complexo hospitalar de Barretos arrebatou um mundo de anônimos dispostos a colaborar com a cura ou minimizar a dor alheia

“Não há vagas”. Nunca. A pousada Rosa Amiga, uma das muitas que circunda o hospital de Câncer de Barretos, interior de São Paulo, tem lotação constante. A placa é fixa na parede, logo na entrada do estabelecimento e antecede às perguntas.

Maria Rosa Oliveira de Pádua construiu uma estrutura simples que comporta 56 pessoas, não aceita turista e recebe o pagamento das prefeituras para as quais trabalha. Seus hóspedes são oriundos de cinco cidades e estão em tratamento contra algum tipo de câncer, com ou sem acompanhantes.

Rosa faz parte de um mundo de anônimos que, por vocação ou acaso, direcionaram uma parte da vida para combater o câncer. Assim como ela, outros personagens habitam uma cidade universal, sem localização precisa, que se move por um bem

A história de Rosa Amiga começou há 16 anos. Ela vendia salgados para os funcionários da fundação Pio XII, berço do Hospital de Câncer - Entidade que se tornou referência mundial no tratamento de neoplasias e hoje recebe mais de três mil pacientes por dia, de todos os estados do País. Simpática e de sorriso fácil, Rosa rapidamente estabeleceu uma relação de confiança na Instituição. Pacientes que procurava um lugar mais caseiro para ficar, dispondo de algum recurso, eram recomendados a ela. A fama de acolhedora e disponível, gerada pelo boca-a-boca após sucessivas indicações, tornou-se ganha-pão.

O pacote completo na pousada inclui hospedagem, café da manhã, almoço, café da tarde e jantar. A comida caseira, sempre quentinha e cheirosa, talvez seduza mais do que a necessidade de uma cama para dormir. Quem passa na frente, estranha o movimento. Os hóspedes-pacientes estão sempre sentados ao sol, conversando tranquilamente, rindo, como se a doença fosse apenas coadjuvante da estadia em Barretos.

A relação não é meramente comercial. Além do básico, ela não economiza esforços para arrecadar verba na compra de medicamento, socorrer quando preciso e está sempre presente para jogar conversa fora ou divertir. “Fiz disso a minha profissão e me sinto vocacionada, escolhida. Tenho nove filhos, mas considero meus hóspedes uma família. Eles me vêem como uma mãe, sabem que podem recorrer.”

Sem hipocrisia, Rosa reconhece que precisa do dinheiro pago pelas prefeituras para manter as contas em dias, mas lidar com a doença impõem regras e éticas por vezes sem causa ou razão aparente. Desde que começou a trabalhar diretamente com o câncer ela decidiu que jamais cobraria a hospedagem de uma criança. A conta não é repassada a nenhuma prefeitura no caso de câncer infantil.

Bianca Sayuri Teshima já passou quatro de seus nove anos brincando de esconder a cabecinha careca com lenços e boinas. Rosa finge não reconhecer a menina todas as vezes que ela cruza o salão de entrada da pousada com um acessório novo. A brincadeira dá certo, e Bianca gargalha.

Na luta contra seu segundo câncer, a pousada é, por ora, a primeira casa de Bianca e Rosa, uma avó postiça. “Sinto como se ela fosse minha também. Vivo todas as alegrias e tristeza dela há quatro anos. Meu maior sonho é que ela seja curada.”

Comover-se ou não com a doença alheia é uma questão de escolha. A cidade, embora viva em função do Hospital, não necessariamente reage a favor dele. Mas, de certa forma, como reconhece o próprio diretor da Instituição, Henrique Prata, a maioria da população valoriza e contribui, seja com pequenas rifas e doações ou através de movimentos isolados que independem da localização geográfica.

Distante fisicamente, Danielle Correia da Silva é telefonista de um banco em Osasco, mas há cinco anos presta uma espécie de serviço voluntário aos pacientes que se tratam em Barretos. Os números telefônicos do banco e da central de atendimento do Hospital são exatamente os mesmos. A diferença está apenas no código de área - mero detalhe para quem precisa agendar uma consulta, cirurgia ou enviar resultado de exames.

“As pessoas sempre esquecem ou nem sabem. Atendo, em média, seis ligações por dia de parentes ou pacientes. O número do fax também é igual. Muitas vezes eu nem aviso, apenas repasso o documento para o Hospital e explico o que ocorreu, assim agiliza e não estica o sofrimento de ninguém.”

Danielle revela que aprendeu a falar "código de área" em inglês para que seu apoio também fosse internacional. Apesar da dedicação, ela treinou a fluência na língua apenas uma vez. “Estava com os livros da minha aula na mesa, falei pausadamente para a pessoa entender. Vi que ela estava com a voz embargada procurando algum médico. Deu certo”.

Além dos anônimos, a participação direta de famosos está na vitrine e é impossível ser indiferente a eles. Na entrada principal, a triagem é feita com a ajuda das celebridades. “Já fez o exame no Gian e Giovanni? Então agora você deve ir pro Zezé de Camargo e Luciano", berra a atendente. Gritar é imperativo. É um mundo de gente buscando uma coisa só.

Todos os que tiveram seus nomes associados a uma estrutura de concreto, em algum momento da história do Hospital de Câncer, contribuiram através de robustas doações.

Promessa não se conta

Segundo levantamento feito pela ouvidoria do Hospital, 50 famílias barretences, após vivenciarem a experiência de cura ou acompanharem o sofrimento de parentes, fizeram o voto de abrigar gratuitamente pacientes que não possuem condições de custear a estadia que o tratamento impõe.

“É uma espécie de promessa para alguns. Sabemos da postura dessas pessoas e indicamos pacientes, mas as próprias famílias não querem que isso seja divulgado. Muitas hospedam conhecidos, ou amigos de amigos”, revela Henrique Prata.

Sensibilizada após vivenciar o câncer de duas primas e um irmão, Sandra Ferreira Negrão, de 52 anos, abriu sua casa para uma antiga vizinha da mãe, uma senhora de 52 anos, com quem teve contato apenas durante a infância, em Carmo do Rio Claro, interior de Minas Gerais.

“Fiquei sabendo que essa senhora estava hospedada em um hotelzinho aqui de Barretos e só chorava. Ela estava sozinha, longe da família, sofrendo muito. Já tinha feito a cirurgia para retirar o tumor no estômago. No mesmo dia fui buscá-la para morar comigo.”
Durante oito meses, entre idas e vindas até a cidade natal, Cremilda, a ex-vizinha, fez parte da família. Hoje, o quarto onde a tal senhora ficava virou ateliê de costura. Sandra tinha uma confecção, mas foi à falência no final do ano passado. Levou os equipamentos para dentro de casa e atende as freguesas no espaço que cedia aos pacientes.
Até o final do ano, porém, revela que deve voltar a oferecer ajuda. Uma das filhas se casará em dezembro, e novamente terá um cômodo disponível. “A princípio ajudei parentes e essa senhora, mas se eu ficar no hospital e ver alguém muito mal precisando de ajuda, eu levo pra casa. Minha família é alegre, unida, acolhedora. Temos muito mais do que um quarto para oferecer. Carinho, nessas horas, aumenta a expectativa de vida." Talvez Sandra tenha razão. Segundo ela, Cremilda viveu um ano e três meses a mais do que o previsto pelos médicos.
Motorista de Jaleco
Foto: Divulgação
Eduardo e o médico da carreta começam a montar a estrutura de atendimento
 
José Eduardo Teixeira, motorista há 25 anos, viu seu trabalho ganhar contornos maiores desde que assumiu o comando de uma das carretas de prevenção do Hospital, em 2005. Um grande caminhão com capacidade para realizar pequenos procedimentos cirúrgicos, percorre diversas regiões do Brasil oferecendo consultas, exames e informação sobre o câncer. Em média, Edu, como é conhecido pela equipe que acompanha, passa mais de 45 dias fora de casa.

Para que sua função não seja limitada ao volante, ele se encarrega de recrutar pacientes, avisando que a trupe médica chegou. Ajuda os profissionais a montar a estrutura de atendimento, organiza as filas e tem estômago para assistir às cirurgias de urgência.

Apesar do jeitão machão, tem sensibilidade e traquejo para papear. Edu conseguiu informações privilegiadas em uma cidade no interior de São Paulo, próxima a Birigui. Ao estacionar a carreta e fazer a propaganda do atendimento, sentiu um clima pesado entre os moradores quando o assunto era câncer. Ninguém queria se aproximar. Em pouco tempo, soube que um senhor de 56 anos, motorista de ambulância da região, tinha falecido no dia anterior por conta de um câncer na próstata.

“Ele morreu por puro machismo. Sabia que essa doença mata mesmo, tinha acesso à informação, conhecia médicos, mas tudo mundo disse que ele se recusava a fazer exame de próstata.” Tal história marcou a vida profissional de Eduardo. Aconteceu durante uma das primeiras viagens como motorista da carreta de prevenção. Hoje, embora sinta saudades de casa, revela, sem falsa modéstia, que se sente um pouco "doutor" também. “Sei que faço parte não apenas como motorista. Ajudo da forma que posso.”

Ações pontuais, mas numericamente expressivas, fazem crer que a doença aproxima e acolhe. Barretos, sozinha, não vive apenas de altruístas e solidários. Há quem desconheça a fronteria entre comércio e exploração, e coloque mais de 10 pacientes agonizando em um quarto de hotel - realidade também registrada pela reportagem. O lado B, embora exista, permanece obscuro ao calor quase constante de uma região tipicamente tropical.

Fonte IG

Como lidar com comportamentos irritantes dos colegas?


Ter paciência e espaço aberto para diálogo são soluções, dizem consultores

Sempre que seu colega chegava ao trabalho, a advogada C.N, que pediu para não ser identificada, fechava a cara. “Eu não suportava o perfume dele e ele sentava bem ao meu lado. Era ele chegar para eu ficar de mau humor”, lembra. E não era só o perfume forte que a incomodava. “Ele ficava horas na internet navegando em redes sociais, falava alto ao telefone assuntos pessoais, se gabava de ter saído com fulana, enfim, era uma pessoa insuportável.”

A solução para que ela conseguisse trabalhar “em paz” foi pedir para mudar de lugar. “Assim, ele ficou bem longe de mim e não tive de pedir para ele parar de usar aquele perfume horroroso e falar mais baixo ao telefone”, comemora.

Segundo Sueli Brusco, diretora executiva da SimGroup, agência especializada em motivação, reconhecimento e premiação, muitas vezes as pessoas não têm consciência de atitudes que se tornam irritantes aos olhos do outro. “Em empresas, o que ocorre é que, ao longo do tempo, o próprio grupo vai afastando esse colega”, afirma.

Subjetivo

“O que pode irritar uma pessoa, para outra pode ser um leve desconforto, motivo de piadas, de risadas", compara Marcelo Chianello, diretor presidente da Ello Atelier do Comportamento. "O fundamental é expor o que incomoda, sempre com muito trato no diálogo.”

Chianello estabelece alguns graus de comportamentos inadequados. “Dentre os considerados ‘inconvenientes leves’, por exemplo, existe aquele colega que interrompe sua concentração, várias vezes ao dia, para perguntar o ramal de um determinado departamento. Alguns incômodos são ‘moderados’, como aquele colega que sempre se considera o melhor; e casos mais ‘graves’, quando um colega provoca intrigas, calúnias, inimizade entre pessoas e áreas da empresa”, diz.

Sueli Brusco comenta também que pessoas com personalidade mais centralizadora, que se posicionam como donos da verdade, também tendem a ser mais irritantes. “Falar em voz alta, tentar dominar a reunião ou querer aparecer mais que os outros são atitudes que irritam os colegas, mas também são indicativos de que essa pessoa precisa de um acompanhamento psicológico. Na maioria dos casos, o comportamento irritante de um colega é um reflexo dos problemas pessoais dele”, acrescenta.

Desempenho

Independentemente do grau de irritação, o alerta deve ficar vermelho se as atitudes dos colegas começarem a atrapalhar a produtividade. Nesse caso, o diálogo é imprescindível, além de uma boa dose de paciência e benevolência. “O melhor procedimento a fazer, nesse caso, é reportar o que está te incomodando ao coordenador do grupo. Assim, você não causa constrangimento e nem cria um ambiente pesado na empresa”, aponta Sueli.

O gestor também ter um papel importante a cumprir se o desempenho da equipe ficar comprometido, uma vez que uma de suas competências deve ser saber gerenciar conflitos.

O problema, diz Chianello, é quando o comportamento errático parte do próprio líder. “Existem times competentes que se desmotivam e desmoronam porque cansam de líderes autoritários e egoístas. Isso provoca, com o tempo, uma intensa irritação, minimamente percebida em diversos níveis hierárquicos da empresa.”

Fonte IG