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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Como uma ressaca ajudou na descoberta de um dos analgésicos mais usados no mundo

Stewart Adams foi homenageado pela pesquisa que levou à descoberta do ibuprofeno 

O britânico Stewart Adams sabia que tinha topado com um poderoso analgésico quando tomou um dose da substância que sua equipe estava testando em laboratório para dar um jeito em uma ressaca antes de um discurso importante.

— Eu seria o primeiro a falar e estava com um pouco de dor de cabeça depois de sair com amigos na noite anterior. Então tomei uma dose de 660 mg, só para ter certeza (de que iria funcionar) e percebi que foi muito eficaz.

Agora, aos 92 anos, Adams conta como foram os anos de pesquisa, os testes intermináveis de várias misturas e as várias decepções antes que ele e a equipe de pesquisas finalmente identificassem, há mais de 50 anos, o ibuprofeno.

Desde então o ibuprofeno se transformou em um popular analgésico, comumente usado para enfrentar febres, dores de cabeça, nas costas e dores de dentes.

E o fenômeno é mundial: na Índia, por exemplo, é o tratamento preferido para febres e dores e, nos Estados Unidos, pode ser vendido sem receita desde 1984. O medicamento também é usado para tratar problemas como artrite.

Adams constatou o alcance global de sua descoberta ainda na década de 1970, durante uma viagem ao Afeganistão, quando viu o ibuprofeno em farmácias de aldeias e vilarejos mais remotos do país.

No entanto, o pesquisador afirma que a descoberta não mudou sua vida.

Sem planos
Adams é de Northamptonshire, na região central da Inglaterra, e deixou a escola aos 16 anos sem ter planos definidos.

Ele começou a trabalhar como aprendiz na rede de farmácias Boots e ficou interessado na carreira de farmacologista. Ele se formou na Universidade de Nottingham e completou o PhD em farmacologia na Universidade de Leeds. Em seguida, ele voltou a trabalhar na Boots Pure Drug Company em 1952, desta vez no departamento de pesquisas.

A missão dele era descobrir um novo tratamento para artrite reumatoide que fosse tão eficaz como esteroides, mas sem os efeitos colaterais. Ele começou a pesquisa analisando anti-inflamatórios e, principalmente, a forma como a aspirina funcionava, o que ninguém mais estava fazendo na época.

A aspirina foi o primeiro anti-inflamatório sem esteroides, desenvolvido em 1897.

Apesar de a aspirina ser geralmente usada como analgésico na época, eram necessárias doses muito altas e o risco de efeitos colaterais, como reação alérgica, sangramento ou indigestão, era alto.

Por isso, na década de 1950, a aspirina já não era um tratamento tão popular na Grã-Bretanha.

Dez anos de pesquisa
Na busca por uma alternativa, Adams recrutou o químico John Nicholson e o técnico Colin Burrows para ajudá-lo a testar a potência de mais de 600 compostos químicos na busca por um remédio que fosse mais tolerado pelos pacientes.

Adams achava que suas chances de sucesso eram mínimas, mas, ainda assim, a equipe fez pesquisas durante dez anos.

— Eu achava que, em algum momento, iríamos conseguir — sempre senti que iríamos conseguir.

E Adams sempre estava disposto a ser cobaia de seus próprios experimentos, testando dois ou três compostos nele mesmo.

O pesquisador admite que este procedimento nunca seria permitido nos dias de hoje, mas, eles tomaram cuidados de testar a toxicidade do que estavam experimentando.

"Era importante tentar e eu queria ser a primeira pessoa a tomar uma dose de ibuprofeno", afirmou.

A Boots conseguiu a patente para o ibuprofeno em 1962 e o medicamento foi aprovado para ser vendido com receita sete anos depois.

Segundo Dave McMillan, ex-chefe de desenvolvimento de saúde na companhia britânica, o ibuprofeno "salvou a Boots, ajudou a expandir para os Estados Unidos e o resto do mundo...foi o remédio número um da Boots".

Toneladas
Atualmente, cerca de 20 mil toneladas de ibuprofeno são produzidas por ano por várias empresas e colocados no mercado sobre vários nomes diferentes.

O medicamento também é produzido em comprimido, cápsulas e gotas.

Pela descoberta, Adams recebeu um doutorado honorário da Universidade de Nottingham, entre outras homenagens. Ele continuou trabalhando para a Boots do Reino Unido até se aposentar.

Mas, o que o deixa mais satisfeito é que centenas de milhões de pessoas hoje tomam o remédio que ele descobriu.

Uma grande descoberta que começou com uma simples ressaca.

BBC Brasil / R7

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