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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Remédios manipulados para emagrecer são reprovados em teste

Teste realizado pela Proteste encontrou substâncias controladas não prescritas em fórmulas de medicamentos manipulados para emagrecer

Em teste realizado pela Proteste, obtido com exclusividade pelo site de VEJA, medicamentos manipulados para emagrecer foram reprovados após análises revelarem a presença de substâncias “escondidas” que podem representar riscos à saúde dos pacientes.

No estudo, a associação analisou a composição de 29 fórmulas prescritas por 11 médicos e produzidas por nove farmácias de manipulação da cidade do Rio de Janeiro. Os resultados revelaram que oito formulações, fabricadas por cinco estabelecimentos, continham alguma dessas três substâncias: sibutramina, diazepam e femproporex. Entretanto, esses princípios ativos não constavam nos pedidos médicos, tampouco na bula das fórmulas.

“Todas as três substâncias são de uso controlado e, naturalmente, o consumidor deve ter conhecimento do que está tomando, principalmente por conta dos graves efeitos colaterais que os medicamentos podem ocasionar. Além disso, para comprá-los, é necessária a apresentação de receita especial.”, escreveu a Proteste na denúncia.

O estudo
No estudo, cinco pacientes se consultaram com 11 “médicos de emagrecimento” – como esses profissionais se intitulavam em ‘anúncios’ online – em diferentes regiões da cidade do Rio de Janeiro, dizendo que queriam emagrecer. Logo após as consultas, as receitas dos medicamentos prescritos foram encaminhadas para as farmácias de manipulação indicadas pelos médicos, ou seja, em tese, farmácias de confiança.

Segundo o Código de Ética Médica, é proibido ao médico interagir, depender ou indicar farmácias para compra de medicamentos recebendo vantagens sobre isso. Porém, em 90% dos casos, as secretárias dos médicos contataram diretamente as farmácias indicadas para solicitar o orçamento. Em um caso específico, a pessoa sequer teve acesso à receita prescrita, que ficou retida com a secretária que contatou diretamente a farmácia, não dando oportunidade ao paciente de procurar outro estabelecimento. Os estabelecimentos apenas contaram o paciente para informar o custo.

Após a entrega dos medicamentos, os frascos lacrados foram encaminhados para análise do conteúdo, realizada por dois laboratórios. Os resultados mostraram que das 29 fórmulas prescritas, oito apresentavam substâncias que podem causar sérios efeitos colaterais e que não estavam prescritas nas receitas, tampouco discriminadas na bula dos medicamentos.

Sibutramina, diazepam e femproporex
A sibutramina foi encontrada em produtos manipulados nas farmácias Formulife, localizada no bairro da Taquara; Essência Life, em Nova Iguaçu; e nas filiais DNA Pharma, na Tijuca e na Barra. Embora esteja aprovada no Brasil como coadjuvante no tratamento da obesidade, seu uso está associado a riscos à saúde, como aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, distúrbios do ritmo cardíaco, infarto, psicose e mania. Nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, seu uso é proibido.

Outra substância com graves efeitos colaterais “escondida” nas formulações foi o diazepam. Comumente utilizado no tratamento de ansiedade, seus possíveis efeitos colaterais são sonolência, tonteira, prejuízo à memória, fadiga e leve queda da pressão arterial. O medicamento foi encontrado em produtos manipulados na farmácia Formulife, no bairro da Taquara.

O endocrinologista Fábio Trujilho, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) explica que em alguns tratamentos contra a obesidade o diazepam pode ser utilizado no intuito de reduzir a agitação do paciente, que muitas vezes, é um efeito colateral dos medicamentos que ajudam na perda de peso.

Por fim, duas fórmulas preparadas na farmácia Manipulando, na Penha, continham o inibidor de apetite femproporex. Entre os efeitos colateraisestão: dependência, tremores, irritabilidade, reflexos hiperativos, insônia, confusão, palpitação, arritmia cardíaca, dores no peito, hipertensão, boca seca, náusea, vômito, diarreia, alteração da libido, agressividade, psicose, transtorno de ansiedade generalizada e pânico.

Desde dezembro de 2011 o femproporex está proibido no Brasil e não pode ser produzido, comercializado, manipulado nem utilizado. A medida consta da Resolução RDC 52/2011 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Nos Estados Unidos, o medicamento nunca foi registrado na Europa está proibido desde 1999, devido aos possíveis riscos e ausência de eficácia comprovada.

Para Bárbara Guerra, técnica responsável pelo estudo e representante da Proteste, uma forma de o paciente se prevenir desse tipo de coisa é solicitar acesso à receita e contatar outras farmácias, não apenas a indicada pelo médico. Em seu “parecer” a entidade ressaltou que não se trata de um estudo estatístico, “muito menos de uma generalização quanto à atuação das farmácias de manipulação ou dos médicos desse ramo”. Os resultados apenas, “conduziram a uma ‘fotografia’ de um determinado momento sobre o tema em análise”.

Medidas tomadas
Como medidas, a Proteste enviou um ofício pedindo à Associação Nacional de Farmacêuticos Magistrais (Anfarmag) e à Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), uma adequada orientação aos médicos e aos estabelecimentos que manipulam medicamentos, destacando as penalidades a que estão sujeitos em caso de descumprimento das normas aplicáveis.

Um ofício denunciando as farmácias e solicitando mais fiscalizações também foi enviado para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e para a Vigilância Sanitária do Rio de Janeiro (Visa RJ). Por e-mail, a Anvisa informou ao site de VEJA que “a fiscalização e eventual penalidade por descumprimento de regulamento é de competência da vigilância sanitária local: do estado ou município”.

Para Trujilho, independente da especialidade do médico, não é uma conduta ética o profissional indicar uma farmácia específica. “Mas é ainda mais grave e condenável que a secretária entre em contato direto com o estabelecimento e que o paciente não tenha acesso à receita”.

Na opinião do especialista, a “contaminação” do medicamento com substâncias que não são do conhecimento do paciente é um crime, que cabe às agências de fiscalização sanitária investigarem. “Embora muitas dessas substâncias tenham, de fato, indicação em alguns tratamentos contra a obesidade, sua administração sem o conhecimento do paciente pode colocar sua vida em risco”, diz Trujilho. 

Veja

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