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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Para apressar cirurgia no SUS, pacientes pagam por exames em clínicas populares

Público de baixa renda prefere pagar por atendimento a esperar no sistema público
Uanderson Fernandes / Agência O Dia
Público de baixa renda prefere pagar por atendimento a
esperar no sistema público
Consultórios atraem público de baixa renda que, ao pagar por procedimentos, consegue pular etapas no sistema público
 
Em fevereiro do ano passado, a dona de casa Aglaiz Lopes, 42, sentiu uma estranha dor no peito e o braço adormecer. Imaginou que aquilo não era um bom sinal e decidiu procurar um cardiologista.
 
Dona Aglaiz não tem plano de saúde particular, então procurou atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade de Mauá, no ABC paulista. Foi atendida por um clínico geral, que solicitou a realização de dois exames: um ecocardiograma e um exame de holter (que monitora os batimentos cardíacos).
 
Passaram-se um ano e quatro meses desde aquele dia até a data em que dona Aglaiz recebeu os resultados dos exames. Ela só conseguiu retornar ao clínico no mês passado, e recebeu uma nova tarefa: agendar um teste ergométrico.
 
"Continuo sentindo aquelas dores e não sei nada sobre elas até agora. Se fosse algo muito complicado, eu já teria morrido e sem saber o motivo", afirma.
 
Para escapar de situações como a da dona Aglaiz, pacientes têm optado por clínicas particulares que oferecem preços populares. Muitas vezes, a estratégia é a de pagar pelos exames para conseguir entrar o mais rápido possível na fila de cirurgias do SUS, segundo a rede Dr. Consulta, que tem sete clínicas espalhadas pela região metropolitana de São Paulo.
 
Grupos como Dr. Consulta, Dr. Família e Clínica Fares oferecem um cardápio de exames que podem ser realizados a partir de R$ 5,50, além de consultas com profissionais de diversas áreas por R$ 90.
 
A aposentada Idalina Machado, 81, decidiu ser uma das 25 mil pessoas que buscam atendimento em uma clínica do Dr. Consulta mensalmente. Ela foi agendar uma ultrassonografia após ser informada que o tempo de espera no SUS seria de dois anos. Na unidade Jabaquara, zona Sul, o procedimento custa de R$ 75 a R$ 115 e pode ser feito em cerca de uma semana.
 
"Vim por indicação da minha sobrinha e aqui é bem mais em conta do que em outras clínicas. Não poderia esperar dois anos no SUS", diz Idalina.
 
As especialidades médicas mais procuradas nessas clínicas são aquelas de baixa complexidade, como ginecologia e oftalmologia. No SUS, os atendimentos dessa natureza são os que custam mais barato para o Ministério da Saúde, mas a demanda supera a oferta nos postos de atendimento. A grande procura por essas especialidades acaba, em alguns casos, prejudicando a qualidade das consultas, que precisam ser feitas rapidamente.
 
É essa a queixa de Rogério Hugo Pereira, 28. Atualmente desempregado, ele decidiu pagar uma consulta porque estava insatisfeito com o atendimento no sistema público, que nunca conseguiu apontar as causas da conjuntivite alérgica que o afeta desde a adolescência. "O atendimento no SUS, além de demorado, não resolve o problema, só ameniza. Nunca foram na raiz do meu problema e o solucionaram, apenas me ajudaram com os sintomas. Agora vou tentar minha sorte aqui."
 
"As pessoas buscam um serviço pago porque o SUS é ineficiente e pouca gente tem acesso a um plano de saúde. Nós conseguimos resolver 85% dos casos que chegam aqui", afirma Adiel Fares, dono da rede Clínica Fares, que possui unidades nas zonas Norte e Sul da capital paulista e realiza cerca de 45 mil atendimentos por mês.
 
Críticas
Nem todos, porém, enxergam nas clínicas populares a solução para os problemas da área da saúde. Para Antonio Pereira Filho, diretor do Conselho Regional de Medicina do Estado de SP (Cremesp), esse tipo de iniciativa deve ser encarada como um modelo "transitório". "Isso não é uma solução duradoura. É apenas uma coisa momentânea que se aproveita das falhas dos sistemas que nós temos. Estão tratando a saúde como mercadoria. É um atendimento tipo delivery."
 
Segundo Pereira Filho, os pacientes que procuram por essas clínicas podem "jogar dinheiro fora" caso necessitem de um procedimento médico mais complexo ou uma internação, por exemplo.
 
"As pessoas pensam que resolverão seus problemas de saúde, mas isso pode não ocorrer. Isso é uma fria para o paciente e para o médico, que assume uma responsabilidade que ele não tem como assumir, já que ele não possui o histórico do paciente. Além disso, não existe controle do que está sendo feito dentro dessas clínicas."
 
O argumento é rebatido por Adiel Fares. Segundo ele, a Clínica Fares tem parceria com hospitais maiores para casos em que é necessário a internação. Na rede Dr. Consulta, o prontuário dos pacientes também fica armazenado em um banco de dados, o que permite o acompanhamento da saúde do cliente, e não apenas um atendimento "isolado".
 
iG

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