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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Anvisa pode responder por silicone francês

Brasileiras lesadas pela marca francesa de silicone Poly Implant Prothèse (PIP) que não consigam acionar na Justiça o fabricante ou a importadora dos implantes podem pedir o ressarcimento dos custos de novas próteses e da cirurgia, além de possíveis danos morais, à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), segundo juristas ouvidos pelo Jornal da Tarde.

Isso porque coube ao órgão dar a autorização de comercialização do produto no país. Outra opção é tentar um acordo com o governo francês.

Cerca de 25 mil próteses PIP foram comercializadas no Brasil.

"Mesmo no caso de uma empresa francesa e falida, a paciente pode acionar a Justiça brasileira para ser ressarcida", ressalta a advogada Joung Won Kim, professora da Escola Superior de Advocacia (ESA), da OAB-SP.

"Os primeiros responsáveis que devem ser cobrados são o fabricante (a PIP) e o importador do produto", explica a advogada Maria Stella Gregori, professora de Direito do Consumidor da PUC-SP e ex-diretora da Agência Nacional de Saúde (ANS) e do Procon-SP.

Maria questiona os critérios usados pela Anvisa para aprovar o registro da PIP no país.

"Caso os agentes principais não possam ser notificados pela Justiça, a Anvisa deve ser responsabilizada, afirma. "Eles liberaram um produto no mercado nacional. Assim, são responsáveis por eventuais problemas provocados pelas próteses", completa.

Ela lembra que, em ações desse tipo, geralmente a paciente é beneficiada.

Procurada pela reportagem, a Anvisa preferiu não se pronunciar sobre as alternativas jurídicas indicadas pelas profissionais.

Fonte R7

Vacina para macacos traz esperança no combate à Aids

Exemplares de macacos rhesus, a espécie utilizada no estudo: vacina conseguiu evitar a transmissão do SIV e frear sua replicação no organismo (Oregon Health & Science/AP)
Exemplares de macacos rhesus, a espécie utilizada no estudo:
vacina conseguiu evitar a transmissão do SIV e frear sua replicação no organismo

Pesquisadores conseguem desenvolver forma de imunização eficaz contra o SIV, vírus semelhante ao HIV que afeta os símios

Controlar o HIV, vírus que causa a Aids e atinge hoje 34 milhões de pessoas em todo o mundo, não é uma tarefa fácil. Desde 1981, a doença causou 30 milhões de mortes, e uma cura ainda parece distante. Por isso, cada passo dado na luta contra o mal é comemorado pela comunidade científica. Um novo avanço está publicado na edição de hoje da revista científica Nature. Pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, produziram uma vacina com o poder de diminuir em até 80% a chance de os macacos rhesus — espécie biologicamente próxima dos seres humanos — adquirirem o vírus da imunodeficiencia símia (SIV), espécie de versão do HIV dos macacos.

A combinação de doses de MVA, Ad26 e Ad35, três tipos de vacina que isoladamente ainda não conseguem um índice de eficácia suficiente para o uso massivo, resultou em uma forma mais eficaz de ataque ao vírus. Além de evitar a transmissão para animais saudáveis em uma grande quantidade de casos, a imunização conseguiu diminuir o nível de infecção, ou seja, controlar a quantidade de SIV circulando no sangue.

Segundo os autores do estudo, o sucesso da combinação das três vacinas se deve ao fato de ela atingir a superfície proteica do vírus, justamente um dos maiores entraves para as pesquisas com vacinas voltadas para combater o HIV nos seres humanos. As drogas testadas até agora não conseguiram penetrar essa capa e chegar ao interior do vírus da Aids. Já no estudo com os símios, a proteína foi quebrada e os animais tiveram um alto índice de controle e imunização da doença. “Esse novo estudo imunológico cria requisitos a serem cumpridos para bloquear o estabelecimento da infecção”, explicou ao Correio Dan Barouch, líder do estudo. “Trata-se de uma nova estratégia em relação ao tradicional controle da replicação viral após a infecção”, completou.

Essa nova estratégia incluirá uma série de medidas para conseguir bloquear o desenvolvimento do HIV. “Os resultados mostram que os anticorpos para ENV, a proteína envelope que compõe o revestimento exterior do HIV, e a proteção contra a aquisição do vírus apresentam respostas diretamente relacionadas”, disse Michael Nelson, diretor do Programa de Pesquisa Militar em HIV, dos EUA. “Assim, esses distintos processos imunológicos estão ligados ao controle dos vírus em um processo diferente do bloqueio da replicação do vírus”, acrescentou.

Na prática, os pesquisadores encontraram uma nova maneira de atacar o vírus. Enquanto a maioria das iniciativas tenta bloquear sua reprodução quando o paciente é infectado, os estudos liderados por Barouch tentam encontrar uma forma de matar o micro-organismo quando ele está na corrente sanguínea. A estratégia auxilia tanto no bloqueio da infecção quanto na diminuição de seu desenvolvimento. “Esse estudo nos permitiu avaliar a eficácia protetora de várias combinações da vacina, e esses dados vão ajudar a orientar o avanço dos candidatos mais promissores em ensaios clínicos”, conta o especialista de Harvard.

Semelhança
O SIV é bastante parecido com o HIV, tanto que, para os cientistas, o primeiro originou o segundo, ao ser transmitido para os homens. A rota mais provável de transmissão do HIV-1 para os seres humanos envolve contato com o sangue de chimpanzés, frequentemente caçados na África. Assim, na tentativa de entender o vírus da Aids humana, um caminho importante foi estudar os seus vírus originários.

Ao contrário do que ocorre com as pessoas que contraem o HIV, a maioria das infecções por SIV não são prejudiciais aos símios. Estudos com mangabeis, uma espécie de mandril que habita as florestas do Congo, mostrou que o patógeno não causa mal aos bichos. A hipótese mais provável é que, ao longo de milhares de anos, os pequenos macacos tenham desenvolvido resistência à Aids símia. Uma das exceções são os rhesus, que desenvolvem a doença.

Para Carl Dieffenbach, diretor da Divisão de Aids do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, a pesquisa abre um novo universo de estudos sobre a Aids e o HIV. “Esse estudo é importante porque possibilitou ao sistema imunológico proteger contra o vírus e controlar sua replicação”, disse ao Correio. “Isso certamente terá implicações importantes para a próxima rodada de testes clínicos de vacinas contra HIV”, acrescentou o norte-americano.

Infecção antiga
Também conhecido como vírus do Macaco Verde Africano, o SIV é um retrovírus capaz de infectar pelo menos 33 espécies de primatas. Com base na análise de cepas encontradas em quatro espécies de macacos da ilha de Bioko, concluiu-se que a SIV está presente em macacos há pelo menos 32 mil anos.

Fonte Correio Braziliense

Descoberta pode ajudar nos distúrbios neurológicos provocados por traumas

Quando uma pessoa se estressa, o organismo libera o hormônio adrenalina, que a prepara para reagir ao perigo de três maneiras: lutar, fugir ou ficar paralisada. Se a situação incômoda perdura, outro hormônio, o cortisol, é emitido por meio de um comando do cérebro para todo o corpo.

O cortisol funciona para inibir a dor e para que a pessoa armazene energia, de modo a ajudá-la a enfrentar dificuldades por longos períodos. Pesquisadores da Universidade de Tufts, nos Estados Unidos, descobriram o mecanismo neurológico que controla a liberação da corticotropina — responsável por emitir e secretar o cortisol — e como bloqueá-lo, tornando-o um possível alvo para impedir a resposta fisiológica ao estresse. A pesquisa, feita pela equipe da professora de neurociência da Escola de Medicina da Universidade Jamie Maguire, foi publicada recentemente na revista especializada Journal of Neuroscience.

Em entrevista ao Correio, Jamie explica que a ação excitatória do neurotransmissor Gaba sobre o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) (veja infografia) é necessária para elaborar a resposta fisiológica ao estresse. A novidade, nesse caso, é que o Gaba sempre foi conhecido por agir, ao contrário do apresentado na pesquisa, como inibidor do HPA. “Essa parte, para mim, foi a mais interessante do estudo. Afinal, foi a primeira vez que alguém demonstrou que esse neurotransmissor age de maneira excitatória sob determinadas condições psicológicas”, comemora.

“Desvendamos, ainda, que as ações do neuroesteroide tetrahidrodeoxicorticosterona (THDOC) nos receptores do Gaba também têm seu papel na resposta aos estímulos estressores”, relata. Ao compreender o funcionamento desses mecanismos, os pesquisadores fizeram testes em ratos e conseguiram bloquear a síntese do THDOC, prevenindo os comportamentos de estresse e ansiedade nos animais.

Segundo a neurocientista, os resultados do estudo podem abrir caminho para novas abordagens no gerenciamento de uma ampla variedade de distúrbios neurológicos relacionados ao estresse. Entre esses distúrbios estão a depressão, a depressão pós-parto, a obesidade, a tensão pré-menstrual e a síndrome de Cushing.

O neurologista William Luciano de Carvalho, do Hospital Geral de Goiânia, descreve que já é de conhecimento geral que os esteroides estão implicados na resposta do cérebro ao estresse. “Mas, anteriormente, imaginava-se que toda pessoa submetida ao estresse tinha o nível de cortisol aumentado. Estudos recentes mostram que isso só acontece na reação imediata ao estímulo estressor, pois, a longo prazo, essas taxas do hormônio são reduzidas. A redução seria mediada pelo Gaba”, diz. A grande novidade do trabalho feito na Universidade de Tufts, segundo o também membro da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), é o Gaba ser o neurotransmissor que estimula a produção do hormônio presente no estresse crônico.

O lado positivo
A psicóloga Dirce Perissinotti, do Centro de Dor do Hospital 9 de Julho, em São Paulo, salienta que o estresse não é algo ruim para o corpo humano, já que o mecanismo existe para que o indivíduo consiga reagir diante do perigo. “O que acontece é que, em certas pessoas, a partir de um determinado momento, o organismo deixa de funcionar eficientemente diante das situações que provocam os estímulos nervosos. A pessoa pode ter uma percepção exagerada ou muito atenuada do caso, o que pode gerar consequências negativas, como o estresse pós-traumático”, ensina. Ela acrescenta que as reações químicas e elétricas ao estímulo estressor que ocorrem no cérebro dependem da aprendizagem e das memórias do indivíduo, mas que há estudos que revelam que parte desse aprendizado é repassado geneticamente.

Dirce, que também é doutora em neurologia, destaca que as pessoas têm um limite de tolerância ao estresse. “Se ultrapassar essa ‘fronteira’, os elementos que o indivíduo desenvolveu genética e psicologicamente não têm estrutura suficiente para responder de maneira moderada ao estímulo”, diz. Ela considera que a pesquisa pode trazer benefícios para o ser humano, mas pondera que o uso futuro de medicamentos para bloquear a produção do THDOC deve ser feito com cautela.

“Em um organismo normal, isso não deve ser necessário, pois todos os humanos precisam aprender a desenvolver mecanismo adaptativos”, explica. “Por sua vez, pacientes que têm estresse pós-traumático, por exemplo, reagem ao agente estressor de maneira magnificada, mesmo quando não há perigo real. Nessa situação de associar o risco a uma situação comum, se mais testes forem feitos, a medida pode ser interessante”, acredita.

Temor
Carvalho tem receio das tentativas de regular o estresse no organismo por meio de medicamentos. “Para que esse projeto chegue aos consultórios médicos, são necessárias novas pesquisas, porque os testes de inibição da resposta ao estresse foram feitos em modelo animal, em vez de humano”, esclarece. “Além disso, os hormônios emitidos em situações de perigo são produzidos no hipotálamo, mas há hormônios que são fabricados em outras regiões do corpo. Essas substâncias químicas podem interferir na produção de cortisol, o que requer novas investigações”, completa o integrante da ABN.

Aumento de peso
Esse problema de saúde é causado pela presença de altos níveis de cortisol no sangue, fazendo com que a pessoa aumente de peso e a gordura adquirida se localize principalmente no tronco e no pescoço. A síndrome pode ser causada por alguma doença ligada à glândula suprarrenal ou à hipófise — que produzem esse hormônio — ou pelo uso excessivo de cortisona, presente em remédios para problemas respiratórios e na pele. Além do ganho de peso, outros sintomas da síndrome são a fraqueza muscular, o aumento da fragilidade da pele, do cansaço e do nervosismo. O tratamento é feito com a redução gradativa do uso do medicamento, ou, no caso de doença devido a tumores na suprarrenal ou na hipófise, a pessoa precisa ser submetida a cirurgia.
Fonte Correio braziliense

Cirurgia é o único tratamento para tratar o câncer de tireoide

Operação como a realizada nesta quarta-feira, na presidente da Argentina, Cristina Kirchner, significa a cura em 90% dos casos

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, surpreendeu a todos ao anunciar ter sido diagnosticada com um câncer papilar na região da tireoide. Feitos os exames, a chefe de Estado foi submetida ontem à cirurgia, único tratamento para a doença — e procedimento que, em 90% dos casos, significa a cura. A operação, embora rápida (realizada em cerca de uma hora), deve ser feita com precisão, pelo fato de o tumor estar em uma área cheia de peculiaridades. Se detalhes como a manipulação cuidadosa dos nervos da laringe ou a verificação incansável de possíveis pontos de sangramento não forem checados, o paciente pode sair da mesa de cirurgia com problemas como rouquidão ou até mesmo sem vida. Especialistas explicam a técnica e os cuidados necessários para se obter o melhor prognóstico.

O oncologista do Instituto Oncoguia Rafael Kaliks conta que o câncer na tireoide ocorre com mais frequência em mulheres entre 40 e 50 anos. As causas podem variar de radioterapia realizada na região da cabeça e do pescoço a fatores genéticos. Segundo ele, o tumor geralmente é descoberto cedo porque o ultrassom no pescoço é um exame rotineiramente recomendado por médicos. “Dessa forma, por ser diagnosticado ainda pequeno, o tratamento é ainda mais eficaz”, explica.

Há dois tipos de cânceres na tireoide, que são classificados como diferenciados (papilar e folicular) e indiferenciados (medular e linfoma da tireoide) — os primeiros são mais comuns. Segundo Luiz Adelmo, oncologista clínico da Oncomed, o tratamento é realizado basicamente com cirurgia e iodoterapia. O cirurgião de cabeça e pescoço André Póvoa, médico do Hospital de Base, explica que a cirurgia está no rol dos procedimentos minimamente invasivos. Ele descreve que, sob efeito da anestesia geral, uma incisão transversal é feita nas dobras do pescoço do paciente, de onde se resseca e retira a tireoide. A boa cicatrização é variável, tanto por razões genéticas (pré-disposição para queloides) quanto pelos cuidados da pessoa. “Eu prescrevo cremes e faço uma sutura com pontos internos, tudo para minimizar o surgimento de cicatrizes”, afirma.

Pós-operatório
A glândula tireoide, que tem formato de escudo, fica em frente aos nervos laríngeos recorrentes, responsáveis por abrir e fechar as cordas vocais. Como toda essa estrutura é interligada e o espaço entre os órgãos é pequeno, o cuidado para não lesionar a área deve ser redobrado. “Se a área for lesionada, o paciente pode apresentar rouquidão transitória ou permanente”, salienta Póvoa. A estatística é que de 1% a 2% dos pacientes sofram do primeiro problema. A retirada do tubo de oxigênio pode também irritar a região.

Segundo Póvoa, a rouquidão transitória faz parte do pós-operatório, uma vez que, só de serem manipulados, os nervos ficam inchados. Uma lesão em outro nervo ligado à voz, o laríngeo superior, poderá afetar o timbre da voz. “Essa é uma das preocupações mais constantes dos pacientes que se submetem a essa cirurgia. Com muito cuidado, porém, diminuímos a chance de as alterações serem permanentes”, relata.

Outro problema ainda muito comum é a hipocalcemia. Rafael Kaliks descreve que, grudadas à tireoide, estão as glândulas paratireoides, responsáveis pela regulação dos níveis de cálcio no sangue. Quando retiradas, os pacientes podem desenvolver problemas ocasionados pela queda de cálcio no organismo, acarretando o chamado hipoparatireoidismo, que provoca sintomas como formigamento nas extremidades e na boca, que podem evoluir para cãibras. “No ato da cirurgia, a glândula é descolada da tireoide e recolocada no pescoço, sem dano algum para o paciente”, ressalta.

Póvoa conta que, no ato cirúrgico, o especialista deve ter sempre em mente a identificação e a preservação da paratireoide. Ele explica que, normalmente, cada pessoa tem quatro dessas glândulas, que medem cerca de 6mm. O cirurgião acostumado com o procedimento, no entanto, consegue vê-las rapidamente e autoimplantá-las sem riscos de surgimento de novos pontos de câncer. “Raramente, o tumor maligno atinge a paratireoide”, confirma.

Feita a cirurgia, o paciente ainda corre o risco de passar uma complicação que, se não sanada a tempo, pode levar à morte: o hematoma. Ele é provocado por sangramentos que, em alguns casos, não são detectados pelo cirurgião. Póvoa relata que esse hematoma pode ocorrer devido à ruptura de algum vaso sanguíneo e, como no momento da operação a pressão do paciente está baixa, ao voltar ao normal o sangramento vem à tona. “O acúmulo de sangue no pescoço pode comprimir a traqueia e a jugular e, assim, impedir que a pessoa respire, mas esse também é um cenário raro”, afirma. Os sintomas do hematoma são dor e dificuldade de respirar.

Radioativo
Após a operação, o paciente é submetido à tireoglobulina, um exame de sangue que avalia a quantidade de células da tireoide ainda presentes no organismo. O médico nuclear do Hospital Universitário de Brasília (HUB) e da Clínica Nuclear Dalton Alexandre dos Anjos explica que, por mais habilidoso que seja o cirurgião, ele não conseguirá remover toda a tireoide do organismo pelo fato de a glândula estar situada em uma região muito delicada.

Se detectado que ainda existem células da glândula, o especialista explica que o paciente é submetido a iodoterapia. Cerca de 30 dias depois do procedimento cirúrgico, ele toma por via intravenosa ou oral uma aplicação de iodo 131-radioativo. A dosagem pode ser pequena, média ou alta, de acordo com a quantidade de células e o tipo de câncer. A pessoa passa por uma dieta restritiva de iodo (sem sal iodado ou frutos do mar), deixando as células restantes com “fome” da substância. A partir daí, quando os resquícios de tireoide consomem o iodo ingerido, a substância radioativa queima as células restantes. “A tireoide é o único órgão que consome o iodo do organismo”, explica Dalton dos Anjos..

Para evitar que outras pessoas sejam expostas às radiações, o paciente que irá passar pelo processo fica isolado em sala especial. “Essa é uma exigência da legislação brasileira”, conta. Anjos diz que, após todo esse processo, o paciente pode se considerar curado. “Não há necessidade de quimioterapia — que, aliás, nunca é utilizada por não ser tão eficiente nesse caso”, esclarece.

Fonte Correio Braziliense

Cirurgia é o único tratamento para tratar o câncer de tireoide

Operação como a realizada nesta quarta-feira, na presidente da Argentina, Cristina Kirchner, significa a cura em 90% dos casos

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, surpreendeu a todos ao anunciar ter sido diagnosticada com um câncer papilar na região da tireoide. Feitos os exames, a chefe de Estado foi submetida ontem à cirurgia, único tratamento para a doença — e procedimento que, em 90% dos casos, significa a cura. A operação, embora rápida (realizada em cerca de uma hora), deve ser feita com precisão, pelo fato de o tumor estar em uma área cheia de peculiaridades. Se detalhes como a manipulação cuidadosa dos nervos da laringe ou a verificação incansável de possíveis pontos de sangramento não forem checados, o paciente pode sair da mesa de cirurgia com problemas como rouquidão ou até mesmo sem vida. Especialistas explicam a técnica e os cuidados necessários para se obter o melhor prognóstico.

O oncologista do Instituto Oncoguia Rafael Kaliks conta que o câncer na tireoide ocorre com mais frequência em mulheres entre 40 e 50 anos. As causas podem variar de radioterapia realizada na região da cabeça e do pescoço a fatores genéticos. Segundo ele, o tumor geralmente é descoberto cedo porque o ultrassom no pescoço é um exame rotineiramente recomendado por médicos. “Dessa forma, por ser diagnosticado ainda pequeno, o tratamento é ainda mais eficaz”, explica.

Há dois tipos de cânceres na tireoide, que são classificados como diferenciados (papilar e folicular) e indiferenciados (medular e linfoma da tireoide) — os primeiros são mais comuns. Segundo Luiz Adelmo, oncologista clínico da Oncomed, o tratamento é realizado basicamente com cirurgia e iodoterapia. O cirurgião de cabeça e pescoço André Póvoa, médico do Hospital de Base, explica que a cirurgia está no rol dos procedimentos minimamente invasivos. Ele descreve que, sob efeito da anestesia geral, uma incisão transversal é feita nas dobras do pescoço do paciente, de onde se resseca e retira a tireoide. A boa cicatrização é variável, tanto por razões genéticas (pré-disposição para queloides) quanto pelos cuidados da pessoa. “Eu prescrevo cremes e faço uma sutura com pontos internos, tudo para minimizar o surgimento de cicatrizes”, afirma.

Pós-operatório
A glândula tireoide, que tem formato de escudo, fica em frente aos nervos laríngeos recorrentes, responsáveis por abrir e fechar as cordas vocais. Como toda essa estrutura é interligada e o espaço entre os órgãos é pequeno, o cuidado para não lesionar a área deve ser redobrado. “Se a área for lesionada, o paciente pode apresentar rouquidão transitória ou permanente”, salienta Póvoa. A estatística é que de 1% a 2% dos pacientes sofram do primeiro problema. A retirada do tubo de oxigênio pode também irritar a região.

Segundo Póvoa, a rouquidão transitória faz parte do pós-operatório, uma vez que, só de serem manipulados, os nervos ficam inchados. Uma lesão em outro nervo ligado à voz, o laríngeo superior, poderá afetar o timbre da voz. “Essa é uma das preocupações mais constantes dos pacientes que se submetem a essa cirurgia. Com muito cuidado, porém, diminuímos a chance de as alterações serem permanentes”, relata.

Outro problema ainda muito comum é a hipocalcemia. Rafael Kaliks descreve que, grudadas à tireoide, estão as glândulas paratireoides, responsáveis pela regulação dos níveis de cálcio no sangue. Quando retiradas, os pacientes podem desenvolver problemas ocasionados pela queda de cálcio no organismo, acarretando o chamado hipoparatireoidismo, que provoca sintomas como formigamento nas extremidades e na boca, que podem evoluir para cãibras. “No ato da cirurgia, a glândula é descolada da tireoide e recolocada no pescoço, sem dano algum para o paciente”, ressalta.

Póvoa conta que, no ato cirúrgico, o especialista deve ter sempre em mente a identificação e a preservação da paratireoide. Ele explica que, normalmente, cada pessoa tem quatro dessas glândulas, que medem cerca de 6mm. O cirurgião acostumado com o procedimento, no entanto, consegue vê-las rapidamente e autoimplantá-las sem riscos de surgimento de novos pontos de câncer. “Raramente, o tumor maligno atinge a paratireoide”, confirma.

Feita a cirurgia, o paciente ainda corre o risco de passar uma complicação que, se não sanada a tempo, pode levar à morte: o hematoma. Ele é provocado por sangramentos que, em alguns casos, não são detectados pelo cirurgião. Póvoa relata que esse hematoma pode ocorrer devido à ruptura de algum vaso sanguíneo e, como no momento da operação a pressão do paciente está baixa, ao voltar ao normal o sangramento vem à tona. “O acúmulo de sangue no pescoço pode comprimir a traqueia e a jugular e, assim, impedir que a pessoa respire, mas esse também é um cenário raro”, afirma. Os sintomas do hematoma são dor e dificuldade de respirar.

Radioativo
Após a operação, o paciente é submetido à tireoglobulina, um exame de sangue que avalia a quantidade de células da tireoide ainda presentes no organismo. O médico nuclear do Hospital Universitário de Brasília (HUB) e da Clínica Nuclear Dalton Alexandre dos Anjos explica que, por mais habilidoso que seja o cirurgião, ele não conseguirá remover toda a tireoide do organismo pelo fato de a glândula estar situada em uma região muito delicada.

Se detectado que ainda existem células da glândula, o especialista explica que o paciente é submetido a iodoterapia. Cerca de 30 dias depois do procedimento cirúrgico, ele toma por via intravenosa ou oral uma aplicação de iodo 131-radioativo. A dosagem pode ser pequena, média ou alta, de acordo com a quantidade de células e o tipo de câncer. A pessoa passa por uma dieta restritiva de iodo (sem sal iodado ou frutos do mar), deixando as células restantes com “fome” da substância. A partir daí, quando os resquícios de tireoide consomem o iodo ingerido, a substância radioativa queima as células restantes. “A tireoide é o único órgão que consome o iodo do organismo”, explica Dalton dos Anjos..

Para evitar que outras pessoas sejam expostas às radiações, o paciente que irá passar pelo processo fica isolado em sala especial. “Essa é uma exigência da legislação brasileira”, conta. Anjos diz que, após todo esse processo, o paciente pode se considerar curado. “Não há necessidade de quimioterapia — que, aliás, nunca é utilizada por não ser tão eficiente nesse caso”, esclarece.

Fonte Correio Braziliense