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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Descoberta proteína que desliga processo inflamatório

Infecção generalizada é responsável por 25% da ocupação dos leitos de UTIs no país e principal causa de morte nessas unidades

A ciência lança luz sobre grave problema de saúde pública que aflige autoridades no Brasil e no mundo, a sepse. Mais conhecida como infecção generalizada, trata-se de um conjunto de manifestações graves em todo o organismo produzidas por uma infecção.

Segundo o Ministério da Saúde, a sepse é responsável por 25% da ocupação de leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no País. Atualmente, é a principal causa de morte nessas unidades.

Felizmente, as últimas respostas de laboratórios de pesquisa trazem importantes informações sobre o comportamento de bactérias durante ataque ao sistema imunológico.

Em seus últimos estudos, o professor Dario Zamboni, do Departamento de Biologia Celular e Molecular e Bioagentes Patogênicos da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, conseguiu identificar e testar uma proteína que é capaz de enganar o sistema de defesa e impedir o início do processo inflamatório. O que vale dizer que o organismo não reage à sua infestação.

Essa nova molécula, identificada pelo grupo de Zamboni e chamada IcaA (do Inglês, Inhibition of caspase activation), já era conhecida da comunidade científica. Ela é produzida pela bactéria Coxiella burnetii, causadora de um tipo de pneumonia muito comum entre cuidadores de animais.

É uma bactéria muito agressiva, pois apenas uma é capaz de infectar e deixar uma pessoa saudável doente, ao contrário da maioria das outras bactérias que só conseguem contaminar um organismo humano quando milhares de bactérias invadem o corpo.

A equipe de Zamboni mostrou nesse trabalho que, enquanto a Coxiellaneutraliza a ação de defesa do sistema imunológico, a Legionella pneumophila(também causadora de um tipo de pneumonia em humanos) reage de forma totalmente diferente, ativando o sistema de defesa.

E, também, identificaram IcaA como uma das proteínas que a Coxiella utiliza para inibir a ativação do sistema imune. Através de engenharia genética, o gene que codifica a proteína IcaA em Coxiella foi introduzido na outra bactéria, a Legionella.

O resultado foi a obtenção de um mutante da Legionella que, originalmente é uma bactéria altamente ativadora da inflamação, passou a produzir a proteína da Coxiella (a IcaA) e, ao contrário do que fazia antes, começa então a inibir a inflamação.

Esses resultados são considerados muito importantes porque contribuem para a compreensão da pneumonia causada pela Coxiella e podem ajudar a inibir processos inflamatórios.

O professor comenta que, durante um processo infeccioso, um pouco de inflamação pode ajudar a controlar a infecção, mas muita inflamação pode matar o indivíduo infectado. E o que acontece durante a sepse, um excesso de inflamação, pode levar a pessoa à morte.

Assim, Zamboni acredita que a descoberta da função da IcaA deve abrir portas para o desenvolvimento de uma droga “que utilize os princípios da proteína IcaA para inibir doenças inflamatórias, como por exemplo a sepse”.

O trabalho de Dario Zamboni acaba de ser publicado pela Nature Communications, uma das revistas científicas mais importantes do mundo.

A Coxiella burnetii
A bactéria Coxiella burnetti causa uma pneumonia, mais conhecida como “Febre Q”, em animais e também em pessoas que trabalham com eles, como estudantes de veterinária, veterinários e trabalhadores de abatedouros, por exemplo.

Segundo Zamboni, é uma doença que não é tão rara assim; alguns estudos indicam que cerca de 2% a 15% de pneumonias atípicas podem ser causadas por Coxiella. O problema é que no Brasil não se sabe exatamente o índice de doentes pois no País não se faz exames sorológicos de rotina para identificar a bactéria causadora da pneumonia.

Mas, o que intrigou o pesquisador foi a alta capacidade dessa bactéria se instalar no organismo e inibir o sistema imune para não gerar processo inflamatório. Ele diz que “a Coxiella entra na célula e produz várias proteínas”.

E, agora pelos seus estudos, fica evidente que a IcaA participa dessa inibição do sistema imune, que é importante para deixar uma pessoa doente. Essa proteína “engana os macrófagos”, as células de defesa do organismo, “inibindo a ativação de uma molécula do sistema imune chamada caspase-11, que comprovadamente ativa a resposta imune contra bactérias.

Como já se sabe que muitos casos de sepse estão relacionados a uma ativação de caspase-11, a descoberta de uma proteína, como IcaA que pode inibir a caspase-11 é extremamente promissora.

iG

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