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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Jejum intermitente desregula mecanismo cerebral de controle da fome

Foto: Wikimedia
Experimento foi feito com ratos por pesquisadores da USP;
resultados foram divulgados na revista Endocrinology
Dietas que alternam ciclos de jejum prolongado e de alimentação livre são capazes de prevenir o ganho excessivo de peso, mas também podem causar alterações metabólicas indesejáveis – como a desregulação dos mecanismos cerebrais de controle do apetite
 
As conclusões são de um estudo feito com ratos no Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), divulgadas em um artigo publicado recentemente na revista Endocrinology.
 
A pesquisa foi realizada durante o doutorado de Bruno Chausse, no âmbito do Projeto Temático “Bioenergética, transporte iônico, balanço redox e metabolismo de DNA em mitocôndrias”, coordenado pela professora Alicia Kowaltowski. Também está vinculada aos trabalhos do Centro de Pesquisa em Processos Redox em Biomedicina (Redoxoma), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) apoiados pela FAPESP.
 
“Estudos anteriores mostravam que os animais submetidos à dieta intermitente comiam, ao final, quase a mesma quantidade de comida que os ratos do grupo controle, pois compensavam a privação nos momentos em que o alimento estava disponível. Ainda assim, ganhavam menos peso. Queríamos entender, do ponto de vista metabólico, como isso ocorria”, explicou Kowaltowski.
 
Durante o experimento, que durou três semanas, os ratos com 8 semanas de vida – considerados adultos jovens – foram divididos em dois grandes grupos. Os animais submetidos à dieta intermitente alternavam períodos de 24 horas em jejum com períodos de 24 horas de alimentação livre. O grupo controle recebia ração à vontade todo o tempo e, após as três semanas, apresentou peso cerca de 11% maior.
 
“Mesmo com 50% menos tempo de acesso à comida, os animais da dieta intermitente ingeriam o equivalente a 80% da quantidade consumida pelos animais controle, o que indica a ocorrência de hiperfagia nos momentos em que o alimento estava disponível”, contou Chausse.
 
Além de monitorar a quantidade de comida ingerida, os pesquisadores também observaram o consumo de água e a produção de urina e de fezes. “Uma das possibilidades que precisávamos descartar era que o excesso alimentar não seria absorvido e acabaria eliminado pelas fezes. Mas não houve diferença no volume de dejetos, o que reforçou a teoria de que se tratava, de fato, de uma alteração metabólica”, disse Chausse.
 
A próxima hipótese investigada pelo grupo era de que o menor ganho de peso estaria relacionado a uma espécie de curto-circuito nas mitocôndrias, que se tornariam menos eficientes para converter a energia dos alimentos em massa corporal.
 
Mas, ao comparar o funcionamento das mitocôndrias de tecidos importantes, como o musculoesquelético, o grupo não observou diferença significativa na produção da molécula adenosina trifosfato (ATP), que armazena a energia, entre o grupo da dieta intermitente e o controle.
 
O passo seguinte foi comparar a atividade metabólica geral. Os ratos foram colocados em câmaras onde era possível medir o consumo de oxigênio e a produção de gás carbônico – exame conhecido como calorimetria indireta.
 
“Vimos que, quando os animais da dieta intermitente estavam alimentados, ocorria um aumento das taxas metabólicas e eles passavam a gastar mais energia. Já nos dias de jejum, o organismo consumia muitos lipídeos, ou seja, eles queimavam mais gordura. Acreditamos que a associação desses dois fatores explica o menor ganho de peso”, disse Chausse.
 
Alterações no hipotálamo
Em parceria com o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Licio Velloso, que coordena o Centro Multidisciplinar de Pesquisa em Obesidade e Doenças Associadas (CMPO), o grupo da USP investigou possíveis alterações no hipotálamo que poderiam ser desencadeadas pela dieta intermitente.
 
Foi observado que no período do jejum ocorria uma diminuição em torno de 30% de um neurotransmissor chamado TRH, associado à liberação dos hormônios da tireoide – uma possível explicação para a variação na taxa metabólica, mas que ainda precisa ser mais bem investigada.
 
“Mas, sobretudo, o que chamou nossa atenção foi o aumento significativo dos neurotransmissores AGRP e NPY, responsáveis por estimular o apetite”, contou Chausse.
 
Normalmente, acrescentou o pesquisador, os níveis desses neurotransmissores caem após as refeições, mas nos animais da dieta intermitente eles continuavam duas vezes mais elevados que no grupo controle, o que sugere que os ratos continuavam com fome mesmo com o estômago repleto de alimento.
 
“Suspeitamos que eles só não comiam a mesma quantidade (chegaram no máximo a 80%) que o grupo controle por uma questão de falta de espaço no trato gastrointestinal”, disse Chausse.
 
Também foram avaliados os níveis dos hormônios grelina (que estimula a fome e é produzida à medida que o estômago esvazia) e leptina (um inibidor de apetite).
 
“Embora não tenhamos observado diferença na produção de grelina, suspeitamos que o cérebro dos animais da dieta intermitente se tornou mais permeável à entrada dessa molécula. O cérebro também estava sensível à ação da leptina, mas a produção desse sinalizador de saciedade estava reduzida pela metade no grupo da dieta intermitente”, contou Chausse.
 
Os pesquisadores pretendem, agora, investigar se as alterações observadas no controle do apetite podem ser revertidas com o retorno ao padrão normal de alimentação.
 
Em uma pesquisa anterior, realizada durante o doutorado de Fernanda Cerqueira e publicada na revista Free Radical Biology and Medicine, o grupo testou o efeito da dieta intermitente no longo prazo.
 
Após 9 meses de experimento, os animais continuavam magros, mas haviam se tornado resistentes à ação da insulina. De acordo com os pesquisadores, o efeito negativo estaria associado a uma maior produção de substâncias oxidantes, como os radicais livres de oxigênio, que danificaram os receptores de insulina nas células (leia mais em: http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/09/06/os-perigos-do-jejum/).
 
O estudo de Cerqueira mostrou ainda que, embora os animais submetidos à dieta intermitente fossem mais leves, apresentavam a mesma taxa de gordura que os animais do grupo controle, o que indica que o menor peso se deve à perda de massa magra.
 
“Não podemos transpor, diretamente, os resultados desses estudos para os seres humanos, pois um jejum de 24 horas para um rato equivaleria a alguns dias para a nossa espécie. Mas os resultados indicam que esse tipo de dieta, do ponto de vista metabólico, é diferente de uma restrição calórica típica [quando se reduz cerca de 20% das calorias diariamente]. Um dos achados importantes, que pode ser transposto para o ser humano, é que nem todas as dietas que fazem perder peso são completamente saudáveis”, avaliou Kowaltowski.

Agência FAPESP

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