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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Enzima reduz efeitos tóxicos do excesso de açúcar

G3PP atua contra as consequências do consumo exagerado de doces

Um time de cientistas canadenses descobriu, dentro do corpo humano, uma potencial arma contra as consequências nocivas do consumo exagerado de doces. Pesquisadores da Universidade de Montreal identificaram uma enzima capaz de reduzir os efeitos tóxicos do excesso de açúcar no organismo, fazendo com que o corpo absorva apenas uma quantidade benéfica de glicose. O achado pode abrir caminho para o desenvolvimento de novos tratamentos para obesidade e diabetes tipo 2 — aquele contraído ao longo da vida por causa, especialmente, de maus hábitos alimentares.

Chamada de glicerol 3-fosfato fosfatase (G3PP, na denominação em inglês), a tal enzima tem papel-chave na regulação da quantidade de glicose que cada célula utiliza. Segundo os autores da pesquisa, publicada ontem na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences”, a G3PP está presente em todos os tecidos do corpo de mamíferos e pode ter um efeito “detox” no organismo, eliminando o excedente de glicose.

Esta enzima é um dos principais agentes que participam da quebra das moléculas de açúcar dentro das células. Porém, esse processo sempre gera um subproduto — chamado de glicerol-3 fosfato — que, quando em excesso, é tóxico ao organismo: prejudica vários tecidos e danifica as células-beta do pâncreas, que são as produtoras de insulina, hormônio que regula o nível de glicose no corpo. O que chamou a atenção dos cientistas canadenses foi a característica única da enzima G3PP de transformar o glicerol-3 fosfato em glicerol simples e retirá-lo da célula, impedindo, assim, que atinja os órgãos.

— Quando a glicose está anormalmente elevada no corpo, o glicerol-3 fosfato derivado da glicose atinge níveis excessivos dentro das células. Este metabolismo exagerado pode danificar vários tecidos. Constatamos que a G3PP é capaz de repartir uma grande parcela deste excesso de glicerol-3 fosfato e desviá-lo para fora da célula, protegendo, assim, as células-beta produtoras de insulina e vários órgãos dos efeitos tóxicos gerados pelo alto nível de glicose — explica o cientista Marc Prentki, um dos autores do estudo.

Droga ainda deve demorar
De acordo com a pesquisa, o corpo não produz, naturalmente, uma quantidade de G3PP suficiente para inibir os efeitos do excesso de glicose que levam ao diabetes. A equipe quer descobrir quais são “as pequenas moléculas ativadoras de G3PP”, para desvendar o que exatamente impulsiona essa enzima a entrar em ação. O objetivo é, no futuro, desenvolver drogas para tratar distúrbios metabólicos, obesidade e diabetes tipo 2. Para que isso aconteça, porém, ainda faltam muitas pesquisas. De acordo com a presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição, Olga Amancio, pode levar décadas entre a descoberta de uma molécula como esta e o lançamento de uma droga a partir dela.

— É preciso ter outras pesquisas do mesmo grupo e de outras equipes até que essa descoberta se consolide. É um resultado muito interessante, e será ótimo se realmente servir para diabéticos. Mas ainda temos muitas perguntas a serem respondidas: será que esta enzima só funciona até certo ponto e é por isso que a gente engorda? Será que algumas pessoas, dependendo da herança genética, podem tirar mais proveito dessa enzima? São dúvidas que somente novos estudos esclarecerão — analisa Olga. Para Marc Prentki, não se pode negar que a pesquisa abre horizontes em relação à compreensão do metabolismo.

— Desde a década de 1960, é muito raro encontrar uma nova enzima no coração do sistema metabólico em todos os tecidos de mamíferos, e é provável que esta enzima passe a fazer parte dos manuais de bioquímica — acredita o canadense.

Cerca de 50g de açúcar por dia
Segundo recomendação feita no ano passado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo diário de açúcar não deve ultrapassar 10% das calorias ingeridas diariamente, em uma dieta saudável, o que representa cerca de 50g. Neste cálculo, não entra o açúcar presente naturalmente em frutas, verduras, legumes e leite fresco. Ao contrário, o consumo desses alimentos in natura é estimulado pela OMS para toda a população, em todas as faixas etárias. A restrição a 10% se refere ao açúcar de produtos industrializados, como biscoitos, bolos e refrigerantes

 — Em geral, entende-se que até 60% da dieta podem ser compostos por carboidratos, o que inclui os diversos tipos de açúcar. A preferência, claro, deve ser dada a ingredientes naturais — esclarece o endocrinologista Pedro Assed, pesquisador do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (Iede). De acordo com Assed, o grande malefício do excesso de açúcar no nosso corpo é um “estresse oxidativo no organismo”.

— O indivíduo com diabetes tem mais risco de ter cegueira, doenças do coração etc. O processo de quebra de glicose é danoso a diversas partes do corpo. A grande ideia da pesquisa é que essa quebra passe a ser inofensiva.

O Globo

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