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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Por que você ainda vai tomar 'água da privada'

O nome assusta e é pouco fiel à realidade de uma iniciativa que já está sendo adotada em algumas partes do mundo

A ideia é ir além da água da privada e renovar toda a água que escorre pelos ralos

O "toilet-to-tap" (ou "da privada para a torneira", em tradução literal) é uma técnica que reutiliza, para o consumo interno e externo, toda a água que escorre pelos ralos (inclusive a da descarga das privadas). Se a ideia parece, literalmente, dura de engolir, é bom saber que técnica envolve a filtragem e o tratamento da água "suja", deixando-a tão pura como a água de uma nascente – talvez ainda mais. Alguns bons exemplos disso vêm da Austrália.

Cientistas acreditam que reciclagem de águas residuais pode diminuir o consumo de fontes tradicionais

A água residual reciclada é segura para o consumo e tem o mesmo gosto que qualquer outra água potável. "Na realidade, podemos dizer que esse tipo de água é até relativamente doce", afirma Anas Ghadouani, engenheiro ambiental na Universidade Western Australia.

Estimuladas por problemas causados pelo aumento populacional e por secas intensas semelhantes às enfrentadas pelo Brasil recentemente, muitas cidades do mundo já estão incorporando água residual reciclada no abastecimento para o consumo.

Reciclar não é apenas uma necessidade – um futuro sustentável no gerenciamento da água vai exigir projetos como esses. "Não há dúvidas de que isso vai acontecer", opina Ghadouani

Recurso abundante
Águas residuais são muito mais do que a água da privada. Pense em toda a água que escoa pelo ralo toda vez que você lava uma fruta ou o seu carro. Trata-se de um recurso abundante e pouquíssimo explorado. "É uma fonte de água garantida e mais barata", afirma Peter Scales, engenheiro químico da Universidade de Melbourne, na Austrália. Segundo ele, se uma cidade de porte médio reciclasse todas as suas águas residuais, seu consumo de fontes tradicionais cairia em 60%.

O uso das águas residuais para irrigação e outros fins não alimentares já é comum. Sua tecnologia é a mesma usada para tratar o suprimento de água potável que tenha sido contaminado.

Ela consiste em, primeiramente, filtrar todos os depósitos sólidos contidos na água. Depois, em um processo chamado de osmose inversa, faz-se a filtragem das partículas menores. Em seguida, como medida extra de precaução, a água é exposta rapidamente a radiação ultravioleta, para exterminar possíveis micróbios.

"Somos capazes de oferecer água muito pura – mais pura do que a água que atualmente é retirada de rios e reservatórios", diz Scales.

Fator ‘nojo’
Inevitavelmente, o fator "nojo" também tem seu papel. Recentemente, o psicólogo Paul Rozin, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, realizou uma pesquisa com 2 mil pessoas e descobriu que, apesar de 49% se dizerem dispostas a experimentar a água residual reciclada, 13% se recusaram, enquanto o resto se mostrou indeciso.

Para algumas pessoas, nem mesmo as circunstâncias mais dramáticas conseguem fazê-las mudar de ideia. Em 2006, por exemplo, a cidade de Toowoomba, no leste da Austrália, tentou implementar a reciclagem de águas residuais após anos de seca. Mas os planos foram literalmente por água abaixo, com 62% da população tendo votado contra o projeto em um referendo. "A reciclagem de água é algo com enorme força, mas politicamente é um problema", afirma Scales.

A dessalinização da água do mar é outro recurso para driblar as secas

Hoje, empresas como a Water Corporation, que administra o fornecimento de água em Perth e todo o oeste da Austrália, têm integrado água reciclada a sua própria rede de abastecimento.

O oeste da Austrália já é um dos locais mais secos da Terra, sofrendo com a falta de água há mais de 15 anos. As mudanças climáticas só tendem a piorar a situação. Para aliviar, a Water Corporation recorreu à dessalinização em 2006, usando usinas de tratamento para transformar água do mar em água doce.

O processo é caro, mas eficiente. Hoje, ele responde por 39% do fornecimento de água da região. As águas subterrâneas representam 43% do suprimento, enquanto o resto vem de reservatórios. Mas com a seca persistente, a água residual reciclada pode oferecer mais segurança a um custo mais baixo.

A empresa adotou um modelo semelhante ao que foi visto no Orange County, na Califórnia: bombear as águas residuais para aquíferos a fim de reabastecer o suprimento de águas subterrâneas. Os aquíferos servem como "armazenamento" gratuito e agem como uma espécie de fator psicológico que ajuda a minimizar o "nojo".

Os planos da Water Corporation são de aumentar o uso dessa água reciclada até que ela responda por 20% do abastecimento da cidade de Perth.

Riquezas da chuva
A combinação de reciclagem, dessalinização e preservação ambiental está ajudando Perth a se tornar resistente a secas. "Nós nos tornamos um exemplo internacional no que se refere à maneira como respondemos às mudanças climáticas", afirma Clare Lugar, porta-voz da Water Corporation.

Essa abordagem interdisciplinar é fundamental. Segundo Scales, outra fonte de água ainda subaproveitada são as chuvas. "Se conseguirmos reciclar as águas residuais e coletarmos toda a água da chuva que cai pelas calhas, seria possível abastecer uma cidade inteira", diz.

Mas convencer a população e construir toda a infraestrutura necessária para aproveitar a água das chuvas levaria anos ou até décadas.

Lugares como Cingapura, Bélgica, a cidade de Windhoek, na Namíbia, e Wichita Falls, no Texas, já começaram reciclar águas residuais.

Na maioria das grandes metrópoles mundiais, como as da Ásia ou da América do Sul, a falta de água potável pode levar a doenças - no Brasil, por exemplo, é comum haver focos de dengue em locais de seca.

"O suprimento de água nesses locais é contaminado por águas residuais", afirma Scales. "Mas o tratamento dessa água contaminada é semelhante ao que é feito na reciclagem."

Por isso, não importa o nome dado à iniciativa – purificação, reciclagem ou "toilet-to-tap". Todos estão por trás da mesma ideia: oferecer água limpa a todos.

BBC Brasil

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