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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Asma pode ser agravada por ansiedade

Pesquisadores sugerem incluir terapia no tratamento de quem sofre com a doença

Uma das doenças respiratórias mais comuns no planeta, a asma pode ser agravada por questões psicológicas. É o que indica um estudo recente da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos. Segundo os pesquisadores, controlar as crises causadas por essa enfermidade vira uma tarefa mais árdua para quem sofre com ansiedade. Sem contar que o medo de sentir os sintomas do problema acaba, às vezes, desencadeando-o. A solução, defende o grupo, está em incluir intervenções psicoterápicas no tratamento de asmáticos.

A pesquisa surgiu devido à observação de que há um grande número de pacientes com asma que também sofrem de ansiedade. “Fizemos um trabalho anterior que observava a interferência da ansiedade sobre a forma como o asmático controla a sua doença. Observamos que pessoas com alta sensibilidade são mais propensas a terem problemas para gerir os sintomas respiratórios”, destaca ao Correio Alison McLeish, autora principal do estudo.

Para estudar mais a fundo as questões levantadas na primeira análise, McLeish e equipe realizaram um experimento com 101 universitários que tinham asma. Os participantes tiveram que inspirar e expirar por meio de um canudo, imitando um dos principais sintomas da doença respiratória. Durante a análise, os pesquisadores observaram que os participantes com maior tendência a ansiedade tiveram mais dificuldade para desempenhar a atividade proposta.

“Pessoas com alta sensibilidade, ou seja, os asmáticos que tinham mais medo dos sintomas da doença, apresentaram comportamentos que imitavam um ataque de asma durante a tarefa. Eles apresentaram também pior função pulmonar, o que os coloca em um risco maior de sofrer mais ataques de asma”, detalha McLeish.

As conclusões, segundo o grupo, reforçam a necessidade da realização de terapias voltadas para tratar a constante inquietude de pacientes com asma. “Acredito que tratamentos para a ansiedade poderiam ser úteis para os asmáticos que sofrem com essa grande sensibilidade”, reforça a autora. A principal sugestão dela é a terapia de exposição, que tenta dessensibilizar as pessoas para os sintomas físicos de uma doença, tornando-as menos preocupadas. “Assim, ficam menos reativas à asma”, explica McLeish, reforçando que outros tratamentos poderão surgir a partir das constatações feitas por ela e a equipe.

Estresse
Segundo Aída Alvim, pneumologista da clínica Respirar e do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal, o estudo norte-americano vem reforçar uma constatação comum nos consultórios médicos. “Vemos diversos pacientes que passam por períodos de estresse e não conseguem controlar as crises de asma porque estão irritados. Sabemos também que o próprio estresse é um desencadeador de doenças inflamatórias, o medo de ter a crise já é um fator capaz de provocá-la”, diz.

A especialista acredita que tratamentos psicoterápicos podem servir como um grande auxiliar no tratamento da asma. “Tenho uma colega médica que passou por um momento difícil e não conseguia controlar as crises de asma. Para isso, procurou a psicoterapia. É uma das opções que podem auxiliar bastante. Em alguns casos, pode-se até pensar em medicamentos para controlar essa ansiedade, caso seja necessário”, completa.

José Carlos Perini, presidente Nacional da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), ressalta que intervenções psicológicas para combater a asma devem ser orientadas e acompanhadas. “Primeiro, é necessário buscar ajuda com a asma e, se a pessoa tiver problemas emocionais, o profissional vai orientá-la a procurar outro especialista. Tenho pacientes que buscaram respostas apenas em tratamentos psicológicos e não conseguiram resolver as crises”, alerta.

Pior para elas
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 300 milhões de pessoas no mundo tenham asma. No Brasil, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), são 6,4 milhões. O relatório feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também mostra que as mulheres sofrem mais com a enfermidade respiratória do que os homens, 3,9 milhões contra 2,4 milhões, uma diferença de 39%. A pesquisa traz ainda a informação de que essa doença é responsável por, em média, 100 mil internações no Sistema Único de Saúde (SUS) anualmente.

Traumas na infância também influenciam
Outros problemas psicológicos podem desencadear crises de asma. Pesquisadores dos Estados Unidos realizaram um estudo em que observaram dados coletados de 2011 a 2012 referentes a 100 mil crianças expostas a experiências adversas na infância, como morte de um dos pais e abusos físicos. Eles concluíram que esses meninos e essas meninas tinham 28% mais chances de desenvolver a doença respiratória.

“Fatores de estresse psicossociais ativam o sistema nervoso simpático, que controla a nossa ‘luta’ ou nossa ‘fuga’, as respostas quando experimentamos situações estressantes. O aumento da atividade do cortisol, um hormônio do estresse, afeta a atividade das células do sistema imunológico. Incrementos ocasionais nesse hormônio são protetores, mas exposições excessivamente elevadas ou prolongadas, como aquelas experimentadas por crianças expostas a traumas, podem ser prejudiciais”, detalhou, em comunicado à imprensa, Robyn Wing, médico do Hospital Infantil Hasbro (EUA) e um dos autores do estudo.

Wing e equipe defendem que o estresse seja visto como um fator de risco para o desenvolvimento da asma e o agravamento dela, assim como é tratada a exposição à fumaça do tabaco e aos ácaros. “Os clínicos devem partilhar com os pais os impactos desses traumas sobre a asma dos filhos. Desse modo, podem proteger as crianças de uma situação estressante em casa”, defende o cientista.

A pneumologista Aída Alvim acredita ser difícil responsabilizar os problemas sociais na infância como causa da asma. Segundo ela, existem estudos que defendem essa questão, mas não há um consenso científico. “Até porque o número de casos de asma é bem alto. Seria difícil ligar todos eles a problemas psicológicos. O que sabemos é que a ansiedade é um fator que pode influenciar”, defende a médica que atua em Brasília. Para ela, paciente e médico precisam perceber até que ponto problemas psicológicos podem estar interferindo nos respiratórios e procurar uma ação integral contra as complicações. “É um tratamento conjunto. Envolve a mente e o corpo para conseguir uma melhora completa”, defende.

José Carlos Perini, presidente Nacional da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, diz que muitos outros fatores estão relacionados à asma. “O emocional é apenas um deles, e que pode ser tratado corretamente. Temos casos de pacientes que conseguem se manter longe de crises com atividades físicas, inclusive famosos, como a jogadora de futebol Marta e o nadador Gustavo Borges. Essa é uma doença que atinge entre 10% a 12% da população brasileira e que, com atenção, pode ser combatida sem atrapalhar a qualidade de vida”, reforça.

Correio Braziliense

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