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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

“Urge que os gestores se sensibilizem e apoiem os padrões de segurança e qualidade”, diz médico responsável pelo SAMU-DF

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) do Distrito Federal pode vir a ser o primeiro serviço público de remoção do país a ser acreditado pela Joint Commission International (JCI), representada exclusivamente no Brasil pelo Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA), que, em 2012, acreditou o Amil Resgate Saúde, primeiro serviço móvel de transporte acreditado pela JCI, no Brasil

O médico Rafael Vinhal da Costa, coexecutor do Programa de Educação para Melhoria da Segurança e da Qualidade, explica na entrevista abaixo quais os enfrentamentos e os sucessos da equipe no caminho da acreditação internacional JCI/CBA. Ele que também é colaborador dos Protocolos Clínicos de Atenção Pré-Hospitalar do Ministério da Saúde e instrutor em Política Nacional de Urgências, Regulação Médica e Transferências Interhospitalares do Núcleo de Ensino em Urgência (NEU/SAMU/DF), frisa que o “SAMU do Distrito Federal sempre foi uma referência nacional para a Atenção Pré-Hospitalar. Ao longo de dez anos de funcionamento, estivemos à frente de projetos inovadores no país, como o das bikelâncias e do núcleo de saúde mental, com psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais inseridos ao serviço”.

Acompanhe a entrevista na íntegra!

O que motivou o SAMU-DF a buscar a acreditação?
Há aproximadamente três anos criamos um Observatório de Saúde, capaz de monitorar, a tempo e a hora, os indicadores de saúde do sistema. Iniciamos a construção de Protocolos Operacionais Padrão e de Protocolos Clínicos para as urgências pré-hospitalares. Estes últimos, em parceria com a Coordenação Geral de Urgência e Emergência (CGUE), do Ministério da Saúde. Mas faltava algo à nossa instituição. Sentíamos a necessidade de ir além do monitoramento de indicadores e da criação de protocolos.

O serviço estava consolidado e preparado para tonar a segurança e a qualidade princípios do atendimento pré-hospitalar. Começamos, então, as negociações com o Consórcio Brasileiro de Acreditação. E, em agosto de 2015, iniciamos o Programa de Educação para Melhoria da Segurança e da Qualidade.

Como foi a adequação do serviço aos padrões de qualidade e segurança estabelecidos pela Joint Commission International?
Os padrões de qualidade e segurança estabelecidos pela JCI são nossas metas, nossos alvos. Mas, como todos padrões de excelência, são padrões exigentes. Confessamos que os padrões de segurança e de qualidade nos fazem, acima de tudo, refletir muito sobre o planejamento e a gestão do serviço. Embora os padrões sejam claros, coerentes e pareçam óbvios de serem seguidos, adotá-los é um desafio.

A implementação da segurança e da qualidade impõe uma mudança na cultura organizacional. É necessário que todos os atores envolvidos no cenário pré-hospitalar estejam familiarizados com os padrões e que internalizem a sua importância. Nesse diapasão, a adequação do SAMU-DF aos padrões de qualidade e segurança tem sido instigante.

Como motivar a equipe a seguir esses padrões?
A mudança da cultura organizacional e dos processos de trabalho é, a um só tempo, doloroso e instigante. Doloroso, pois cada um dos trabalhadores da instituição deve estar aberto a aprimorar o seu processo de trabalho de forma a abandonar a cultura do “fazer a sua própria maneira” e adotar rotinas de excelência baseadas em evidências. Instigante porque entramos em contato com ferramentas de gestão de excelência, padronizadas internacionalmente.

Motivar a equipe talvez seja o grande segredo para a melhoria da segurança e da qualidade em uma instituição pública de saúde. Como trabalhadores do SAMU, temos a missão de salvar vidas e de garantir a saúde dos usuários do sistema de saúde. Acreditamos que prestamos um bom serviço à população. Mas não basta acreditarmos na excelência de nosso serviço. É preciso que essa excelência seja avaliada. As avaliações, em especial as avaliações externas, guiam o nosso processo de trabalho e aprimoram o nosso serviço. Nos fazem crescer. E a possibilidade de receber um reconhecimento internacional de segurança e qualidade nos move. Não apenas pelo reconhecimento, que, por si só, seria excelente. Mas, acima de tudo, por saber que estamos no caminho certo, que estamos salvando vidas com qualidade e excelência.

É isso que motiva a equipe: a eficiência em salvar vidas.

Houve mudança no processo/estrutura de trabalho por conta da acreditação?
Durante o Programa de Educação para Melhoria da Qualidade e da Segurança do SAMU foi necessário modificar alguns processos de trabalho. Uma das maiores deficiências nacionais na Atenção Pré-Hospitalar é, sem dúvidas, o controle de infecções. Não há portarias e legislação específica de controle de infecções para o ambiente pré-hospitalar. Com isso, impôs-se a criação de uma Comissão de Controle de Infecção no SAMU-DF. Essa comissão tem criado um programa de controle de infecções, mediante construção de protocolos e de cursos de educação permanente.

Outra grande deficiência de nosso serviço está na qualidade de nossas bases descentralizadas. Essas bases necessitam garantir condições dignas de higiene e repouso para nosso trabalhador, bem como assegurar uma logística adequada de armazenamento e dispensação de medicamentos, materiais e insumos.

Durante o processo, tem sido ainda necessário: rever a missão, a visão e os valores da instituição; repensar nossos indicadores de saúde, de qualidade e de resultados; refletir sobre os direitos e os deveres de nossos usuários; e, criar comissões de ética, de revisão de prontuários e de revisão de óbitos.

Quais os benefícios que a acreditação pode trazer para o serviço?
E há algum malefício ao serviço? Não, não há. O SAMU-DF e a população só têm a ganhar. A mudança organizacional trazida pelo Programa de Melhoria da Segurança e da Qualidade é capaz de dar excelência aos processos de trabalho. O Programa nos traz a certeza de que a população está sendo bem atendida, de que estamos prestando um serviço de excelência.

O SAMU passará a controlar os riscos de infecção; poderemos monitorar melhor nossos indicadores de saúde e saber se estamos evoluindo nos processos de trabalho. E haverá maior transparência para o usuário do sistema, que terá seus direitos e deveres bem estabelecidos.

Outra expectativa é com a avaliação externa e com o diagnóstico situacional realizado pelo CBA. Teremos a chance de expor as deficiências de nossas bases descentralizadas. E poderemos colocar como prioridade de nossa agenda: a garantia de condições dignas de higiene e repouso para nosso trabalhador e; um adequado armazenamento e dispensação de medicamentos, materiais e insumos.

Vemos que o Programa de Melhoria da Segurança e da Qualidade é de interesse público. Urge que os gestores se sensibilizem e apoiem os padrões de segurança e qualidade.

Quais as perspectivas futuras?
A vigilância e o monitoramento dos indicadores de saúde deve ser um processo permanente. Nesse sentido, a perspectiva é que o Escritório de Segurança e Qualidade continue vivo, realizando uma vigilância de forma contínua, gerando informações úteis de apoio ao planejamento e à gestão. Teremos, ainda, como prioridade em nossa agenda o armazenamento e a dispensação de medicamentos, materiais e insumos, além da reestruturação de nossas bases descentralizadas. É necessário que o SAMU-DF conte com a presença de farmacêuticos em nosso serviço.

E a qualidade das bases descentralizadas é condição sine qua non para processo de qualificação da instituição no Ministério da Saúde. E, com a qualificação das bases, que hoje estão apenas habilitadas, será possível aumentar consideravelmente o repasse federal do Ministério da Saúde para a Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal.

Também é preciso que cumpramos as resoluções do Conselho Federal de Medicina – CFM – e que criemos as nossas comissões de ética médica, de revisão de prontuários e de revisão de óbitos.

Nathália Vincentis
Jornalista – SB Comunicação
Tel.: (21) 3798-4357

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