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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Porto Alegre define novo plano de combate ao HIV

Porto Alegre define novo plano de combate ao HIV Mauro Vieira/Agencia RBS
Foto: Mauro Vieira / Agencia RBS
Ampliar oferta de material de prevenção e fortalecer abordagens
 como o Consultório na Rua estão entre ações a serem reforçadas
Capital é uma das 25 cidades do mundo que conta com consultoria da ONU para frear transmissão do vírus
 
Com a ajuda da Organização das Nações Unidas (ONU), Porto Alegre pretende implantar novas diretrizes destinadas a combater a epidemia de HIV que lhe atribui o preocupante título de Capital com maior incidência de aids no Brasil.
 
A cidade gaúcha é uma das 25 selecionadas em todo o planeta para receber consultoria da ONU no desenvolvimento de estratégias para conter a disseminação do vírus.
 
O novo plano, alinhado em uma reunião realizada quarta e quinta-feira, deverá ser implementado ao longo dos próximos anos dependendo de recursos e vontade política. Ele toma como base um levantamento feito por consultores do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) que resume a situação da Aids na Capital — onde se avalia que há uma "epidemia generalizada". Acredita-se que a transmissão do HIV em Porto Alegre foi mais frequente entre usuários de drogas injetáveis do que no resto do Brasil. Isso levou a uma disseminação precoce da doença entre heterossexuais em comparação ao resto do país, o que mantém os índices de contaminação elevados até hoje.
 
O documento aponta ainda quais são as principais necessidades atuais na luta contra o vírus na Capital. Uma das principais conclusões é de que os avanços da medicina nos últimos anos, que aumentaram a sobrevida de quem tem o vírus, reduziram a percepção do risco.
 
— Muita gente se surpreende quando dizemos que Porto Alegre é a Capital com maior incidência da aids, que o Rio Grande do Sul é o Estado mais atingido, e a Região Metropolitana tem 14 municípios entre os cem do país com maior incidência — afirma o psicólogo e consultor do Pnud Ângelo Brandelli.
 
Por isso, um dos motores da nova política antiaids deverá ser a elaboração de novas campanhas de conscientização, distribuição mais farta de preservativos, melhorias nos serviços de saúde, além da busca de uma maior integração entre diferentes serviços municipais, estaduais e federais com a sociedade civil — ampliando o espírito de luta conjunta contra o HIV. Outro pilar é o desenvolvimento de ações voltadas especificamente para populações como profissionais do sexo, travestis e mulheres em situação vulnerável.
 
A definição dessas diretrizes faz parte de um projeto mais amplo, fruto de parceria entre a prefeitura e vários órgãos ligados à ONU sob a denominação Plano Integrado Aids Tchê — o nome foi escolhido em reunião entre representantes dessas diferentes entidades.
 
— O plano reavalia os primeiros 30 anos de combate à aids, o que significa o avanço dos tratamentos e e a responsabilidade de outros segmentos como educação e assistência social — exemplifica o coordenador da área técnica de DST/Aids e Hepatites Virais da Secretaria Municipal da Saúde, Gerson Winkler.
 
Plano de ação contra o HIV
 
Confira algumas das diretrizes que deverão sustentar a nova política de combate à aids na Capital:
 
Aumentar a visibilidade da epidemia no cotidiano da cidade
- Construção de campanhas voltadas à população em geral e para populações específicas sobre o tema
 
- Formar multiplicadores de informação entre a população, como taxistas. Veicular informações em documentos de contas públicas municipais, como água, IPTU etc.
 
- Criar páginas em redes sociais, websites, distribuir panfletos com informações sobre saúde e funcionamento de serviços
 
Ampliar oferta de material de prevenção
- Aumentar a distribuição de produtos como preservativos em locais de grande circulação, como aeroporto, rodoviária, pontos de ônibus, banheiros públicos. Redesenhar a estratégia de distribuição tendo em vista regiões da cidade mais afetadas pela epidemia — focando linhas de ônibus, postos de saúde etc que atendem esses locais
 
Aumentar testagens
- Realizar as ações de testagem rápida em conjunto com outras ações de promoção a saúde em unidade móvel. Ampliar as estratégias de diagnóstico de outras doenças sexualmente transmissíveis
 
Reforçar as estratégias de formação para o combate à discriminação por orientação sexual
- Pautar HIV, aids e nível da epidemia na cidade como temas urgentes a serem trabalhados nas escolas
 
Fortalecer pré-natal de mulheres em situação vulnerável
- Capacitar serviços de referência para aumentar a adesão de gestante ao acompanhamento pré-natal (o que é capaz de evitar a transmissão do vírus da gestante com HIV para o bebê)
 
Fortalecer as ações de promoção à saúde, prevenção à DST/Aids e direitos sexuais que contemplem as especificidades de travestis, gays em situação de rua e em privação de liberdade
- Melhorar articulação do programa Consultório na Rua com os demais equipamentos de saúde e assistência social tendo em vista essas populações
 
- Realização de ações de prevenção e de promoção dos direitos sexuais junto a adolescentes em regime de medidas socioeducativas
 
Garantir o acesso de prostitutas e transexuais profissionais do sexo aos equipamentos de saúde
- Fortalecer as ações de abordagem de rua aliadas a campanhas de prevenção e gestão de risco destinadas a essa população
 
- Flexibilização dos horários de funcionamento dos serviços de saúde de forma a atender as necessidades dos profissionais do sexo, com algumas unidades funcionando à noite, por exemplo
 
Números no País

Capitais mais afetadas
Taxa de incidência por 100 mil habitantes:
 
1) Porto Alegre - 95,3
 
2) Florianópolis - 71,6
 
3) Manaus - 48,6
 
4) Rio de Janeiro - 41
 
5) Belém - 40,8
 
Ranking dos Estados
Taxa de incidência por 100 mil habitantes:
 
1) Rio Grande do Sul - 40,2
 
2) Santa Catarina - 36,4
 
3) Rio de Janeiro - 31,5
 
4) Amazonas - 29,4
 
5) Roraima - 27,6
 
Entrevista
 
María Tallarico, representante da ONU
 
"O HIV se tornou menos visível"
 
Italiana radicada no Panamá, onde atua como líder da área de HIV/Aids do Pnud para América Latina e Caribe, María Tallarico, 54 anos, afirma que Porto Alegre necessita elevar o alerta contra o vírus da aids para reduzir os índices de contaminação. Confira trechos da entrevista concedida durante uma reunião na Capital, onde esteve esta semana:
 
ZH — Por que a ONU se interessou pela situação de Porto Alegre em relação ao HIV?
María Tallarico — Nosso escritório apoia as representações nacionais do Pnud para projetos envolvendo HIV e aids. Temos enfoque em legislação, questões de gênero e populações com maior risco de contrair o HIV. Porto Alegre é um município que requisitou apoio, tem uma tradição incrível em áreas como o orçamento participativo, e uma população que está envelhecendo e cuja saúde, envolvendo não só o HIV, vai depender muito de políticas públicas.
 
ZH — Os resultados desse trabalho serão aplicados em outras regiões do mundo?
María — Porto Alegre está fazendo parte de uma iniciativa mundial envolvendo 25 cidades de diferentes portes e perfis. Quando se fala em serviços de saúde, direitos humanos, se olha muito para o nível nacional. Queremos dar protagonismo aos poderes locais, porque quanto mais se descentralizam os serviços, mais próximos ficam da população. Em outubro, vamos convidar representantes de todas essas cidades para um encontro mundial em que vão trocar experiências.
 
ZH — Que ações podem reduzir a incidência do HIV em cidades como Porto Alegre?
María — A atenção ao HIV vem baixando, um pouco porque a luta contra o vírus deu resultado. Mas nos fez esquecer que há sempre uma massa de jovens iniciando a vida sexual e que vai encontrar o perigo do HIV. O HIV não desapareceu, só se tornou menos visível. Não basta só falar de camisinha para esses jovens de hoje, porque eles não perderam amigos, familiares, o que nos traumatizou 20 anos atrás. Eu fiquei cansada de ver amigos morrerem. Talvez necessitemos de serviços de saúde exclusivos para diferentes tipos de população. Temos ainda de utilizar a experiência da sociedade civil, que já trabalha há muito tempo com esse tema, mas às vezes se cansa. E é preciso ainda pensar em todo o Estado, porque Porto Alegre não será uma ilha feliz se, à sua volta, o vírus estiver disseminado. Aí, ele volta.
 
Fonte Zero Hora

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