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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Anabolizante transforma mulher em “bomba-relógio”

Padrão de músculos em excesso é tão perigoso quanto a magreza excessiva

Nas passarelas do samba, nos programas de televisão, nas revistas masculinas, nas praias e academias de ginástica voltou a circular um novo padrão de estética e junto com ele a necessidade de alertar sobre o perigo do uso de anabolizante pela população feminina.

As curvas extremamente definidas, desenhadas com o auxílio de doses e mais doses de esteróides e hormônios masculinos, podem ser tão nocivas quanto à magreza exagerada difundida nas passarelas fashion ou até mesmo a obesidade mórbida que fica escondida em casa. Mais uma vez, alertam os médicos, as mulheres correm riscos em nome da vaidade.

Um desses exemplos de corrida desenfreada em busca do corpo perfeito entrou no final do ano passado no consultório do endocrinologista Hamilton Junqueira Júnior, que atende em uma clínica de Belo Horizonte (Minas Gerais) e é membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Uma mulher com menos de 30 anos, casada com um halterofilista – profissionais que participam de competições sobre levantamento de peso – passou pela porta do consultório com as feições do rosto totalmente deformadas, os membros atrofiados e mesmo assim “sentindo-se linda” e querendo mais massa muscular.

Após algum tempo de consulta, o motivo para a aparência doente da paciente foi confessado. “Em 12 dias, ela havia injetado 12 ampolas de um forte hormônio masculino. Para ter uma ideia da intoxicação, em pacientes homens e com necessidade do hormônio, é aplicada uma dose a cada 21 dias no máximo”, explica Junqueira Júnior. O mercado clandestino dos anabolizantes segue a mesma lógica do das drogas ilícitas.
“O consumo ilegal é tão nocivo que respinga até no uso médico e correto do anabolizante. Existem casos, como de puberdade atrasada, reposição hormonal após a menopausa ou diabetes, em que é necessário tratamento com anabolizante, recurso difamado pelo mau-uso.”

Longe das estatísticas
Ainda faltam pesquisas científicas que atestem o uso de anabolizantes por mulheres, fenômeno considerado recente pelos especialistas que tratam as consequências do uso nocivo dessa classe de substâncias. Os poucos números sobre a prática prejudicial à saúde ainda ficam escondidos em meio às outras publicações que falam sobre o uso de drogas.

Na semana passada o Departamento Internacional de Controle de Narcóticos, ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), divulgou um relatório sobre o alerta do uso abusivo de medicamentos. Os dados mostraram que a utilização de remédios controlados supera em número o consumo nocivo de heroína, ecstasy e cocaína somados.

Ao lado das drogas para emagrecer (os anorexígenos) e os analgésicos, os anabolizantes também foram citados como trampolim para o crescimento deste tipo de comportamento. O risco de morrer por causa deles atinge níveis máximos de alerta e já foi comprovado por histórias longe de um final feliz. No ano passado, uma menina de apenas 16 anos morreu em nome da vaidade perigosa. Moradora de Praia Grande, litoral de São Paulo, a jovem arriscava a saúde fazendo uso de produtos de uso veterinário, mas com efeito anabolizante.

Por mais ilógica que pareça a história, médicos ouvidos pelo Delas informaram que quando atendem os pacientes já com sequelas dos anabolizantes descobrem que as receitas veterinárias são as mais utilizadas. “O amigo, os balcões de academias, as farmácias irregulares, as lojas de suplemento são os grandes pólos de venda”, afirma o endocrinologista de Minas, Hamilton Junqueira Júnior.

“No caso das mulheres, não só os cardiologistas, mas os ginecologistas precisam estar atentos. É no consultório deles que as consequências do anabolizante aparecem primeiro”, afirma Nabil Gorayebe, uma das referências nacionais em medicina do esporte.

Problema unissex
A constatação de que as mulheres estão inseridas no cenário preocupante do uso de anabolizantes não significa que os homens foram descartados das preocupações dos especialistas. Os dados do Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) mostram que entre eles o uso de anabolizante foi o que mais cresceu na comparação com a utilização de outras drogas, como maconha, cocaína e solvente. Saiu de 0,1% de índice de uso em 2003 para 0,5% no último levantamento em 2005, uma população que soma 200 mil entre brasileiros.

Segundo o presidente do Conselho Federal de Educação Física (Confef), Jorge Steinhildel, o apelo para ampliar a conscientização sobre os riscos dos esteróides e hormônios já deixou de ser focada apenas nos homens. “O alerta é geral. Para homens e mulheres. A nossa experiência mostra que elas usam tanto quanto eles. O risco é geral”, afirmou.

Os danos no corpo da mulher
Se as musas estão mais fortes, com as coxas torneadas, barrigas divididas em “gomos” quadrados, braços musculosos e o crédito à forma física for o anabolizante, outras características costumam acompanhar o “corpão”, quase sempre doente por dentro. As vozes também ficam mais grossas, os queixos pontudos, os cabelos ralos e os olhos mais saltados.

Os danos visíveis, alerta o cardiologista do esporte Nabil Gorayebe, não são os únicos e os menos graves. “O anabolizante é um adubo de coisas ruins. Se a mulher tem alguma célula cancerígena que não iria se manifestar, esses hormônios vão fazer com que os cânceres se espalhem de forma muito acentuada no organismo”, afirma o especialista.

Os anabolizantes usados de maneira errada e com fim exclusivamente estético também atacam o sistema reprodutivo da mulher. Em maioria, ela para de menstruar e pode ficar infértil – danos irreversíveis. “Essas substâncias, tanto em homens quanto em mulheres, são as principais inimigas da fertilidade”, afirma o médico especializado em medicina reprodutiva, Edson Borges.

Os esteróides também dão força para as principais causas de morte da população feminina. O coração é transformado em uma “bomba-relógio”, o que facilita a ocorrência de enfartes, doença que mais mata as mulheres segundo dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Não é só isso: também aproxima delas o comportamento agressivo, conforme atestou autópsia feita por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP). Os cientistas analisaram o cérebro de camundongos que receberam doses de anabolizantes e constataram que a produção de serotonina, conhecida como hormônio do humor, é prejudicada e reduzida.

Fonte IG

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