
Influenciado pela universidade alemã, Flexner propunha a criação de hospitais universitários, com professores em tempo integral e dedicados essencialmente ao ensino e à pesquisa.
Dizia que um professor deveria atender apenas a um pequeno número de pacientes, necessários para realizar as suas atividades de docência e pesquisa médica. Celebrava-se aí o conceito do hospital universitário fechado e o conceito do "teacher-researcher", em vez do "teacher-practitioner".
A Universidade de Johns Hopkins foi criada seguindo esses ditames e influenciou a criação de novas escolas nos EUA e, sobretudo, na América Latina.
Não se deve pensar na tecnologia mais moderna e sim na mais apropriada à situação do serviço de saúde
Estudos posteriores de Kerr White mostravam o problema de se desenvolver o ensino médico em hospitais universitários, de regra, atendendo a uma parcela de pacientes com doenças mais raras e que requeriam o uso de exames complementares por vezes muito sofisticados. Esses estudos foram corroborados na Colômbia, mostrando o problema da adoção do Hospital Universitário como o local principal da formação geral de médicos.
Quando em 1966 criamos a Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília, além de adotar um ensino pré-clínico integrando ciências básicas, clínicas e sociais em módulos de sistemas orgânicos, dando desde logo ao aluno uma visão do homem em relação ao seu meio físico, biológico e social, adotamos um hospital comunitário - Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho - UISS - para abrigar o ciclo clínico do curso médico.
Aceitando a responsabilidade integral na cobertura dos serviços visando atender às demandas e necessidades da população da cidade satélite de Sobradinho, os alunos iniciavam o seu ciclo clínico estudando a comunidade e sua população e avaliando os problemas que deveriam encontrar em relação à sua saúde. Habitação, saneamento, alimentação (propunha-se hortas nas quadras), educação e condição econômica eram estudadas e discutidas (obteve-se, por exemplo, a ligação de casas provisórias à rede de esgotos que era inoperante).
O curso oferecido era igualmente integrado, comportando módulos de medicina comunitária, medicina integral do adulto, medicina integral da criança, saúde materno-infantil.
O aluno era envolvido, sob supervisão, em todas as atividades da UISS e Unidades de Saúde Periféricas, de atenção domiciliar, ao ambulatório, enfermarias e emergência, sempre apoiados por um corpo docente trabalhando em tempo integral e dedicação exclusiva. Desenvolvia-se o aprendizado em serviço (a teoria emergia da prática), em regime de "clerkship", ou seja o internato era ao longo do curso clínico. Os alunos não tinham férias longas e sim escalas de serviço e aprendiam e atingiam os objetivos cognitivos, afetivos e psico-motores definidos para cada módulo com ritmos diferentes, de acordo com sua aptidão, conhecimentos prévios e motivação.
Discutiam-se os problemas da comunidade, propondo-se soluções a todo o tempo, sempre com a participação ativa de alunos, professores, técnicos, funcionários e da própria população.
Na formatura, o orador do primeira turma de alunos dizia: "Nessa escola não tivemos obstáculos a transpor. Nosso estudo não foi a prova da memória, mas o aprendizado do entender. Nossos mestres estiveram a nosso lado sem a distância do título e o vazio da cadeira. Não fizemos um curso: vivemos ciência, criamos um método, tornamo-nos médicos".
Infelizmente os tempos difíceis que macularam nossa história nos impediu de continuar esse projeto tão auspicioso.
No momento em que se pensa em ampliar o ensino médico no país, continua-se pensando em criar novos hospitais universitários (muitos dos que existem não são sequer integrados à rede de serviços de sua região) preservando uma formação fora da realidade e das necessidades comuns de uma população. Cultivamos o diagnosticar difícil, auxiliado por uma série de exames complementares de laboratório e de imagens, protegido por médicos especialistas e por procedimentos sofisticados, por vezes. Não se deve pensar na tecnologia mais moderna e sim na mais apropriada à situação do serviço de saúde.
As pessoas são avaliadas ao longo de sua vida, por tudo e por todos, pais, filhos, companheiros, amigos, chefes, e moldam sua vida para se ajustar a essas avaliações. Ninguém quer perder amor e reconhecimento. E as universidades não avaliam os seus docentes por todas as suas atividades. Importa, sobretudo, a sua atividade de pesquisa, sobretudo para se conformar com avaliação de órgãos como a Capes/MEC, instituição de grandes méritos, mas que certamente introduz um efeito perverso que é avaliar só uma faceta do trabalho docente, esquecendo de sua atividade como professor e no serviço de saúde.
Quando quis instituir cursos de autoinstrução em ciências básicas no Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde - Nutes/ UFRJ, ouvia repetidamente frases como "vou lhe dedicar um mês de meu tempo fora do laboratório para desenvolver materiais instrucionais, ou criar questões de avaliação formativa, porque a universidade só reconhece o que pesquiso e publico".
Se quisermos formar médicos com uma formação básica integral, temos que sair do hospital universitário e caminhar para hospitais comunitários e unidades de atenção básica, sempre aceitando a responsabilidade social de prestar serviços visando atender às demandas e necessidades da população de um território definido e sempre contando com a participação plena (como membro da equipe de saúde) dos alunos.
Carlos Chagas dizia em 1918 que na escola médica devia-se "aprender fazendo e ensinar praticando". E assim deve ser. Hospital Universitário deverá ser considerado como hospital de referência, integrado a uma rede de serviços e reservado à formação especializada e pós-graduada dos profissionais de saúde.
Luiz Carlos Lobo, consultor da UNA-SUS/Fiocruz, é professor aposentado da UFRJ e foi o fundador do curso médico da UNB, em 1966.
Valor Econômico
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