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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

E agora sobre a Radioterapia

Na linha da equidade de acesso, os debates sobre o cancer do ex-presidente da República Luís Inácio Lula da Silva ainda não é tema concluído…. até porque ele segue em tratamento e novos aspectos se abrem e vão entrar em pauta.

Recebo a contribuição, que reproduzo abaixo, do colega radioterapeuta Dr. Marcos dos Santos, brasileiro atuando no Institute Gustave Roussy, em Paris, França.

“Caro Stephen

Temos todos acompanhado, independente de inclinações ideológicas, com algum grau de inquietude, o desenrolar do tratamento de um câncer de laringe que acomete o cidadão Luis Inácio Lula da Silva. O diagnóstico tinha o potencial, logo comprovado, de ter relevância política, e repercutiu na internet: Lula, trate-se no SUS! Trata-se, à parte a política, de uma oportunidade interessante para aprofundar-nos na situação atual daquele que será o principal tratamento a que se submeterá nosso Ex-Presidente. Que me perdoem meus amigos oncologistas, mas a despeito da pesada quimioterapia de indução, o prato-principal, a estrela da noite será, sem duvida, a radioterapia.

No começo da década de 90 começava a disseminar-se, de maneira consistente, o que conhecemos como radioterapia conformacional (ou 3D). Antes dela, os “alvos” do tratamento radioterápico, os tumores e os gânglios linfáticos, eram localizados a partir de raio-X. Como, neste tipo de imagem, vemos essencialmente estruturas ósseas, a posição do tumor era determinada a partir do osso mais próximo. Com todas as incertezas que essa técnica pressupõe. A radioterapia 3D apareceu quando iniciou-se a localização dos alvos à partir de exames de tomografia. Depois disso (la se vão quase vinte anos!) outras evoluções apareceram. E a grande estrela desse novo grupo é a radioterapia de intensidade modulada; em inglês: IMRT. Através desta técnica, modula-se, ou seja, altera-se a intensidade de um feixe de radiação durante a sua aplicação. E, fundamentalmente, diminui-se a dose aplicada nos tecidos sadios.

E qual é, então, a situação atual da radioterapia para tumores de laringe no SUS? Teria o nosso Ex-Presidente disponível o melhor tratamento, caso decidisse tratar-se pelo nosso sistema público?

O principal problema, hoje, quando falamos da radioterapia oferecida à população brasileira é a infra-estrutura insuficiente. Saiu no Globo de 26 de outubro último: o tempo médio de espera para o inicio da radioterapia é de 113 dias! Bem longe do ideal. Pode-se pensar, a partir dai, que uma vez vencida a fila, os problemas estariam então resolvidos, mas esta não é a verdade. O parque radioterápico brasileiro, alem de insuficiente, não pode ser classificado como “atualizado”. São muitas unidades de cobalto, equipamento antigo e ultrapassado. Além disso, os tratamentos mais avançados, como é natural, tomam mais tempo por serem mais complexos. Então são muitos os serviços que, apesar de equipados para oferecê-los, tratam os pacientes à moda antiga por simples falta de tempo. As técnicas mais avançadas são oferecidas em serviços de exceção, quase sempre quando ha formação de pessoal envolvida (residência médica) e, sempre em casos selecionados, a partir do critério do interesse acadêmico.

Então é irreal e irrealizável a vontade de uma parte da população brasileira, que se manifestou por meio das redes sociais. Ainda que Lula escolhesse um hospital publico para ser tratado, seria possível escolher um que ofereça IMRT. Existem, e de muito boa qualidade. O que não seria imaginável seria tê-lo no que se configura o principal problema atual: esperando, impacientemente, em sua residência, o dia da sua consulta e, finalmente, o inicio do seu tratamento.

Isso, simplesmente, não vai acontecer com a maioria dos políticos…. seja ele quem for.

Por Stephen Stefani



Fonte SaudeWeb

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