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sábado, 25 de agosto de 2012

Compulsão por comida é uma doença que pode ser controlada por reeducação alimentar

Entenda qual é a relação entre a ingestão e os sentimentos e como as emoções afetam sua dieta
 
Um dia cheio, uma reunião estressante, uma briga imprevisível ou uma vida parada demais. Você está cansado, irritado, desmotivado. Mas não é por isso que vai se meter com drogas, embarcar em uma viagem maluca ou largar tudo de mão. Não:sua válvula de escape é muito mais aceitável socialmente, quase imperceptível, chega disfarçada de necessidade humana: a alimentação.

– Só um pedacinho – pensa.

E lá se vai o bolo ou a caixa inteira de bombons.

Se você já passou por algo parecido, é bom ficar atento: você pode ser um viciado em comida.

O novo distúrbio alimentar – que ainda não está na classificação internacional das doenças, mas deve entrar na lista nos próximos anos – se chama “transtorno da compulsão alimentar periódica” (Tcap). A pessoa come em demasia pelo menos duas vezes por semana durante seis meses. A diferença entre se alimentar em excesso e ter a enfermidade está justamente no psicológico. Perceba: depois de devorar um prato, aflora a culpa? É um indicativo.
 
Ainda para se enquadrar como dependência, o especialista em transtornos alimentares e médico psiquiatra do Programa de Atenção aos Transtornos Alimentares da Universidade Federal de São Paulo (Proata), Glauber Higa Kaio, considera que “é preciso que a pessoa coma mais do que o intencionado, queira parar e não consiga e continue com o hábito, apesar de saber das consequências”.
 
E põe consequências nisso. Cerca de 50% das mortes, por ano no Estado em pessoas com mais de 40 anos, são causadas por doenças crônicas não-transmissíveis – como câncer arterial, infarto, derrame, diabetes, doenças de aparelho digestivo, metabólicas, entre outras – informa o diretor da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) do Rio Grande do Sul, o nutrólogo Paulo Henkin. Os óbitos poderiam ser evitados com uma alimentação sadia.
 
– É simples: se a pessoa não cuida do que come, mais tarde terá que cuidar de uma doença – diz.
 
Uma fuga da realidade
O que os cientistas estão descobrindo é que existe uma relação entre o controle do que engolimos e do que sentimos.
 
– Ingerir é uma forma rápida de suprir uma dor psíquica. É uma fuga ao nervosismo, à depressão, à ansiedade – analisa a coordenadora do serviço de psicologia do Hospital Universitário Ulbra/Mãe de Deus, a psicóloga Alessandra Wolf.
 
Segundo Alessandra, é normal consumir para “silenciar momentaneamente uma situação difícil”, pois os alimentos “fornecem uma sensação imediata de prazer”.
 
Pesquisas recentes apontam que a comida aciona substâncias que agem no bem-estar emocional. Quando se está feliz, os níveis dessas substâncias estão altos. Quando se está triste, ao contrário. E aí seu corpo clama por doses extras de entusiasmo, que vem geralmente em forma de doces, pães, salgadinhos, carne gorda...
 
– Esses alimentos têm a capacidade de satisfazer nossas emoções a curto prazo. Porém, o efeito deles em nosso organismo não dura muito tempo, o que nos leva a querer esses alimentos toda vez que temos ápices emocionais – justifica o autor americano de Dieta das Emoções, o psicoterapeuta e especialista em recuperação de dependências Mike Dow.
 
Ou seja: não é por falta de perseverança ou disciplina que você não consegue resistir:
 
– Essas substâncias agem na mesma região do sistema nervoso central que atuam outras drogas, como álcool e cocaína, que liberam uma sensação de bem-estar e prazer e podem gerar dependência – diz o doutor sobre a compulsão em açúcar e pesquisador do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Marco Aurélio Camargo da Rosa.
 
Porém, nem toda vontade incontrolável de comer está associada a estas substâncias. Aliás, essa ligação está começando a ser estudada:
 
– Acreditamos que possa haver uma dependência em açúcar, mas ainda é preciso muito estudo para confirmar – afirma Marco Rosa.
 
Segundo o presidente do departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Marcio Mancini, outros fatores devem ser levados em conta como o fator genético, metabolismo e outras desregulações nas regiões cerebrais.

Secando sem cirurgia
Neiva Terezinha Carraro, 61 anos, está faceira. E a alegria vem em números: desde setembro de 2011, emagreceu 17 quilos – sem cirurgia – e o número das calças baixaram de 48 para 40.
 
– Não tem segredo: tem que ter perseverança – aconselha a diretora de escola estadual que frequentemente trocava o almoço por uma torta inteira de limão.

A antiga dependente de doces fez uma reeducação alimentar e jura que hoje uma manga a satisfaz tanto quanto um bolo.
 
– Reaprendi os gostos dos alimentos, a apreciar o sabor natural – diz em meio a uma dúzia de laranja, limas, limão, maçã, melão e abacaxi, que têm dias contados – em menos de uma semana ela tem que refazer o estoque na feira de alimentos naturais, pois só compra produtos livres de agrotóxico.

– As frutas não são aquelas bonitonas de supermercado, mas são as melhores para o meu organismo. É que eu não gosto de coisas que não são naturais. Quando pensei em emagrecer, descartei a chance de fazer cirurgia. É como meu rosto, tem umas ruguinhas, mas são naturais e contam minha história – fala.

Quando revira o armário, mal acredita que aquelas roupas a serviam. Começou a engordar na menopausa, época que coincidiu com alguns problemas emocionais, e quando se deu conta estava “dona balofa”, como ela mesma se apelidou. Foi a hora de dar uma reviravolta. Buscou um nutrólogo e atualmente só conta benefícios:

– As roupas ficam bonitas, as pessoas te elogiam, me sinto muito mais disposta e com energia, minha pele ficou muito melhor, minhas unhas mais fortes – comenta com o esmalte rosa.
 
 E ainda intima os demais:
 
– Se eu, uma pessoa com mais idade (tem 61 anos) consegui, por que os outros não conseguiriam? – pergunta ela, que, logo depois, ao comentar das pernas mais finas, confidencia: – E nem fiquei com pelanca, viu?
 
Substâncias do prazer
A serotonina e a dopamina são responsáveis pela sensação de bem-estar. Essas substâncias são produzidas naturalmente pelo corpo, quando estamos alegres, temos altos níveis e vice-versa. Alguns antidepressivos e drogas aumentam a produção, deixando a pessoa mais alegre. Certos tipos de comida também têm esse poder, mas, assim como as drogas, se consumidas indiscriminadamente, podem levar à dependência – e a pessoa só fica bem se está recebendo essas “doses extras de entusiasmo”. A teoria descrita pelo autor Mike Dow, em Dieta das Emoções, vê como solução trocar as fontes por alimentos saudáveis – e acrescentar atividades que dão prazer, desde as físicas até as afetivas.

Serotonina
O que é?
É uma substância responsável pela calma, paz e bem-estar. Pessoas ansiosas, estressadas ou inseguras geralmente tem nível baixo desta substância.

Onde encontramos?
Carboidratos e açúcar.

Substituições saudáveis
Ervilha, ameixa, laranja, espinafre, cream cheese (light), arroz integral, galeto (sem ser frito, nem à milanesa), camarão, feijão, pistache, tomate e azeite de oliva extravirgem.
Dopamina
O que é?

Substância responsável pela energia, empolgação e vivacidade. Pessoas deprimidas, letárgicas ou com uma vida tediosa e restrita geralmente tem nível baixo de dopamina.

Onde encontramos?Alimentos ricos em gordura: carne vermelha gorda, frituras, sobremesas gordurosas, salgadinhos e bebidas com alto nível de cafeína.

Substituições saudáveisFrango e porco (sem serem fritos ou à milanesa), ovos, salmão, atum, ervilha, feijão, brócolis, morango, mostarda, tomate e lentilha.

* Fonte: Livro “Dieta das Emoções”, de Mike Dow, editora Leya
 
Comida perfeita x corpo perfeito
A mídia, segundo o psiquiatra e autor do livro Emagrecer Também é Marketing José Rui Bianchi, promove duas idealizações que são incompatíveis: o corpo “perfeito” e a comida “perfeita”.

– Na nossa cultura, a magreza adquire outros status, como a imagem de também ser bonito, perfeito, ter sucesso, poder e riqueza – diz o especialista em transtornos alimentares e médico psiquiatra do Programa de Atenção aos Transtornos Alimentares da Universidade Federal de São Paulo (Proata), Glauber Higa Kaio.
 
De um lado, propagandas alardeiam a felicidade vinda de hambúrgueres, pizzas, doces e tudo que estimula o paladar e engorda a pessoa. De outro, corpos sarados e esbeltos se exibem nas telas, como se ser magro e saudável não demandasse muito esforço e dedicação.
 
Para manter o controle da comida, “é necessário muito controle emocional, o que significa ser metódico em relação a alimentação e estilo de vida. Esse ser metódico quer dizer sufocar certos prazeres em favor de uma boa alimentação. Isto não é fácil”, julga Bianchi.
 
 Fonte Zero Hora

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